Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Hora de beliscar
Demonstrada a fragilidade do Brasil, evidenciada nos últimos episódios e na medida heróica da liberalização do câmbio, todos, no plano institucional, querem dar o seu belisco. Nas ondas de Itamar Franco entram, de forma parcial, até mesmo os governadores alinhados, e os da oposição praticam atos de beligerância como o Olívio Dutra, do Rio Grande do Sul, que deseja caucionar as parcelas de sua dívida para tentar ressarcir-se no futuro, tal a convicção de que a maioria não terá como cumprir o acordo da rolagem. Gesto bem mais elegante, sob o ponto de vista jurídico e técnico, do que o do topetudo.
Depois de amanhã é a vez dos prefeitos, que pretendem botar mais caldo nas ações de governadores oposicionistas. Fazendo-se de malandros de parque, os governadores fingem ignorar o fato de que os pactos foram firmados ao longo de seis anos de negociação. A alegação de que as dívidas foram contraídas pelos antecessores é primária, inaceitável entre pessoas com um mínimo de seriedade, e típicas da cultura irresponsável de nossa terra: a de ser truculento na cobrança e malandro no cumprimento das obrigações.
Percebendo que isso pode redundar em mais inadimplência, o Brasil tem que se esforçar, de forma redobrada, para recuperar a credibilidade junto ao FMI e ao G-7, a despeito de sua tradição notória de desprezar acordos. A única e visível salvaguarda brasileira é a sua dimensão continental, capaz de arrastar de roldão muitas das praças de Primeiro Mundo se o crash ocorrer. Efeitos seriam equivalentes aos de um tornado ou ciclone, algo como a queda de um gigante com distúrbio glandular da hipófise, que é mais fácil manter em pé do que enterrar como defunto pela inexistência de caixões e sepulturas na medida.
Enquanto muitos beliscam, os mais sensatos se beliscam para ver se acabaram de despertar de um pesadelo, o anverso do sonho. Mas isso tudo passa, como de resto passou a enrolada novela Torre de Babel, cujo desfecho interessava mais à população brasileira do que a epilepsia do mercado financeiro. Também aí as convulsões são provisórias, como se verá.
BIZARRICE
No desalento das Bolsas e seus pregões, um operador, ao saber da liberação do câmbio, bradou É o Juízo Final. Como nem aí há unanimidade, outro operador ao lado retrucou. É o juízo, afinal!
Já que falamos em Apocalipse, é o caso de concluir-se que, se for ocorrer, Jeová fará um acordo com o Dr. Roberto Marinho para que só aconteça depois da última cena do Fantástico. Para o pessimista vai ser amanhã.
AXIOMA Miguel Salomão, do Planejamento, versado em câmbio e em FMI (a seu serviço montou o Banco Central de Angola), na Rádio CBN, ao responder à pergunta do âncora Toni Casagrande se havia relação entre o que estava ocorrendo e a moratória de Itamar Franco: É como Sansão derrubando o templo num momento de terremoto. Na hora do terremoto, uma sacudida pode significar muito pouco.
Dá para lembrar de outra metáfora: a formiga está no lombo do elefante que corre pelas estradas africanas, olha para trás e diz ao paquiderme: Que poeirão que estamos fazendo, hein?
Ou ainda a do japonês sobrevivente da explosão de Nagasaki e que estava numa dessas casinhas, privadas, tremendo na hora em que chegou a turma de especialistas norte-americanos para detectar e limpar a radioatividade. Entre soluços, o japonês contou: Quando puxei a descarga... bum!
FÁBULA A posse, ontem, do diretor-geral da Polícia Civil, foi amostragem de correlação de forças no poder: a figura mais importante, Aníbal Khury (o que dá mais palpites na área, conquanto não responda por um só dos ônus) estava lá e Lerner, obviamente, ausente. Claro demais para ser sutil. Ausente, também, a vice-governadora Emília Belinati, que defendia outra pessoa para o posto.
SPRAY Procon recebendo queixas sobre o pedágio. Umas justas, como a que reclama o ressurgimento de buracos na 277 (Curitiba-Paranaguá) e que denuncia postos que não dão recibos. Outras absurdas, como a do cidadão que pretendia o direito de pagar o pedágio com cheque. - Rubinho Ferreira conta que em Guaratuba, empregados da coleta do lixo, feita por terceirização, receberam a ordem de não ir a banheiros na hora de serviço. O direito de ir e vir ao WC é sagrado, desde que não seja corpo mole. - Luis Alberto de Paula César, do Hotel Lancaster, convidado para presidir a Paraná Turismo pelo secretário Ney Leprevost. - Muito boas e consistentes as declarações do Tocafundo quanto à falta de recursos para manter as parcerias com a iniciativa privada. Foi criada, de forma irresponsável, por bajuladores e interessados, uma atmosfera de otimismo quando os patrocinadores, às voltas com a crise, estão tirando o time de campo. - Oposição vai entrar na Justiça contra as aberturas de traço privatizante do governo estadual: está sensibilizada com o caso da Sanepar, em que o dono dos 40% das ações se beneficia de empréstimos como o ParanáSan que todo o povo vai pagar. Este é de US$ 318 milhões para a barragem, captação e tratamento do Rio Iraí e saneamento nas praias e que está para sair. - Neste ano mudam, para o bem de todos, as relações entre o governo e a mídia: falta bufunfa; estatais (Copel, Banestado, Sanepar) que respondiam pela parte do leão reduzem a menos de 5% o que despendiam anteriormente; verbas orçamentárias são escassas também nas indiretas. Para completar, o mercado está sob recessão. - Reduzir custos com comissões, não só na publicidade, mas em outros procedimentos, é saída impositiva para o governo como decorrência também do ajuste fiscal. - Cogita-se de legislação federal para coibir abusos das ONGS.
FOLCLORE O cartorário José Nociti tinha brincadeiras cruéis como a de botar máscaras (aquelas dos States) de macacos e outros bichos para assustar pessoas e botar em choque motoristas de ônibus quando tirava a carantonha para fora ao persistir na frente do veículo. Valeu-se do clima da Revolução de 64 (esteve preso também) para tirar sarro de empresários, fiéis demais ao golpe, com telefonemas em que se fazia passar por agente de orgãos de segurança que comunicava a nomeação do figurão para governador, por sua lealdade aos ideais revolucionários. Um deles ficou mais de uma hora na frente do Grande Hotel Moderno à espera de um encontro para acertar a sua ida ao Palácio Iguaçu. Bem feito: era um assanhado e pegou resfriado, mais encargo do que cargo.
CROMO A borboleta na quadra de tênis só é notada pela torcida quando um tenista a retira de um lugar de risco colocando-a delicadamente na raquete.
AFORÍSTICO Rafael Greca limpando as calçadas da Igreja de Nosso Senhor do Bomfim unido às lavadeiras. Vai acabar derrubando ACM.





