Luiz Geraldo Mazza
Belinati e o ‘‘aviãozinho’’
O populismo é uma deformação que penetrou fundo nas práticas brasileiras. Mesmo a evidência de que o Estado, em todos os seus níveis, ‘‘quebrou’’ parece insuficiente para levar os seus cultores a um mínimo de racionalidade. A idéia de Antonio Belinati (se é que se pode assim chamá-la) de distribuir ‘‘grana’’, de forma indistinta, entre as prefeituras é apenas mais uma de suas artimanhas para pressionar o governo e obter, lá na frente, alguma vantagem. Como fez, aliás, logo depois de ser eleito em segundo turno, o que deve em grande parte à mobilização do governo que fez desembarcar em Londrina uma força-tarefa para elegê-lo. A pretexto de defender o setentrião, manteve uma campanha de ameaças como a de trazer ao Palácio Iguaçu os prefeitos e líderes insatisfeitos.
Em primeiro lugar, as saídas para o municipalismo devem se dar no plano institucional e na hipótese de revisão do pacto federativo. Distribuir, a três por dois, R$ 500 mil a cada município é a cópia das práticas de Sílvio Santos a partilhar ‘‘aviõezinhos’’ de R$ 50 entre suas ‘‘colegas de trabalho’’, como se estivesse adotando aquele brinquedo de infância do passado chamado ‘‘aleluia’’, em que se lançava ao espaço algum objeto ou dinheiro para ser apanhado pelos participantes.
Esperar, todavia, que surja do repertório de Belinati algo consistente em termos ideológicos e doutrinários, ainda mais quando o seu empenho visa acuar o governador (que já é reticente, indeciso e que com isso alimenta manobras do gênero), é demais. Não é justo que uma cidade que tem se caracterizado como um exemplo (não em todos os casos é claro, como se vê) fique exposta dessa forma ao pior dos constrangimentos, como se não fosse um grande centro universitário e como se não tivesse paradigmas como Hugo Cabral, Milton Menezes, José Richa, Hosken de Novaes, que jamais fariam no poder cortejamentos primários ao que há de pior e mais devastador e contaminante na demagogia.
E para começo de conversa, esse dinheiro não existe e o prefeito sabe disso, mas instiga os colegas desesperados para criar constragimentos ao governador. Na próxima vez em que o governo tiver que intervir eleitoralmente em Londrina será preciso avaliar o custo-benefício: uma derrota eleitoral às vezes é melhor do que uma vitória que possa transformar o benfeitor em refém, e a relação com o vencedor num permanente sequestro.


AFORÍSTICO
Se o fim do Banestado, iniciado ontem, é motivo de festa, dá para suspeitar que haverá mais anistia do que se imagina com a sua privatização.
BIZARRICE A vigilância sanitária, como se não tivesse coisa mais séria para fazer, interveio nas drugstores removendo o setor de conveniências que forma o ‘‘mix’’ do sistema (refrigerantes, utilidades domésticas). Numa pesquisa da CBN, a maioria esmagadora defendeu o sistema como prestador de serviço da melhor qualidade. Um dos consultados deu uma razão incrível em favor da rede: sua mulher, grávida, de madrugada, quis tomar sorvete que só achou na farmácia.
Um detalhe a favor do drugstore: a rede é a única que mantém 24 horas por dia um farmacêutico responsável, prova de que sua preocupação maior é com a saúde. As conveniências (que existem hoje também nos postos de gasolina) estão em local distanciado da parte essencial, farmacêutica.
AXIOMA Um ritual comum parece perseguir estatais que são privatizadas: antes disso acontecer, seus serviços caem de qualidade. Deu-se com a Telepar, está ocorrendo com o Banestado e a Sanepar e, de repetente, atinge a Copel.
GLOSA Mais uma fuga de presos na capital. O que é rotina não é notícia: sequestro, assalto a banco e extermínio também assim se classificam. Notícia é quando a polícia esclarece alguma coisa.
SPRAY A briga, surda, por áreas de influência na Polícia Civil persiste. De pouco valeu a nomeação de um delegado geral não alinhado entre as facções que há muito se digladiam - Muita gente, que poderia ser aproveitada nos quadros policiais, preferiu pedir aposentadoria a ter que tomar posição entre esses grupos - Todos sabem que a intenção do governador e do secretário era nomear o delegado Noronha, que perdeu para Newton Rocha, que teria sido patrocinado por Aníbal Khury. Agora há a queixa de que delegados ligados a Noronha estariam sendo aproveitados. - Tudo isso leva jeito de meia verdade: Aníbal, de fato, defende algumas designações, como se viu em Foz do Iguaçu e Maringá, o que não significa que domine inteiramente a área. Mas há muita gente que age em seu nome - Se os indicados por outra facção forem tecnicamente competentes, não há restrição maior. O que não pode é essa disputa dar fundamento à ‘‘sabotagem’’ interna. - O fato é o seguinte: a polícia está mais rica em doutrina e pobre em resultados. E a confiança da população só melhora com resultados. - Limpar a folha de pagamento do funcionalismo de descontos vai dar economia, pois essas consignações implicam em gastos elevados e retorno mínimo. Criará, no entanto, dificuldades a sindicatos e associações, pois é quase certo que muita gente aproveitará a oportunidade para cancelar os pagamentos. - Tráfico de influência (advocacia administrativa) na gestão atual sob o foco do Ministério Público. - Um assessor da Universidade Federal insiste que erro quando digo que os ricos é que se aproveitam da gratuidade: se considerarmos que a renda domiciliar média de Curitiba mal se aproxima de R$ 700, pode-se considerar que dos 3.638 aprovados no vestiba, 78,11% se originam de estratos com renda acima de R$ 1 mil. Apenas 0,21% têm renda abaixo de R$ 130, 5,58% entre 131 e 500 e 15,69% de R$ 501 a R$ 1 mil. Apenas 21.88% classificáveis como mais pobres. - Advogado Antonio Neiva Macedo requereu no Tribunal de Contas certidões referentes aos fundamentos dos atos de aposentadoria de vários servidores em 1998.
FOLCLORE Laérzio Campelli, jornalista boêmio, sai de ‘‘O Estado do Paranᒒ e quando está na praça Osório lhe dizem que Munhoz da Rocha, nomeado ministro da Agricultura, pode vir a ser vice-presidente. Informado quando o jornal estava fechado, junta as mãos em concha acústica no meio do logradouro e com voz alta se dirige aos prédios, repetindo a manchete oralizada, como se fosse um arauto dos tempos clássicos:‘‘Bento pode ser vice-presidente!’’
CROMO Luisinho, meu neto de 5 anos, está entregue ao cavalgar sobre um cabo de vassoura e depois de percorrer pradarias imaginárias se pergunta ‘‘Acho que estou fazendo um papel de bobo!’’ Após a reflexão, volta ao animismo. Brecht puro, exposição direta do ‘‘distanciamento’’.

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