Moralismo na ordem do dia
Volta e meia pinta no pedaço um moralista. Ora Leon Perez, ora Alvaro Dias, ora Requiao para citar os paranaenses que mais se empenharam nesse batido ‘‘marketing‘‘. A bandeira da velha UDN sensibiliza especialmente o PT como se vê especialmente nos discursos do Doutor Rosinha. É o encaixe mais rápido para imediata receptividade popular.
Quando há cruzadas, naturalmente tangidas pelos meios massivos de comunicaçao social, entao, tudo se torna perigosamente confessional e maniqueísta, ainda que vez por outra, como aconteceu com Collor e Ibsen Pinheiro, se perceba que o ‘‘mocinho‘‘ era o vilao. A guerra contra os marajás na qual se associaram Collor e Alvaro Dias, este em dimensao regional, nao avançou um milímetro no aperfeiçoamento do sistema e na remoçao da injustiça apontada.
O pior é quando uma determinada idéia-força é vendida como recuperadorada honra nacional, como se deu com o Plano Cruzado e, de certa forma, ocorre com o Plano Real, embora seja injusto compará-los como ‘‘efeito demonstraçao‘‘ no rigor técnico, face a maior consistência do segundo. Nos tempos do Cruzado tentou-se vincular o plano a uma questao de honra nacional e estávamos sob o risco de uma ‘‘lavagem cerebral‘‘ nazista com a demagogia do fechamento dos supermercados e do cerco ao boi no pasto.
Tenta-se agora fazer o mesmo com a CPI dos títulos estaduais e o tom das notícias assume uma tal veemência em que se começa a negar relevância ao principío do contraditório como se os ‘‘puros‘‘ estivessem de um lado e os ‘‘ímpios‘‘ de outro a despeito das especificidades das negociaçoes de títulos exigirem um mínimo de clareamento técnico. Há, além de tudo, o empenho de tirar partido regional da situaçao no caso específico de Santa Catarina, mesmo que se reconheça o direito de os senadores Kleinubing e Amin, derrotados pelo governador Paulo Affonso, exercitarem uma açao de vigilância sob o fundamento de protegerem a limpidez dos negócios públicos.
A pressao psicossocial é muito parecida com o espírito de multidao, aquele mesmo que Gustave Le Bon estudou para mostrar a diferença comportamental do homem isolado com aquele que se inseriu na turba. O pior, no entanto, é que a forma como chegam ao público essas informaçoes nao permite o conhecimento, dada a sua extrema superficialidade, seu caráter elétrico e volátil.
Seria chocante se uma vez mais, à exceçao até hoje do caso Collor, que também está impune, ainda mais depois da morte de PC Farias, víssemos que todo o agito deu em nada. No da CPI da Câmara a limpeza ficou pela metade e se houvesse recuo no tempo, isso é investigaçao de situaçoes anteriores, descobrir-se-ia que tudo era rotina e produto de uma cultura. Tal qual deve se dar com o escândalo dos precatórios. A possibilidade, por exemplo, de o Banco Vector, que teve a liquidaçao extrajudicial decretada, ganhar indenizaçao por equívoco do Banco Central, aventada anteontem na ‘‘Folha de S.Paulo‘‘, é algo que dá calafrios na espinha e prepara muita gente, se ocorrer, para um ato de purgaçao de culpas.
BIZARRICE - O ato de ‘‘colar‘‘ nas escolas dava margem a coisas incríveis: as garotas o faziam nas coxas que ficavam à mostra e inibiam o mestre; havia a cola carretel que o artista ia desenrolando e lendo tudo nas letras miudas. Na prova de latim o mestre Joao Mazzarotto apanhou um aluno copiando de um livro enorme que mais parecia uma enciclopédia. Sádico, o mestre fez um jogo com o aluno: ou você continua a prova sozinho e eu jogo o livro lá fora. E dito isso lançou o gigantesco tomo ao espaço diretamente do segundo andar do Ginásio Paranaense, lá no jardim.
SPRAY - Empresas de ônibus urbanos quebraram porque Greca nao cumpriu a promessa de negociar com o BNDES o parcelamento dos contratos e a amortizaçao mais lenta. n O maior mérito do sistema de Curitiba era o de manter o equilíbrio entre as concessionárias, o que agora nao se dá, uma vez que o grupo Gulin tende ao monopólio por explorar o filé, que é o eixo Norte-Sul. n Erondi Silvério, ex deputado, teve que vender a sua empresa. Outros se viram obrigados à desmobilizaçao patrimonial como o Franceschi que explora a linha do Boqueirao e que tem biarticulados cinzas. n Se o governador Lerner nao fosse frágil as especulaçoes em torno de reforma secretarial nao emplacariam com facilidade. Figuras do próprio sistema é que as estimulam e o governador está informado. n O secretário Deni Schwartz, dos Transportes, foi acusado de ser privilegiado com uma estrada junto à sua fazenda perto da Usina de Salto Caxias: ele tem a propriedade desde 1972 e ela está sendo retalhada por causa da barragem e ainda mais se a Copel fizer o aeroporto projetado. n Ministério Público vai retomar mesmo o caso de Campo Bonito. Afinal foram quatro mortos, tortura e execraçao de presos e até hoje nao aconteceu nada. O secretário Joni Varisco acusou Requiao de ter dado ordens para a execuçao do Teixeirinha, o que nao vai ser fácil provar, e que motivou vários processos do senador contra o ex-deputado.
FOLCLORE - Eis um prato cheio para a campanha interior versus capital: Lerner nao estará presente ao ato da instalaçao da fábrica de café solúvel em Cornélio Procópio e aparecerá apenas num telao. Dir-se-á, mais uma vez, que sua preferência é pelo governo virtual. Ocorre que o acidente em Londres nao foi virtual. Diz-se até que depois dele, Lerner está mais atento à direita e à esquerda, nao ideologicamente, mas quando no trânsito.

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