Luiz Geraldo Mazza
O síndico e o capataz
O Brasil ‘‘quebrou’’, e em todos os níveis de governo, embora os mais resistentes ao ajuste sejam os estaduais e municipais por força dos hábitos acumulados e por não contarem, como a União, com instrumentais decisórios mais fortes para driblar os apertos institucionais. Quem é o ‘‘síndico’’ dessa concordata, já que é exagerado falar em falência? É o FMI, logicamente, em termos externos, e FHC internamente, posto que muitos o encarem apenas como um capataz desses interesses, com dificuldades para dar ordens aos peões.
Há uma tensão: de um lado os que se alinharam nos compromissos, acertados, ao longo de um penoso processo de negociação de seis anos para a chamada rolagem das dívidas, e, de outro, os que buscam barganhar a partir do estrilo, com todas as componentes de bravata, do Itamar Franco. Nosso governador não tem sido um destaque nesse confronto quando detém um argumento excepcional que nenhum outro gestor estadual pode levantar: em relação às dimensões do Paraná, do seu potencial e da sua expressão econômica (ano passado cresceu 1,5% no PIB, mais do que o dobro do obtido pelo Brasil), somos um dos menores devedores, com uma dívida mobiliária de pouco mais de meio bilhão, quando Minas chega a R$ 17 bi, o Rio Grande do Sul a mais de R$ 10 bi e assim por diante.
Claro que esse mérito, o de manter as contas equilibradas e uma radiografia tão limpa, não é de Lerner, mas de uma tradição paranaense construída ao longo do tempo. Tínhamos também um modelo de gestão financeira e que permitia uma razoável taxa de investimentos, apesar da hipertrofia do custeio, especialmente com pessoal, porque a inflação possibilitava corrigir os fluxos de caixa.
A hora da verdade veio com o Plano Real: sem a inflação e com as deformações culturais explodiu o sistema. Claro que políticos como Requião e Álvaro Dias tentaram sugerir que o caos viera com Lerner. Aliás, só para argumentar, que Álvaro Dias para acertar o fechamento do caixa, durante três anos, fez uso das AROs (Antecipação de Receita Orçamentária), valendo-se de bancos privados para a obtenção de recursos, e no seu último ano de gestão anunciou estrepitosamente o equilíbrio fiscal, o que foi badalado por Joelmir Beting e após fartamente explorado nas suas campanhas eleitorais.
O Paraná tem moral, numa reunião como essa de São Luis, para deitar e rolar como exemplo e padrão e aí com mais fundamentos do que em alguns dos mitos erigidos em torno de Curitiba e da região na base da propaganda. Pelo jeito, no entanto, com nosso proverbial acanhamento, perdemos a deixa. E isso, além de tudo, nos dá muita força para cobrar do síndico-capataz presidencial, com aura de imperador, espaços para diálogo e renegociação no interesse dos outros, e não nosso. O que nos confere muito moral.

GLOSA
Se Rafael Greca ficar mais no Rio do que em Brasília, corre o risco de ter lá o mesmo brilho do Reinaldo Bola, que Rei Momo em Curitiba vários anos acabou a majestade ‘‘primeira e única’’ a brilhar no Sambódromo até morrer


BIZARRICE A vice governadora Emília Belinati foi ao Palácio Iguaçu, rompendo a inércia dos desencontros com Lerner e contou-lhe uma efabulação bem ao seu gosto e estilo: a de um monge do Tibete que foi submetido à provação de que a cada dez anos só pudesse dizer duas palavras. ‘‘Tenho fome’’ foi o que disse no primeiro decênio e ‘‘tenho frio’’ no segundo. No terceiro, a despeito da têmpera que adquiria na adversidade, não resistiu e jogou a toalha: ‘‘Vou embora’’. Os monges o acolheram sob o argumento de que deveria ir embora porque só reclamava. Lerner riu, Emília também. Só que tudo continuou na mesma: ela acreditando que a lição é pedagógica e Lerner achando que pode continuar não ouvindo. Ou então fingindo que ouve.
AXIOMA Sobre a figura do vice, Jô Soares, quando estava na Globo, insistia num quadro de crítica quanto ao caráter decorativo do posto, então ocupado por uma pessoa forte e corajosa, Aureliano Chaves. Claro que depois dos episódios de José Sarney e de Itamar Franco, regra 3 de Collor, a piada havia perdido o sentido. O último vice do período das eleições indiretas era de Londrina, um homem com porte de estadista e de uma humildade surpreendente, Hosken de Novaes. Testemunhei, em encontro no Palácio, juntamente com Francisco Cunha Pereira, o apreço que o jurista e escritor Paulo Mercadante tinha pelo mineiro que optou por Londrina para seu testemunho de luta e cultura. Sabem o que o Hosken de Novaes disse quando lhe perguntaram o que faria como vice? ‘‘Vou recolher-me à minha insignificância.’’ Quando assumiu agiu como um magistrado (o que os políticos não toleram) na eleição direta e que foi ganha por seu adversário e também londrinense, José Richa.
SPRAY Deve ser impugnada a licitação em Maringá para ‘‘terceirizar’’ a cobrança de tributos. - É que a divulgação, segundo juristas, deveria ter caráter nacional e saiu em publicações locais e diário do município. Com isso, apenas três se habilitaram e há agora nova concorrência para dia 15. - Outro município com problemas semelhantes é o de Araucária, acusado de contratar tomadas de telefones em fatura de R$ 132 mil sem concorrência. - Emoção e até lágrimas na última sessão da legislatura atual ontem com os deputados levando mais R$ 12 mil por uma convocação de pauta mínima. Muitos vão deixar a casa e isso emocionou especialmente Aníbal Khury, que se liga demais às pessoas e torcia para que todos se reelegessem. - Houve um chio generalizado contra as críticas seguidas à inação parlamentar e aos ganhos. Aníbal contestou, sugerindo que outros poderes é que levam a parte do leão. Só que não fazem a denúncia com clareza e exercem o papel do amém.
FOLCLORE João Baptista Moraes, gerente de ‘‘O Estado do Paranᒒ, é um gozador incomum: quando alguém diz que vai a Guaratuba pede o favor de avisar o açougueiro lá na praia que assim que conseguir um emissário de confiança manda o dinheiro devido. Outra, muito comum dele, é pedir aos que viajam para Veneza que lhe tragam num recipiente a água fedida daqueles canais.
CROMO Chove, chuva: as estátuas se despojam do azinhavre esverdeado e dos sinais brancos dos resíduos passarinheiros.
AFORÍSTICO Como alguns sociólogos concluíram que a gente brasileira é que não se ajusta à civilização democrática, só há uma saída: revogue-se o povo. É fácil: pode sair numa Medida Provisória.

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