O governador decidiu estender a todos os sindicatos a proibição que já havia sido adotada relativamente aos professores: o corte dos descontos em folha de pagamento. Se de um lado fixou ao menos o princípio da isonomia, isto é, da igualdade de tratamento, generalizando a retaliação contra a APP-Sindicato, revela-se cruel e injusto porque obviamente não terá coragem de impor igual restrição às associações dos magistrados, procuradores, advogados, delegados de Polícia e, especialmente, da galharda entidade do Ministério Público.
Se não o fizer terá transformado seu ato de aparente coragem em esparramada e notória covardia. Forte contra os pequenos, macio diante dos grandes. Como o governador se disse amparado por decisão judicial - isso é discutível porque não transitou em julgado e há ainda um dispositivo constitucional que, submetido à interpretação extensiva, fulmina esse entendimento - espera-se que a batalha se dê nesse âmbito e não no das demonstrações da selvageria sindical com greves de fome, ocupações de órgãos governamentais e das praças de pedágio do Paraná, como um certo tipo de radicalismo sugere.
Na hipótese de o governador cortar as consignações dos setores privilegiados, obviamente enfrentará uma tempestade mais sutil e diplomática, mil vezes pior, no entanto, em nossa sociedade cartorial, do que a dos sindicalistas. Não dá para imaginar um juiz ou delegado de Polícia fazendo greve de fome em revide ao corte, ou muito menos berrando na rua e fechando a porteira do pedágio.
Sindicatos em situação como a do Brasil tendem a perder força. Já não podem ir ao recurso da greve, como se vê com a mais arregimentada das categorias - a dos metalúrgicos. Estamos diante não apenas do fim de algumas profissões, como a dos bancários, por exemplo, com a automação e a moeda de plástico, mas do próprio sindicalismo alicerçado no trabalho, cuja fragilização, como fator de produção, é inegável. A perda de associados fere de morte os sindicatos e isso se dá com metalúrgicos e com bancários, por exemplo. Com o corte dos descontos, Jaime Lerner pisa no tubo de oxigênio dessas instituições, já sem força com empregados de salários arrochados e ainda com medo de perder o emprego. Enfim, uma decisão mal inspirada e que não traz os retornos esperados. Prova de que o espírito dos trapalhões se mantém em cena. O original, Renato Aragão, já anda complexado com tanto virtuosismo.
GLOSA
O Calígula, lá do inferno, viu o que acontecia anteontem no Brasil com a ferrada em cima dos velhinhos e entrou em crise à procura de um psicanalista: achava-se definitivamente um amador.
BIZARRICE Rafael Greca, como era de se esperar, deitou e rolou na reabertura do Maracanã. E com frases ornamentais e metáforas, como se visasse a superar o Nelson Rodrigues, irmão do Mário, que dá nome ao estádio, sugeriu que faria o Museu do Futebol e transformaria o local no Louvre brasileiro. Aí um curitiboca que ouviu a cena entendeu mal: achou que ele falava do Louvre de Curitiba, da família Calluf, aquele da Rua XV, que pegou fogo e agora foi restaurado, e que já estava arrumando uma sinecura para o Munir.
Por sinal que, folcloricamente, dizem que um dos jogadores do Coritiba em excursão à Europa (anos 70) ficou impressionado com a ‘‘matriz da loja do Munir Calluf em Paris’’ e que na cidade de Colônia, Alemanha, um zagueiro do Coxa demorava para pegar o ônibus de ida ao aeroporto porque estava enchendo dois litros de água de colônia para levar para sua esposa, muito vaidosa.
AXIOMA Luis Carlos Hauly, líder do governo no Congresso, apontado como pé-quente em função das últimas vitórias de FHC, é tido como pé-frio nas disputas para o Executivo: tentou sair candidato a governador, quando seu fiel aliado, Álvaro Dias, estava no Palácio Iguaçu, e não chegou nem à convenção; quando visou a prefeitura de Londrina, dançou também e só emplacou em Cambé.
SPRAY Quem está preocupado com o saneamento do Banestado é o pessoal que dirige a Funbepe, o fundo de pensão: acham que os inadimplentes não vão pagar e estão pensando numa forma de assumir algum papel na cobrança das dívidas. - É apenas um delírio porque está se armando um cenário para jogar a craca embaixo do tapete e ‘‘anistiar’’ os devedores. Os políticos fingem amor pelo banco, mas o que desejam é que não haja cobranças. - Algumas figuras do mau jornalismo estão entre os devedores, empresários rurais (desses que fazem candentes discursos contra os sem-terra, como se os sem caráter não fossem também fora-da-lei), parlamentares atuais e do passado, incorporadores de imóveis etc. - Um encontro para agilizar ações entre o Ministério do Esporte e Turismo, a secretaria estadual e empresários estava agendado para hoje no BRDE. - Diretoria de Marketing da Secretaria de Esporte e Turismo analisa o projeto ‘‘Conferência do Descobrimento’’, elaborado pelo arquiteto Marco Alzamora e o advogado Daniel Renout da Cunha. Trata-se de um megaevento para uma conferência mundial dos direitos fundamentais para o 3º Milênio em cima das comemorações dos 500 anos do Brasil. Rafael Greca também estuda a proposta do arquiteto paranaense e do advogado baiano. - Governador Lerner entra numa onda próxima de inaugurações, a maioria da iniciativa privada, marca desse tempo: a primeira delas será o conjunto fabril da Tafisa, de Piên, e, em seguida, o Terminal Multimodal de Cascavel da Ferroeste, que representou um investimento de US$ 2 milhões numa área de 70 alqueires, criando um fator de infra-estrutura de primeira grandeza como polarizador da grande cidade do Oeste.
FOLCLORE Quando o assessor presidencial comunicou a vitória do governo na obrigatoriedade dos aposentados do serviço público de pagarem 25% para capitalizar fundos de previdência, um dos criativos e diligentes técnicos lembrou: ‘‘E por que não cobrar os atrasados desse pessoal para afinar o ajuste fiscal?’’
Outro disse que tinha idéia melhor: ‘‘Que tal taxar os que já morreram?’’
CROMO Calor, mormaço, chuva: todo o dia a mesma coisa. Quem está feliz é o vendedor de sombrinhas e guarda-chuvas, profissional sazonal, mas nesse tempo com ocupação diária. As estátuas da cidade tomam banho, os defuntos bebem a água infiltrada sem temer infecção.
AFORÍSTICO Vender a idéia do Fundo de Previdência numa articulação com outros governadores é uma boa iniciativa de Lerner, que pode servir de arremate para uma renegociação indireta das dívidas estaduais.

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