Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
A novela Banestado
Tanto a novela Banestado, como as demais que ocorrem no governo, pedem moratória maior do que a concedida ao folhetim eletrônico da Globo Torre de Babel, título sugestivamente afinizado com o que se dá no Palácio Iguaçu, e que obteve prorrogação de uma semana para ajustar os desencontros da trama, cada vez mais confusa e surpreendente. É mais fácil descobrir quem explodiu o shoppping do que saber quem efetivamente manda no governo. Daí não apenas a vice, Emília Belinati, que faz as coisas com uma elegância inimaginável no seu marido, entrar em colisão, mas secretários, muitos dos quais se fiam no apoio de Aníbal Khury para obter mais espaços.
Mais ou menos assentado que o posto será ocupado pelo ex-ministro Stephanes, essa indicação não arrefeceu tensões internas e muito menos removeu agravos, pois os que pareciam indicados podem ser olhados como presumidamente atingidos por um veto não de Lerner, mas do Banco Central, ainda mais se da diretoria atual alguns dos seus integrantes forem mantidos. Para preservar o conjunto seria indicado que Jaime os afastasse a todos pela circunstância de que houve irregularidades graves na diretoria atual, claramente descritas nas atas que ganharam até as páginas do Diário Oficial por artes de Requião, com o que ficaria claro que, embora apenas pessoas muito específicas tenham culpa no cartório, o governador procuraria dar liberdade ao Banco Central e aos seus agentes ao preferir gente distanciada das patologias.
Ao procurar conversar com os bancários sobre a transição, Reinhold Stephanes repete a liturgia da pregação da reforma do sistema quando buscou o diálogo persistente com trabalhadores da ativa e aposentados do setor público e do privado. Do ônus todo, um fato: a sua derrota eleitoral como vítima dos ardis da política e da forma como o brasileiro, ainda condicionado aos cartórios do assistencialismo populista, encara a reforma. Claro que havia algo que o alcançava fundamente: o fato de ter se aposentado muito jovem, pouco mais de 40 anos, pela legislação anterior. No caso do Banestado, não: não há qualquer elemento que o impeça de empreender, com tranquilidade e bastante desenvoltura, o seu trabalho difícil e dentro de um cronograma apertado, que se não for atendido joga tudo no buraco negro da intervenção.
Claro, também, que para realizar esse trabalho saneador precisa de autoridade que o liberte das contingências de uma vinculação à Secretaria da Fazenda, como se dá na estrutura do poder, conquanto o titular daquela pasta prossiga na condição de presidente nato do Conselho. Se a operação saneadora se efetivar sob impacto de influências políticas internas ou externas, vai tudo para o saco e a intervenção será inevitável. Aí, então, outra ironia: muita gente vai lamentar a sugestão de Requião em torno da federalização não ter sido aceita. No caso do gigante Banespa funcionou muito bem, justamente porque os políticos, a partir do próprio Covas, não puderam se meter na parada.
GLOSA
Na perseguição, anteontem, a assaltantes de um banco no centro da capital, duas viaturas da polícia se chocaram. Como se vê, colisões não parecem exclusividade dos salões palacianos
BIZARRICE Na quinta-feira, no programa matinal de notícias da Rádio Educativa, uma cena incrível: o locutor pedia, quase dramaticamente, que o diretor de um dos nossos principais jornais mandasse mais exemplares porque, caso contrário, não haveria notícias. Gilete-press, autoproclamada, é demais, ainda mais quando há funcionários em número bastante superior ao das emissoras privadas para a tarefa de coletar e produzir notícias.
AXIOMA Casos de intoxicação, aos milhares, em Matinhos, são completamente afastados, conforme a versão oficial, dos riscos do banho na água do mar e, sim, à falta de limpeza das caixas. Ninguém, que tenha informação mínima sobre o assunto, acredita possível que o padrão de balneabilidade (menor carga de coliformes fecais por milímetro cúbico de água) tenha se dado nos níveis apontados pelo governo, quando não houve melhora apreciável no sistema de esgotamento sanitário. Uma pessoa infectada por ter se banhado em áreas fora daquelas sinalizadas como de risco deveria processar o governo.
SPRAY Mancadas jurídicas do governo se acumulam. A Procuradoria Geral do Estado não pode ser dirigida por um membro do Ministério Público, pela singela razão de que está impedido de advogar e não tem registro na OAB. - Aníbal Khury está coberto de razão no caso da redução salarial proposta por Lerner, que deveria passar pelo crivo Legislativo, ainda que respeitada a capacidade de iniciativa do Executivo na matéria. - Poder estadual vai ter que manter severa vigilância na Ilha das Peças e no Superagui, bem como em toda a área sob regime de proteção ambiental, porque já há sinais de grilagem na região. - É hora de falta de ética elevada ao cubo na exploração dos cursinhos em torno dos seus feitos estatísticos no vestibular. Colégios que mais aprovam como o Bom Jesus (80 a 87%) deveriam anunciar seus feitos, já que em muitos casos seus alunos apenas fazem o cursinho como fator adicional de segurança e depois os méritos não são partilhados. - Muito antes da deificação do mercado, esse festival já preocupava: se somarmos os percentuais de aprovados divulgados pelas empresas veremos uma distorção típica da matemágica. - Designação de Reinhold Stephanes para o Banestado desagradou muitos políticos: não deixa de ser uma credencial fortemente favorável à escolha de Lerner, mesmo depois das hesitações de estilo. - Todos - tanto os que saem como os que entram - devem torcer para que tudo dê certo, pois na hipótese contrária, a intervenção, ficam os gestores, desde cinco anos anteriores, sujeitos ao bloqueio patrimonial de praxe, como se deu já com o Badep.
FOLCLORE Munhoz da Rocha fazia uma conferência no anfiteatro da Universidade Federal quando um ocupante de uma das últimas cadeiras na parte superior caiu num sono ferrado e passou até a roncar. Quando os risos o tiraram dos braços de Morfeu, o cidadão olhou lá na frente e viu que o conferencista o observava. Desculpou-se, ciente da mancada, mas ouviu a lição sutil do governador: Eu é que lhe peço as desculpas por despertá-lo de sono tão profundo e agradável.
CROMO O padre Marcelo Rossi, dando pulinhos na aeróbica do Senhor, quase amarrado pelos paramentos multicoloridos, tenta o possível para tirar os santos de sua impassibilidade de gesso e pedra na gravidade do altar.
AFORÍSTICO Não há a menor afinidade entre a moratória de Itamar Franco e a cena do sambódromo no Rio com a atriz Lilian Ramos: ela sem a calcinha, ele sem a faixa presidencial. Pode alegar, em sua defesa, que agora ele e os mineiros é que não querem ficar sem calças.





