Luiz Geraldo Mazza
Há uma passagem de O Pequeno Príncipe, o livro de Saint-ExupSry, mais citado pelas misses, aplicável ao nosso presidente em suas insistentes tentativas de controlar fatos econômicos com palavras e encenações. Num determinado planeta, o Pequeno Príncipe deu de cara com um rei, que não tinha súditos, mas adorava dar ordens. Como o principezinho estava resfriado e espirrava, o monarca, irado, exigia, em altos brados, que ele parasse de espirrar e tossir. Como ele via que de nada adiantava, passou a exigir que tossisse justamente quando o surto chegou ao fim.
Mais ou menos, metaforicamente, o que se dá no Brasil nesse preciso instante com o presidente da República, quase reproduzindo as imagens do seu antecessor mais remoto, beneficiário também de planos econômicos com direção eleitoral, o bigodudo Sarney, imaginando a impossível ressurreição do Cruzado como FHC faz agora com o Real, depois da subversão cambial. Como, perguntaria um lógico, ressuscitar o que não morreu? Ou estaríamos, a rigor, diante de ato falho e de uma confissão, ampla e restrita, de que o Real já era?
A inflação reaparece com outra roupagem: matérias-primas e insumos, que dependem de alguma forma de importações, subiram e a rapidez com que se dá isso não pode ser acompanhada pelas intervenções oficiais, como a de reduzir tarifas para facilitar esses ingressos no mercado. Se faz isso de um lado, aumenta de outro a importação. Enfim, a capacidade de manobra é restrita e o açude começa a vazar, não havendo dedos nas mãos (dá para lembrar o símbolo das mãos e que era o forte da primeira eleição) para controlá-los.
Idéias como a de administrar preços, sabidamente uma inocuidade e um choque paradoxal na economia de competição, voltam à tona com os alquimistas de sempre, trazendo as mesmas panacéias com embalagens diferenciadas. O presidente está enfraquecendo, mesmo com as vitórias parlamentares que vem acumulando, insuficiente, como fator de compensação, para a perda daquela imagem de homem providencial, bem ao gosto brasileiro, que era cultuada.
O homem providencial, o que prevê e provê, deformação patriarcal, presente em lideranças como as de Getúlio, JK, Jânio e mais Collor, pode deixar de ser uma referência. E isso já seria um ganho.
AFORÍSTICO
Resta agora esperar - e a esperança é sempre vizinha da utopia - que a polícia detenha maior controle sobre desmanches de automóveis.
BIZARRICE Osmar Dias, senador, e que esperava a nomeação do irmão para o gabinete de FHC, ao saber da indicação de Rafael Greca para o Ministério de Esporte e Turismo sentenciou: o único esporte que ele praticou deve ter sido a amarelinha. E também, é claro, roda-cotia, passa-anel, barra-barra manteiga, pega-ladrão, cabra-cega, esconde-esconde.
AXIOMA Costuma-se dizer quando algo falha que entrou areia no negócio. Pois um caso concreto desses é que ameaça o deputado federal Roveda de perder o mandato em favor de Piovesan. Toneladas e toneladas de areia foram distribuídas aos eleitores, conforme denúncia em apuração pela PF.
GLOSA Se o Banespa, saneado em parte, obteve uma alta de 70% de suas ações num momento em que a média da Bolsa registrava 35% negativos, por que não se adota uma solução federalizadora para o Banestado?
SPRAY Nesta semana Lerner conversa com Garotinho, seu colega do Rio, sobre suas propostas: a do Fundão, muito boa para aprimorar o ajuste fiscal, e a do Fórum de governadores. Como o carioca já esteve com FHC, o encontro pode render algum fruto. - A circunstância de Paulo Bernardo ser o secretário da Fazenda de Mato Grosso do Sul é um fator adicional para tentar proselitismo junto ao colega Zeca do PT. - Essas duas iniciativas já postas à mesa na reunião dos governadores em São Luís, Maranhão, são importantes. - Há chances de a União facilitar a montagem dos fundos de pensão nos Estados, até estabelecendo compensações por esse reordenamento interno. - O livro do Malu (Luis Alfredo Malucelli) Nem só de pão vive o homem tem todos os ingredientes para ser um sucesso: estorinhas leves de jornalistas, políticos e empresários e um farto receituário de culinária, outro campo do autor. - Amanhã o secretário Cândido Martins de Oliveira, da Segurança, apresenta um plano de reestruturação doutrinária e operacional da Polícia, colocando-a mais próxima do cidadão e a caminho da excelência. Prioridades: a questão carcerária e distritalização para descentralizar as ações de prevenção e repressão. - Veto de Lerner à lei do Fundo de Previdência vai ser aprovado: septuagenários vão ter que pagar suas contribuições porque senão o sistema nasceria com aleijão congênito num furo de mais de R$ 1,5 milhão mensais, e com essa dureza não dá para brincar porque todos os pensionistas e aposentados ficariam sob ameaça. - Uma evidência da farsa ecológica em Curitiba está no fato de que o lixão da Lamenha Pequena, que foi soterrado para evitar a poluição do Rio Passaúna, está praticamente retornando nas proximidades da área anterior com novos despejos. - É possível que a partir de hoje haja mudança radical na forma como o governo faz aproximações e distanciamentos em política. É o fato novo do governo Lerner com o Tato Taborda na Casa Civil. Repórter, analista político, cineasta, procurador e juiz, e muita vivência no exercício de tantos papéis.
PARADOXO O Palmeiras é patrocinado pela Parmalat e o Corinthians por uma de suas subsidiárias, antigamente paranaense, a Batavo. Marcas nossas nunca mais. Quando o Coritiba foi campeão em 85 levava a marca Britânia. Até hoje, ao menos por enquanto, paranaense.
EPIGRAMA O aparelho robotizado que acionava a tesoura para cortar a fita inaugural da Audi-VW, no anúncio da empresa, é olhado, antes de tudo, como um castrador de mão-de-obra. E como corta!
FOLCLORE Getúlio Vargas foi vaiado no Pacaembu pelo povão e no Jockey Club por uma certa elite. Se ele, que era um mito, como nunca existiu neste País, enfrentou tais riscos, dá para imaginar o que poderia ter ocorrido com Rafael Greca no Maracanã, no qual ele não vê mais do que uma Pedreira Paulo Leminski ampliada.
CROMO A cachorrinha poodle, com maternidade psicológica, e que adotou um celular como filho imaginário, nada mais fez do que cultuar um dos ícones da modernidade, às vezes bem menos relevante do que um pão, mas bem mais forte como símbolo no universo do consumo.





