Luiz Geraldo Mazza
Não há uma só pessoa, versada na questão dos direitos humanos, que não veja como problema essencial a forma como a polícia trata as pessoas no Brasil e em especial os pobres (aduz-se aí para o trocadilho com outras palavras começadas com pê, os pretos e as putas). Só haverá cidadania quando essa chaga cultural for extirpada e a autoridade deixar de tratar o suspeito como culpado.
É claro que contribui muito para a persistência dessa deformação a prática diária dos meios de comunicação social, especialmente rádios e tevês, em que donos de programas, arvorando-se em delegado, promotor e juiz ao mesmo tempo, escracham a três por dois a fauna de pobres coitados, mais vítimas do que autores de delitos e de violência. O escracho é visto (embora a maioria dos casos só atinja gente pobre ou, quando melhor situados na pirâmide social, despojados de apoios institucionais na polícia e no Judiciário), pelos que se arrogam como autoridades delegadas do conjunto da sociedade, numa forma de pedagogia indispensável, quer para promover um policial ou supostamente para restituir o perdido sentimento de segurança da população.
Quando participo de seminários ou de palestras, cito invariavelmente um exemplo curitibano do jornal de maior circulação nessa área e que colocou na primeira página o autor de uma violência contra menor (estupro) com os pêlos raspados, com bobs nos cabelos e vestido como mulher com o título anunciando que o bandido virou a mulherzinha do presídio. Ora, se o jornal fez tudo isso, com tal liberdade, é porque se acertou com o delegado e demais servidores. Aí há o crime do jornal e dos policiais que, no entanto, entendiam que estavam justiçando o anormal, fazendo um tipo de jogo que a massa, por ignorância e falta de sensibilidade, acha mais do que legítimo.
A referência ao fato, que decorre da simples banalização da violência e de uma cultura que precisa ser mudada radicalmente, é feita porque o novo delegado-geral, Newton Rocha, ao assumir o posto anteontem, enfatizou os aspectos civilizatórios da polícia quanto à cidadania na prioridade da prevenção sobre a repressão. Os vícios da sociedade, mal educada, e também da polícia, acionam um processo reacumulativo, ainda mais quando é notória a intervenção da política primária no contexto e que facilita situações de claro comprometimento entre a instituição e o crime, como se viu no envolvimento da delegacia de Almirante Tamandaré e na acusação do delegado Adauto de que 33 policiais da Anti-Tóxicos estavam envolvidos no tráfico e em extorsão.
Newton Rocha tem credenciais para o posto: seu discurso de posse não merece qualquer restrição sob o aspecto doutrinário. Juntar, porém, a teoria, tão bem exposta, à praxis não é fácil. Cândido Martins de Oliveira voltou ao posto como se estivesse reciclado, disposto a uma revolução, e seu auxiliar-chave na Polícia Civil está sincronizado a esse propósito. Espera-se que as coisas melhorem significativemente, o que vai depender de uma nova cultura não apenas dos policiais, mas também dos políticos no seu abusivo poder de intervenção na área por excesso de tolerância e passividade do governador.
AFORÍSTICO
Na virada do câmbio há um pouco da ginga de Garrincha e da folha-seca de Didi
BIZARRICE A gozação com nossos irmãos portugueses é permanente. Dizem que o filme Ben-Hur foi intitulado O charreteiro infernal e Vertigo de Hitchcok (Um corpo que cai) como A mulher que viveu duas vezes.
Por falar em Ben-Hur, num fim de semana na Boca Maldita fui cercado por dois amigos apelidados de Cara-de-Cavalo que queriam, a todo custo, me tirar da roda em que me achava. Quando me vi puxado, na mão esquerda por um, na direita por outro, protestei em voz alta Sou o Ben-Hur tocando a biga romana!
AXIOMA O que Requião faria no governo, se tivesse ganho de Lerner: adotaria a linha de Itamar (o grito contra a privatização da CEMIG, o calote) ou a de Olívio Dutra, mais maleável e que se dispõe a caucionar em juízo as dívidas como cautela para discutir tudo política e juridicamente?
Dutra vai discutir as concessões fiscais às montadoras, o que Requião também provavelmente faria; Itamar reverá privatizações, como Requião adotaria.
Dutra é mais firme e mais contido emocionalmente do que Requião; Itamar é mais extrovertido, Dutra ganha em credibilidade.
GLOSA Miguel Salomão, do Planejamento, saudou a correção de rumos da política do governo federal, dizendo que agora ela é estimuladora da produção, do consumo e da exportação e que pune, justamente, a especulação, antes tratada com privilégio. Sobre os efeitos das medidas no Paraná lembrou dos empréstimos bloqueados no Senado e cujas próximas parcelas nos beneficiarão pelo fato de obtermos com elas mais reais internamente.
SPRAY Governo estadual está disposto a vender não apenas imóveis como também automóveis (fala-se em 7.000). Pergunta-se: se acham que há carro demais por que, afinal de contas, se insiste na locação de veículos? - As empresas que fazem a locação aparecem como contribuintes de campanha eleitoral. Será que o ajuste fiscal conflita com o desajuste eleitoral? - Um dos maiores conhecedores da situação patrimonial do Estado era o engenheiro Egon Ferencz, que faleceu há pouco tempo. É surpreendente que em sua cabeça houvesse melhor detalhamento do que o que foi informatizado. Há muitos casos assim em outras áreas. - Governo estadual cortou, em seu esforço para diminuir cargos de confiança, mais de 700, o que parece muito, mas não é, já que persistem quase mais 3 mil. Se cortasse o número de secretarias, a depuração seria bem maior. Não há uma pessoa minimamente equilibrada que ache necessárias tantas pastas. Se com esse exagero, enfrenta a animosidade de aliados, dá para calcular o que aconteceria se partisse seriamente para a austeridade e o enxugamento.
FOLCLORE No ato de lavagem das escadarias da igreja do Nosso Senhor do Bomfim, na Bahia, ritual sincrético que mistura o candomblé com o catolicismo, Rafael Greca entrou na dança, dando vivas ao Brasil. Parecia um novo baiano que poderia integrar-se a Gilberto Gil, Caetano e companhia. Mais um pouco e desfila com os Filhos de Ghandi e dança a timbalada. Puristas da terra queriam que ele entoasse músicas de Belarmino e Gabriela e distribuisse pinhões cozidos.
CROMO A pajelança dos índios apagou o fogo de Roraima. É possível que tenha funcionado na recuperação das Bolsas. Hoje índio quer mais do que o apito.





