Luiz Geraldo Mazza
Entre êxito e hesitação
Lerner é oscilação, o pêndulo: nunca, na história recente do Paraná, tivemos alguém como seu potencial em termos nacionais e até externamente, tão fundo se espraiou a sua imagem, no exagero, mas também nos méritos. No entanto o efeito desse prestígio é inócuo, o que se percebe na rala representatividade no primeiro escalão, tanto que acabamos apenas com um ministério esvaziado e de expressão mínima, o de Esportes e Turismo, embora o titular, Rafael Greca, com a sua alegria carnavalesca e o seu barroco rococó, barrococó, sirva de aberto contraponto ao pessimismo dominante. Seu riso pode afastar os demônios com mais eficência do que as carrancas dos barcos do rio São Francisco.
Se Euclides Scalco, escolha da cota pessoal do presidente FHC, aceitasse o posto ministerial para o qual foi convidado, teríamos apenas uma impressão de que o Paraná se fortaleceria. Nada se creditaria ao próprio Lerner se isso acontecesse. O fato é que tirando os casos de Munhoz da Rocha e Ney Braga, nunca estivemos com bola cheia nessa questão e, no primeiro caso, a obtenção de dois ministérios, o da saúde e o da agricultura, as coisas se deram mais pela relação de Café Filho com o governador paranaense do que pela hegemonia que àquele momento alcançávamos com a liderança com a produção cafeeira mundial.
Bento era compadre de Café Filho e Aramis Athaide, indicado pelo governador na pasta da saúde, era seu cunhado. Assim, pois, foram razões afetivas, e até de ordem parenteral, mais do que as geopolíticas que prevaleceram, até porque a intenção do presidente era fazer de Munhoz da Rocha o vice da chapa sucessória e vetado por Carlos Lacerda, governador da Guanabara, muito forte na UDN.
Pergunta-se o que é mais importante: ter ministério ou ser atendido naquilo que é fundamental? O Paraná obteve várias pastas no tempo do neysmo, mas também perdeu uma imensidão de áreas férteis para a construção de usinas hidreléticas sem compensações correspondentes e, ainda por cima, com o ônus da jogada cartorial de José Serra, na Constituinte, que nos impede de obter recursos fiscais pela venda de energia.
Como não temos nenhuma coisa nem outra, nem atendimento, nem postos, percebe-se que ninguém, em nossa história, dissipa tanto potencial de liderança e prestígio como Lerner que se dá mal nacionalmente e também no campanário, onde se rende à sedução de Aníbal Khury e à sedição dos Belinati.
Nunca uma vocação tão forte para o êxito foi tão prejudicada pelo hábito incontornável da hesitação.


BIZARRICE
Dias passados, o Macaco Simão caricaturou a posse de FHC dizendo que a animação lembrava a de uma escola de samba de Curitiba. Quem tem alguém como Rafael Greca, como se viu anteontem na posse ministerial, não precisa de escola de samba ou de rancho para ter um carnaval permanente.



GLOSA Mais um detalhe do anti-carnaval: o rei Momo, que teve mais reeleições seguidas no Rio, foi o Bola, com escala em Curitiba. Aliás, isso reafirma outro mito da capital paranaense: o de ser lançadora de modelos e produtos. Tentando animar os catatônicos foliões curitibanos, o Reinaldo Bola só poderia chegar à glória no Rio de Janeiro.
AXIOMA A versão oficial de que a água do mar nos balneários do Paraná teria melhorado de padrões é o que se chama uma ‘‘forçação’’ de barra. O problema é tão sério que se pode dizer que nada é tão ‘‘privatizado’’ como a nossa orla. Privada demais, esgoto de menos.
SPRAY Um setor, ainda tímido, do empresariado industrial do Paraná gostaria de ver o Carvalhinho entrando na onda da FIESP para pressionar o governo a retomar o crescimento econômico. Nessa perdem tempo, obviamente.- Horácio Piva deu um arranque forte demais e agora não escapa de usar o freio. Já queriam, imaginem, que o empresariado fosse à invasão da Ford em solidariedade aos desempregados. Dá para calcular com que cara ficariam na hora em que a invasão fosse em suas empresas.- Só falta, agora, para completar o quadro demagógico, o empresariado apoiar a bravata do Itamar Franco do calote. No Brasil não temos memória: em primeiro lugar, jamais cumprimos um só acordo com o FMI, o que não justifica ansiedade e desespero, e, em segundo, não faz tempo que entramos numa fria de moratória com o Sarney e quebramos a cara, olimpicamente.- A síndrome chega ao Paraná no caso do desmantelamento da elefantíase pública: Aníbal Khury voltou a declarar que o Banestado pode ser saneado sem necessidade de privatização. Dava a impressão de um caso de ventriloquia: a voz era do guru, mas o conteúdo, do Ângelo Vanhoni. Descompromisso total com a realidade.- A derrubada da lei sobre criação de varas e cartórios só vai ser decidida quando a nova direção do Judiciário, sob o comando do desembargador Sidney Zappa, assumir.- Falava-se ontem, agora com insistência, na indicação do Reinhold Stephanes para o comando do Banestado. Observação dos adversários: ninguém mais adequado para uma operação de liquidação com que se referiam, de forma nada sutil, à sua atuação na Previdência e os efeitos na sua carreira.- A luta interna no governo em torno dessa questão mostra que se tudo persistir assim acabaremos naquilo que hoje é mais desejado pela oposição: a intervenção, pura e simples, do Banco Central. O atual governo responde por muitas das graves deformações lá ocorridas e isso lhe retira autoridade, pois acusados de irregularidades acabaram ‘‘promovidos’’. E a oposição tenta dissimular uma austeridade que não teve sob governos de sua orientação, aos quais cabem boa parte dos fatores de quebra.-
FOLCLORE Uma frase de Lerner dos anos 70 é agora lembrada quando se sugere que o padrão de balneabilidade das praias teria melhorado. Ele fez uma paródia com a máxima ‘‘não faça do seu automóvel uma arma: a vítima pode ser você!’’, ao propor (e parecia referir-se especificamente a Caiobá) ‘‘não faça de sua descarga uma arma: a vítima pode ser voc꒒. O imaginário sugeria um aperto simultâneo de milhares de válvulas nos sanitários, o que seria um ataque maior do que o dos americanos contra o Iraque na base da cloaca.
CROMO O caráter lírico dos mendigos, referido por Greca, lembra a comoção do pintor pelo rubor da hemoptise do tuberculoso: a plasticidade do sangue nas teclas do piano tocado por Chopin.
AFORÍSTICO Antes do ministro paranaense, um secretário de Turismo do Rio de Janeiro, se não me engano Mário Saladini, sugeriu que era possível dar um tom artístico à favela carioca, pintando seus barracos como se fossem objetos de arte. Era perfeitamente possível, à época, ter convidado Andi Warhol para a tarefa de obter efeitos de arte pop e op (optical) com o cenário.

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