Luiz Geraldo Mazza
A nossa memória é volátil e isso facilita a ação dos demagogos. O caso de Campo Bonito, uma tragédia em que morreram três PMs e o líder Teixeirinha, esquecido por seus supostos companheiros de luta, é paradigmático: houve abuso, de lado a lado, primeiro dos sem-terra que invadiram uma área que estava fora do acordo e na sequência mataram, quase um linchamento, os policiais militares e depois tiveram o seu comandante abatido em ato com todas as caraterísticas de retaliação.
Se olharmos a mecânica institucional o Paraná merece o puxão de orelhas que o presidente FHC reservou para os governos estaduais por sua passividade no caso das invasões de terras. E aqui, convenhamos, temos a maior concentração de todo o país o que serve para responsabilizar não apenas o governo, mas também o Poder Judiciário.
A invasão da Giacomet-Marodin é uma prova de que o governo é tão fraco que não dispõe de um serviço de inteligência, quer na área civil, quer na militar (a P2 estava lá em Campo Bonito e as três vítimas eram dos quadros da organização). Na véspera, todos se recordam, o governo tratou sem-terra a pão de ló numa concentração na Capital (um acampamento com toldo de circo foi montado nas imediações da Rede Ferroviária) que contou com a presença de Lula e bolou a megainvasão com a maior tranquilidade.
A facilidade com que se permite essa gincana habituou mal os dirigentes do MST que não olham a cumplicidade como uma concessão política, de parecer de bons sentimentos ante oprimidos, atribuindo tal feito à sua habilidade como se fosse possível isso continuar indefinidamente, embora se reconheça que o próprio sistema é que dá a entender, por sua fragilidade e também por esse cortejamento fácil da popularidade, que o único jeito de haver reforma agrária é pela pressão das invasões. Esse facilitário porém leva a um equívoco, o de que tudo vai continuar assim como se o MST tivesse o corpo fechado pela justeza da própria causa, algo típico do voluntarismo e desse tom místico que faz de muitos líderes uma reencarnação anedótica de Antonio Conselheiro.
A repressão começou tanto da parte dos fazendeiros, que têm uma cultura feudal sobre a matéria, quanto do governo que passou a agir com mais firmeza, pelo acionamento da polícia e do Judiciário. É visível que o MST não quer o caminho da formalidade (o rito sumário para desapropriações e a taxação, via ITR, parecem insignificantes), pois a sua logística, não desprezível, é a das invasões e das manifestações como essa da marcha a Brasília e também o que lhe confere vitalidade política como símbolo de denúncia. O governo atrái os sem- terra para a formalidade, com o que lhes roubaria a aura mítica.
Quando os sem-terra mataram um policial gaúcho a foiçadas pensaram que tudo ficaria na mesma como está se dando até agora com o caso de Campo Bonito. Lá não foi assim, a despeito de o Rio Grande do Sul dar lições de politização em nós ou qualquer outra unidade do país. O delito foi a júri popular.
Agora o Ministério Público está com a palavra na Auditoria Militar, mas há aspectos no conflito que são da Justiça comum. Teixeirinha foi justiçado? E se foi quem teria dado a ordem de execução? A execução dos três PMs se enquadraria numa legítima defesa putativa, já que os colonos viram as armas que os milicianos portavam? A PM foi apanhada torturando os suspeitos e isso precipitou a ordem de habeas corpus. Até uma ONG dos direitos humanos andou investigando por aqui a questão, isso sem falar nos organismos nacionais da especialidade. Tantas ocorrências e nenhuma apuração. É por isso que o radicalismo ganha força numa ordem sem lei e justiça e num cenário de anomia, de falta de referências do que é legal ou ilegal.
BIZARRICE - Depois que o PT chupou um anúncio da Folha de S.Paulo, o pessoal da Fundação para o Desenvolvimento do Litoral (o delegado Zé Mária Correa lidera-a ao lado dos empresários Newton DallaBona e Mário Costa) pensa em adotar o título de um programa de Lerner Paraná Doze Meses. Estão querendo fazer o Praia Doze Meses para revitalizar o litoral.
DESLEALDADE - Além de haver um foco no Legislativo há outro no Executivo na semeadura da especulação de reforma secretarial. Alguns secretários, quando da gestão de Taniguchi, que somou atribuições fazendárias, se habituaram a buscar a grana que agora escasseou porque despesas de custeio levam 85% da receita. Não basta o governador negar a reforma, mas agir com firmeza contra aqueles que agem como pescadores de águas turvas. Esses mereciam substituição e aí, é claro, haveria reforma. Que obviamente não é a por eles desejada.
FOLCLORE - Miguel Ângelo fez a escultura do homem e que estava tão perfeita que o mestre não resistiu e gritou parla!. A da cabeça do cavalo, feita no Largo da Ordem pelo Todd, ouviu o apelo do Rafael Greca Relincha!. Não relinchou, mas continuou vomitando água, que não deixa de ser comunicação.
CROMO - Minha irmã menor escondia nas mãos um tesouro: alguns cabelos dourados da Lucy. Ela me anunciava algo mágico, próximo de uma fada, que eu conheceria mais tarde e que seria minha namorada, noiva e mulher, mãe dos meus filhos. Em seu aniversário, hoje, uma lembrança dessa ligação forte em fios dourados.
AFORÍSTICO - A guerra contra os privilégios nunca terá fim. Sua próxima grande campanha será a guerra contra os privilégios especiais dos desprivilegiados. Henry Louis Mencken que deve ter inspirado e muito o Paulo Francis.





