Luiz Geraldo Mazza
O mico, o macro e o micro
Admitamos que o Titanic, singrando as águas azuis, colide com o ‘‘iceberg’’ no exato momento em que os serventes do transatlântico fazem uma greve para receber horas extras. Mais ou menos o que se dá agora com o Banestado na UTI do Banco Central, respirando por aparelhos, com sindicalistas prometendo greve nas agências, sabidamente uma impossibilidade, ou fechamento de algumas delas, o que faz reaparecer as ‘‘grevilhas’’ dos anos 60.
São duas situações parecidas, apropriadas ao patético da aventura humana, em que a questão menor pretende ser mais abrangente que a maior. Algo como dar relevância a uma briga de esquina na Guerra Mundial. Como o homem nada tem de racional e há quem diga que o nariz de Cleópatra pode ser a matriz causal da crise no Império Romano, com o que se subestima a visão marxista de que a história se move, prioritariamente, pelo fator econômico, sem desdenhar o dado cultural, não espanta o paralelismo e, às vezes, a convergência entre o macro e o micro nesse processo.
A bravata de Itamar Franco pode gestar alguma coisa diante dos compromissos que o Brasil firmou com o FMI e a longa negociação da rolagem da dívida dos Estados e municípios? Pode. Dá para perceber que mesmo os governadores
anticalote fizeram exigências de correção de rumos no pacto federativo, pedindo mais desenvolvimento e juros menores, coisas até aqui dadas como antinômicas pelo modelo em prática e ontem submetido a choque com a sangria dos dólares em mais de 1 bilhão, a mexidinha (que não é tão leve assim) nas bandas cambiais e a saída do auto-suficiente, e sempre com posturas imperiais, Gustavo Franco.
O micro pode gerar o macro como os discursos de Camile Desmoulins antes da Revolução Francesa, a marcha das mulheres da direita dando apoio ao golpe de 64 e as felações da estagiária na Casa Branca decretando a possível queda de um governo. As tragédias ocorrem e a vida continua: na Alemanha, sob o cerrado bombardeio da Segunda Guerra Mundial, o padeiro e o leiteiro entregavam suas mercadorias nas casas dos clientes. Pressionados por uma greve impossível e por um salário desejável, os bancários do Banestado dão mostras de acreditar mais na sobrevivência do estabelecimento do que os políticos do governo. Um pouco de quixotismo, ainda mais em época de durezas, parece redimir o homem e seu lado mais inocente.

FILIGRANA
Das renúncias de ontem - a do Michael Jordan, do Chicago Bulls, e a do Gustavo Franco, do Banco Central - qual a que mais o sensibilizou?


BIZARRICE Ao desvendar o lado lírico da pobreza, citando figuras míticas a partir de Carlitos, Rafael Greca chutou o pau da barraca dos populistas de todos os matizes que nada fazem para acabar com a exclusão e a exploram como estandarte. No auge das pregações ecológicas do Grupo Xama, atuante na defesa do Rio Bacacheri, chamou a rapaziada de ‘‘biodesagradável’’.
Dentro de mais uma semana, ele será tema da ‘‘Veja’’, não nas dimensões da matéria sobre Cecílio do Rego Almeida, mas enfocando seu latifúndio de miçangas míticas e adornos, simétricos ao seu jeito e à sua linguagem.
AXIOMA Quando Requião assumiu o governo, após a fraude ‘‘Ferreirinha’’ e graças à decisão de Álvaro Dias de permanecer no Palácio para evitar que Richa desse um passeio eleitoral apoiado por Ary Queiroz (e mais Aníbal Khury em especial), deu uma de Itamar Franco, decretando moratória por três meses por causa do alegado sufoco financeiro. Era uma contestação nada sutil à onda do seu antecessor de que o Paraná estava com as contas superequilibradas. E estavam no mesmo partido. Dá para imaginar se fossem de facções diversas a que ponto a coisa poderia chegar.
GLOSA Com pauta mínima para discussão, os deputados embolsaram em menos de um mês R$ 12 mil e depois se irritam, numa situação de crise, quando o povo deplora os abusos legislativos. Os votos brancos e nulos das eleições, em especial os das proporcionais, deveriam alertá-los. Acham, no entanto, que isso não é contra eles em particular.
SPRAY Está criado o clima para reajustar as tarifas de ônibus em Curitiba: a insistente campanha contra os pula-catracas e mais a notícia do metrô e o ajuste, havido em São Paulo, para R$ 1,15 e 1,25 são indicações fortes. - Aí o sindicato, o famoso Sindimoc, que sempre dissimulou brigar com os patrões, simula uma greve e pronto - a tarifa sobe para R$ 0,90 ou R$ 1. - O impacto nos orçamentos domésticos não vai ser pequeno e a idéia de suprimir cobradores será afastada como se fosse concessão aos trabalhadores. - O PT gaúcho está copiando uma das medidas mais fortes de Lerner e pretende renegociar, baixando os valores, as tarifas do pedágio. Vai acabar conseguindo, até porque as brigas judiciais são tormentosas e demoradas. - Apesar de uma equipe de policiais do Cope estar já há alguns dias operando na região, o prefeito de Cantagalo, João Konjunski, continua a atacar a área da segurança. Na cidade, dizem que galo que não canta em seu terreiro é galinha. Se a dose das críticas não for justa, quem fica que nem pau de galinheiro é o município. - Em Antonina, há revolta geral contra a permanência dos resíduos de carvão vegetal que emporcalham as imediações do porto. O pior é que com o movimento de caminhões, a poeira pesada atinge crianças de uma escola próxima e frequentadores de restaurantes. - Quem diria que os ‘‘perueiros’’ do transporte coletivo chegariam a Curitiba? Afinal foi com a extinção dos autolotações, os perueiros da época, nos anos 50, que Ney Braga, como prefeito, iniciou a revolução no transporte coletivo. - Cândido Martins de Oliveira, da Segurança, está colecionando títulos de cidadania: dia 30, 20 horas, no Clube Ipanema, recebe o de Pontal do Paraná.
FOLCLORE Eis uma galeria impossível: Requião sereníssimo, Lerner explosivo e determinado, Aníbal na obediência e não no mando, Rafael Greca sério e compenetrado como um monge, Toni Garcia intelectualizado.
CROMO Rafael Greca e Margarita Sansone reproduzindo a cena do Titanic com o casal romântico na proa da embarcação.
AFORÍSTICO Estancar a drenagem dos dólares é mais fácil de conseguir do que conter a verborragia de técnicos e políticos com soluções salvacionistas.

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