Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Arte e pobreza
Ao enunciar a existência de uma certa dimensão lírica na pobreza, Rafael Greca mexeu com uma velha hipocrisia intelectual: a de uma suposta rendição de seriedade ao tema como se por trás da observação houvesse crueldade, falta de solidariedade ou, para recuperar um termo já gasto pelo uso, alienação.
Ao citar Chaplin e a figura de Carlitos como expressão da pobreza, o que é de uma simetria inquestionável, tentou desvelar o lado poético a serviço da crítica social. Poderia citar o Zampanô, de Fellini, o artista de rua, encenado por Antony Quinn, do filme A Estrada ou talvez para mexer com algo menos humorado e mais dramático lembrar do personagem de Victor Hugo, o Jean Valjean.
Lembro que sempre adoramos cultuar a pobreza e a miséria, tanto que virávamos as costas ao american way of life dos filmes ianques pelo neo-realismo italiano, sombrio e que expressava, na forma e no conteúdo, uma arte que nascia da carência, de deficiências industriais decorrentes da situação de um país que emergia dos escombros da guerra. Nem todos eram amargos, embora na linha da doutrina de Vitório de Sica e Zavatini, de Rosselini, e procuravam, em meio ao trágico e patético, dar um sinal de esperança como em O Ladrão de Bicicletas em que o proletário é roubado do seu instrumento de transporte e vaga pela cidade com o filho, este liricamente a nos encher de enlevo e ternura.
Irrita a falsidade do discurso dos que se dizem alinhados na causa da miséria e da pobreza, pois o mais das vezes tentam projetar sensibilidade, quando não fazem a milésima parte daquilo que os filantropos empreendem como rotina, a quem olham como um aparato inútil, quando não dizem a tolice bárbara, imbecil, de que atrasam a revolução e a dinâmica da luta de classes.
Quando Joãozinho Trinta, que aparenta afinidades com Greca, disse que quem gosta da miséria é intelectual, já que o pobre adora o luxo, estava se referindo ao imaginário na sua dimensão mais onírica por projetar ideais de transformação que fazem do favelado um nobre ou um rei, sem dúvida uma forma de transfiguração de desejos mais profundos. Não há no entanto um sistema de partilha de riqueza (é claro que no Brasil é mais perverso) que tenha a eficácia da distribuição de alegria como nessas gigantescas escolas de samba, nos ranchos, nos reisados e mesmo na emoção de um auditório de aficionados nas bandas e nessa deturpação do samba, que é o pagode. Como de resto se pode dizer da catarse no interior das igrejas, seja no da eucaristia católica, em que todos se tornam iguais diante do corpo místico de Jesus, ou no frisson dos cultos pentecostais que agora o padre carismático Marcelo Rossi absorve e transforma com um forte assento carnavalesco na aeróbica de Deus.
GLOSA
Luis Carlos Hauly, bom deputado, mas exagerado na fidelidade ao poder central, é agora líder do governo. Uma redundância extrema, que o coloca quase em nível ministerial. Daria para cunhar um termo novo: haulicismo. Ponto para o Paraná e Londrina, embora sem interferência de Lerner ou Belinati.
BIZARRICE Rir com a pobreza é velha tradição da comédia de arte e mesmo nos pastelões do rádio e da TV com as cenas entre o Primo Rico e o Primo Pobre. Há casos de genialidade extrema como o de Carlitos (Em busca do ouro) ao comer um sapato como se estivesse trinchando um filé de primeira e chupando os pregos como se fossem espinhos de peixe, além de transformar em macarrões os cordões da botina e tudo comido com uma elegância de gourmet. Como se vê, o Rafael Greca mexeu com uma velha tradição.
Quando o pão é escasso, ensinavam os romanos, dobra-se a dose de circo.
AXIOMA Quanto à deflação de 1,79% em 98, a primeira desde 1939, pode-se dizer que apurá-la tem um pouco de semelhança com o ato de colocar um termômetro para tomar a temperatura de um morto. Que cai, cai, mas que o cara já foi promovido de moribundo a defunto, de cujus, não se pode duvidar.
SPRAY Desde anteontem na OAB-Paraná há uma representação, protocolada sob número 002393, do jornalista Luiz Fernando Fedeger, e encaminhada ao Tribunal de Ética e Disciplina, contra integrantes do escritório Pereira Gionédis Advocacia. - Alegando que o escritório move ações contra o Estado, questiona o fato de algumas dessas pendências se darem na área fazendária, cuja pasta é ocupada por um sócio licenciado da organização, Giovani Gionédis. - A matéria invocada não é pacífica e nem muito comum, embora, por muitas vezes, advogados que detêm escritórios especializados em ações contra a Fazenda Pública tenham ocupado secretarias relevantes e até a própria Fazenda. - No governo Requião, o secretário Heron Arzua foi de uma fidelidade extrema ao governo, embora um especialista em Direito Tributário, agindo com ética ao ponto de defender o oficialismo e o procurador geral de Justiça, Delázeri, que cometeu o deslize de tornar públicos os nomes dos maiores devedores da área empresarial. Arzua sempre foi um assessor tanto de empresários quanto do setor público, sem confundir as coisas, o que não é fácil. - Hoje o Bigorrilho pode virar de vez Champagnat, já que é esperada a canonização de Marcelino Champagnat pelo Papa, com a indicação da data do evento. Como ele é fundador da Congregação dos Irmãos Maristas, o fato é visto com ansiedade pela Universidade Católica. - Campo Mourão reajustou o IPTU/99 em 1,63%, abaixo da inflação oficial (2,64º). Aqui há um problema sério: a prefeitura adotou critérios de atualização baseados em atos da prefeitura de São Paulo, sob Luísa Erundina, derrubados recentemente no Supremo. Isso pode afetar seriamente o orçamento, se prosperar e o povão acionar a justiça.
FOLCLORE Ilha do Mel está sem água em Nova Brasília, pois seus dois poços semi-artesianos estão contaminados. A Cagepar, Sanepar de Paranaguá, diz não ter recursos para encarar o problema. Outra coisa: o IAP autorizou a montagem de poços em área de reserva ecológica. Glosa dos caiçaras em cima do Manoel, que tem uma pousada no lugar: Manoel, Manoel, se não tens água como exploras a Ilha do Mel?
CROMO Chuva na praia: o tédio oleoso impregna toda a casa.
AFORÍSTICO Nem na hora do cafezinho se deve perguntar ao governador se deseja adoçá-lo com açúcar ou ciclamato, pois sempre se trata de uma decisão e a bebida espiritual pode esfriar.





