Sai a âncora cambial, entra a âncora fiscal. Esse o discurso de ontem, quando ainda se fazia o monitoramento da crise e seus respectivos efeitos nas bolsas e na economia. Enfatizava-se, enfim, aquilo que deveria ter sido feito há mais tempo com a prioridade das reformas que o governo federal perdeu no jogo de braço e nas concessões forçadas pelos aliados.
A entrevista de ontem (o presidente FHC, bem mais tenso do que pela manhã, quando inaugurou a fábrica da Audi-Volkswagen, momento em que esbanjava bom humor), dos que se encarregarão da batalha das reformas com o chefe de Estado e mais o seu vice-presidente e os dirigentes do Senado e da Câmara deram um tom solene e grave àquilo que há de mais emergencial. O mercado, ainda não tranquilizado, captou a sinalização do governo e do FMI: o objetivo-chave está nas reformas, a começar pela previdenciária, batalha decisiva, na qual o governo perdeu vários ‘‘rounds’’, como se sabe.
Em toda essa turbulência, uma tarefa árdua para Luis Carlos Hauly, paranaense alçado à condição de líder em exercício do governo no Congresso, isto é, nas ações que se processarem nas duas casas. Resta saber se o governo acumulou a suficiente credibilidade, interna e externa, para que convença a classe política da necessidade das mudanças propostas. A reunião de ontem dos governadores de oposição, que pretendem renegociar outra vez as dívidas sob a alegação de que perderam espaços de manobra, apenas acentuou o detalhe importantíssimo de que a sociedade politicamente aberta é prestigiada no instante em que se pretende fixar um ordenamento livre da economia.
Dentro de mais alguns dias, nos cintilógrafos das Bolsas, saberemos como o mercado reagiu à flutuação livre do câmbio, o que estará na dependência também do furor da área política. Há quem diga, no entanto, que estamos mais perto agora de uma retomada do desenvolvimento do que antes.
EPIGRAMA
Na reunião dos governadores uma dúvida para medir níveis de seriedade. Quem é mais autêntico ou postiço: o topete (Itamar) ou o bigode (Dutra).
GLOSA Numa reunião da Embratur, ao discursar, o ministro Rafael Greca apontou para um equívoco na produção da imagem do Cristo Redentor que fora distribuída internacionalmente e que figurava em destaque na sala da presidência da estatal: haviam invertido a imagem na revelação. E Rafael Greca se referiu à falha, dizendo que o Criador não pode ficar de costas para Niterói.
AXIOMA O debate esportivo saiu da mesmice com a provocação do Carlos Alberto Pessoa na CNT, desmistificando esse culto exagerado à figura do técnico de futebol, ao dizer que ele é ‘‘relativamente útil, mas não indispensável’’. As pessoas se mostram despreparadas para discutir mitos e tabus. Da mesma forma que, no passado, olhava-se o cinema na perspectiva do ator; só dos anos 50 em diante é que o diretor se tornou em fundamento maior. O Nego Pessoa não aceita a analogia porque para ele o diretor de um filme se insere mais no processo da criação do que um técnico no futebol, normalmente um ator que joga para o público dando gritos que os jogadores não ouvem, como se dá com Luxemburgo, Leão, o Felipão, retóricos, discurseiros, repetidores de clichês. Um dos que sabiam como ninguém magnetizar a crônica, por suas atitudes e linguagem ferina, era o João Saldanha.
BIZARRICE Sábado o governador foi ao seu cabelereiro, o Zé Trindade, e depois de ajustar a melena deu uma chegada no Bar do Maneco para encarar um chopinho gelado. Alguns minutos de descontração e, é claro, ouviu algumas sugestões para ações de governo à frente do balcão, felizmente de papo e não de negócios. Antes esse exercício era feito no Bar do Pasquale, Passeio Público.
SPRAY Um curioso afrontou os guardiães do Parque da Barreirinha ontem e ficou estarrecido ao ver grupo de funcionários derrubando uma árvore. Pegou uma das folhas do exemplar e a levou para o Ibama. - Por falar em meio ambiente, dentro em pouco teremos mais ONGs do que árvores. Agora criaram uma associação que leva o nome do geólogo João José Bigarella, um dos homens-chave na luta pela instalação do Parque Estadual do Marumbi. Nos anos 50 e 60, houve um projeto do deputado federal Antonio Biscaia, criando um parque nacional, o que acabou não acontecendo por não haver prosperado a iniciativa. - Outra de ecologia: acusam a Prefeitura de Curitiba de estar aterrando um fundo de vale também na Barreirinha. - Depois de amanhã, Cândido Martins de Oliveira, da Segurança, deve apresentar um mapeamento rigoroso das ocorrências mais graves em todo o Paraná. Mais de 92% do levantamento já está pronto. A prioridade da área já foi definida: a superlotação carcerária, razão de tumultos e fugas e também da infiltração do Comando Vermelho e do Segundo Comando nesses locais. - Depois de quase dez anos sem Carnaval, Campo Mourão, por iniciativa da prefeitura, debate o caso com interessados nesta quinta-feira na Casa da Cultura. - Há quem insista, no respeitante a Curitiba, que era indispensável fazer a experiência de um não-Carnaval, pelo menos uma vez. Basta a prefeitura cortar o patrocínio e a festa some. Ela é chapa branca tal qual nossos meios de comunicação. - O publicitário Ernani Buchmann tem aquela idéia de fazer festivais de arte, com o que se atrairia para Curitiba as massas, imensas, majoritárias, sem dúvida, dos anticarnavalescos. - Exploração privada do Parque Nacional do Iguaçu tem um empresário paranaense no ‘‘bolo’’: Salomão Soiffer, pioneiro dos shoppings modernos como o Mueller de Curitiba e Joinville.
FOLCLORE Nesses momentos de tensão é apropriado lembrar das cenas no Palácio Iguaçu, na noite de 31 de março para 1º de abril. Todo mundo estava no aguardo de um manifesto de Ney Braga que deveria (da mesma forma que o de Magalhães Pinto, que iniciou a articulação em Minas) defender as reformas de base para não parecer ‘‘reacionário’’. Volta e meia chegava um deles nas mãos do governador. Foi nesse momento que o José Cury, da revista Panorama, com documentos à mão, aproximou-se de Ney Braga e este já achava que era mais uma proposta de manifesto quando o publicitário atalhou, gaguejando, como era do seu estilo: ‘‘E as fa-fa-faturas da Pa-pa-norama, quando vão ser pagas?’’
CROMO Pessimista é aquele que ao ouvir o rumor da chuva se desloca ao fundo do quintal para continuar a construção da nova Arca de Noé.
AFORÍSTICO Quem ouviu FHC, ACM e Michel Temer e depois os governadores em Minas sobre a situação fiscal descobriu que o louco é ele, não os outros. Afinal todos estão forrados de razão.

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