Luiz Geraldo Mazza
A explosão do shopping
Como há uma superposição entre o mundo virtual e o real, observável no dia a dia, nada tem de estranho a semelhança entre o tremor das bolsas e a explosão do shopping da novela, cujo autor conheceremos hoje. Quem levou o governo FHC à desvalorização do real, que parecia intocável: Itamar Franco, a teimosia dos gênios de Brasília em manter a valorização artificial da moeda, a ação dos especuladores ou a profecia do megainvestidor Soros, que adivinhou o estouro da Rússia e sugeriu que somos a bola da vez?
A maioria da população brasileira está interessada em saber como terminará o folhetim eletrônico da Vênus Platinada, ‘‘Torre de Babel’’, do que em entender as convulsões financeiras, seu esoterismo específico e sua abrangência de caráter mundial. Se é verdade que as consequências da desvalorização do real mexerão, de um jeito ou de outro, com a vida do homem comum, é também claro que para ele o cenário lembra muito o da relação entre um personagem da tragédia grega e a fiação imponderável dos seus fados e do destino, enfim.
Assim, pois, mesmo não podendo mudar o fluxo dos acontecimentos na vida como na novela (nesta, pelo menos, as pesquisas de audiência podem detectar o que a maioria pensa sobre a trama e levar a emissora a alterá-la), projeta seus sonhos e seus recalques na identificação com personagens, heróis e vilões, a superação de desejos reprimidos por uma ‘‘transferência’’.
A Bolsa cai justamente em meio à recessão, a audiência sobe no mundo virtual em busca de compensações que a vida promete, mas não dá, e que apresenta a virtude de mexer com o íntimo das pessoas e levá-las à catarse sem o ônus pesado de ter a cabeça alugada a um psicanalista a preço de ouro ou aos berreiros de um pregador de seita salvacionista.

BIZARRICE
A imprensa e os meios de comunicação em geral a quem são mais subservientes: ao governo e ao governador de plantão ou a Aníbal Khury? A este, certamente, e que não pode retribuir como cliente aquilo que o governo oferece. É sedução para ninguém botar defeito, a custo zero.


AXIOMA Lerner apareceu numa foto a tocar tumbadora numa reunião com prefeitos: houve quem entendesse a mensagem de que se deve dançar conforme a música. Ao governador, por se tratar de pessoa não radical e de baixa determinação, não assenta bem a condição de condenar os outros às galés. O hortator batia o bombo (atabaque mais rude) para manter o ritmo da remada dos escravos e condenados. Se Lerner fosse esse personagem divertido seria ver o drama dos puxa-sacos que não poderiam, acorrentados, fazer o ritual da bajulação, obrigados a manter a embarcação em movimento. Pedagógico.
GLOSA Em Curitiba, pelo excesso de concorrência entre shoppings, se houvesse um caso igual ao da novela ‘‘Torre de Babel’’ (e não custa lembrar que pelo menos dois casos de alarmes de bombas foram registrados, um deles no Curitiba, da Praça Osvaldo Cruz) todo mundo já teria na ponta da língua o nome de um provável dinamitador, ainda que sem qualquer fundamento. A suspeita maior seria entre empresários.
PARADOXO Os populistas da Universidade Federal, estes mesmos que a transformaram num consulado de interesses com as tais eleições diretas, vivem a dizer que é falso o argumento de que a maioria dos que frequentam cursos superiores em escolas gratuitas e públicas é constituída de ricos ou, na melhor das hipóteses, de remediados ou de classe média média.
Um levantamento recente dentre os aprovados, porque é isso que realmente conta, mostrou que a esmagadora maioria dos alunos se origina de famílias com renda entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, o que está longe de caracterizá-las como integrantes dos nichos de pobreza que o discurso demagógico sugere o mais atendido. Outra constatação é que a maioria dos aprovados provém do ensino particular, sabidamente mais caro, fora do acesso dos verdadeiramente pobres.
Vejam a consequência dessa perversidade: o mais bem aquinhoado não paga a universidade e o pobre tem que se virar em escolas caríssimas e a maioria delas de qualidade discutível. Mas a UNE e as congêneres continuarão insistindo na farsa e apoiadas pelo consulado. Esse é o País resistente à realidade: o do discurso da pobreza, mas que não a redime, para mostrar uma suposta generosidade social inexistente na prática.
SPRAY O ministro Rafael Greca tem recebido numerosas sugestões e projetos de vários pontos do País e, por incrível que pareça, alguns do Paraná. Um deles é do arquiteto Marcos Alzamora e voltado para a Costa Oeste. Marcos fez planos para a cidade-símbolo, a de Porto Seguro, Bahia, e acabou trombando com o prefeito, que descumpriu acordos. - Ontem a novela das terras irregularmente adquiridas por Cecílio Rego Almeida, conforme denúncia da ‘‘Veja’’, tomou conta do noticiário na rádio CBN e TV Educativa. O ministro de Reforma Agrária disse que tudo não passa de fraude, inclusive o suposto interesse do Incra na Floresta Amazônica, o que é um absurdo. É o País que não se conhece porque não lhe convém para que a moleza continue. - Mais uma trapalhada de gênio de Lerner e seus alegres seguidores: venderam 40% da Sanepar e agora o governo vai, através do ParanáSan, assumir um investimento (aquele que Requião amarrou no Senado) de US$ 318 milhões que se agregarão ao patrimônio daquele que pagou pelas ações. Isso tem que ser denunciado e desfeito. Muito esgoto para pouca água. - Não apenas a Sanepar, mas na direção desse formato, haverá a privatização da Copel, tudo para o governo resolver problemas de caixa. Torna-se árido o amanhã para irrigar um pouco o presente. A rigor, uma barbaridade.
FOLCLORE Numa noite os jornalistas José Erichsen Pereira e João de Deus Freitas Neto apanham um ‘‘carro de praça’’ (assim se denominava o táxi) para se deslocar à Rua Doutor Faivre (Févre). Juca diz ao motorista para ir à Rua Dr. ‘‘Févre’’. Freitas, gozador, silaba o nome da rua sem a inflexão francesa, como se corrigisse o colega. O pior é que o taxista faz a observação: ‘‘Muita gente boa também pronuncia o nome da rua desse jeito’’ - e repete o ‘‘Fai-vre’’.
CROMO Basta um sinal mínimo de sol e lá vem, multicolorido, bailando junto às flores, o colibri verde-azul. Na chuva ou tempo ruim resta a lembrança.
AFORÍSTICO O paranaense vira as costas para a grandiosidade e se escandaliza mais do que qualquer outro com o tamanho da área do Cecílio Almeida na Amazônia. A dimensão está fora dos seus parâmetros. Mais por isso do que pelo fato em si as pessoas reagem: ‘‘É terra demais!’’

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