Luiz Geraldo Mazza
E depois do show?
Um debate entre a corrente carismática da Igreja Católica e a adversária apareceu num dos jornais de Curitiba. O crítico perguntava: ‘‘E depois do ‘‘show’’ - certamente referindo-se ao padre Rossi - o que sobra?’’. Dava para responder à pergunta com o poema de Drummond de Andrade ‘‘E agora, José?’’, cujas primeiras estrofes, em ritmo crescente, cintilam: ‘‘A festa acabou, a luz apagou’’. Ora há um momento na postura religiosa, que se segue ao processo de catarse, e que exige justamente contrição e não expansões, comuns em outras confissões religiosas, principalmente evangélicas, e agora adotadas por essa corrente que entrou na moda.
Ora, antes de expor o que efetivamente pretendo, que é me referir aos atos triunfalistas da implantação da Renault, ainda mais numa quadra recessiva, com pátios lotados e empresas despedindo empregados e dando férias coletivas, convém explicar que a existência de uma corrente como a dos carismáticos apenas tem o mérito essencial de acentuar o pluralismo e justificável até no fato de o excesso de pregação dos teólogos da libertação, concentrando a atenção no mundo terreno em prejuízo do traço místico-sobrenatural. Assim, pois, ainda que deplorando seus exageros em nome do show, acredito que isso enriquece as múltiplas tonalidades do catolicismo.
Fechado o parêntese, perguntemos, com os versos de Drummond, o que sobrevém ao show inaugural da Renault, da presença do presidente FHC, mordido pela derrota da Medida Provisória, o que prova que o populismo dificilmente será erradicado dos nossos hábitos: e agora? A conjuntura nada tem de satisfatória para o início de atividades da montadora, porém isso não significa que esse quadro permaneça assim por longo tempo. Também a perplexidade do presidente diante da derrota parlamentar de um ponto-chave do ajuste fiscal, aquele que diz respeito à Previdência, precisa de respostas eficazes, pois os sintomas já estão visíveis na queda abrupta das Bolsas.
O ciclo deflagrado com a Renault não tem volta e seus efeitos bons e maus virão de qualquer jeito, restando ao governo tomar cautelas para resguardar interesses da agroindústria, que emprega mais, e buscar saídas para o processo de ‘‘desnacionalização’’ e ‘‘desregionalização’’. Outro cuidado é o de evitar que se acentuem desníveis regionais internos, como tenho alertado, e que, de certa forma, está sendo olhado com um pouco mais de seriedade.
Quanto aos possíveis ganhos políticos junto a FHC, é cedo para avaliar, posto que mais importante do que ministérios, como a história o tem demonstrado, é obter melhor atendimento às nossas reivindicações - e que não são poucas. Foi acertada a posição de Lerner em não precipitar a questão ministerial.
O fato é que a festa acabou, a luz apagou e a realidade está aí, sem as lantejoulas, nos agredindo.

AXIOMA
Para provar que estava vivo, o PT, através do vereador Jorge Samek, pediu o voto de repúdio à presença de FHC em Curitiba. Tão inútil como se tentar subestimar a presença de Lula por aqui, o que também pouco altera a ordem dos acontecimentos. Como se vê tudo inutilmente igual


GLOSA Na fila do beija-mão para o presidente Fernando Henrique, o prefeito de Curitiba, Cássio Taniguchi, e o ex-prefeito Rafael Greca. Dá para imaginar quem estava mais assanhado e o que fariam ambos, se num ambiente desses, tomassem o soro da verdade. Até na braveza, o Cássio é mais contido.
BIZARRICE Quando anunciaram o espetáculo de malabarismo na inauguração da Renault, houve uma preocupação: como será que o Aníbal Khury poderá subir até o palco? Bem, se o Lerner subiu, ele também poderia. Uns mais, outros menos, mas todos malabaristas.
EPIGRAMA Lula deu uma entrevista sobre o crescimento do PT no Paraná: como ficou com representação menor no Legislativo estadual, é prova de que se cresceu foi, como dizia Manoel Ribas, como rabo de cavalo: para baixo.
ARABESCOS Há uma semelhança, sim, entre aquele popular chutando o traseiro do empresário na frente da Bolsa de Valores no Rio, a greve de fome dos nossos professores (a outra, dos guerrilheiros, é assunto mais sério) e agora o voto contra a Medida Provisória que mexia com a Previdência do setor público. É a transição entre uma ordem envelhecida com outra, modernosa, todavia imposta, de fora para dentro, como decorrência do colonialismo passado a limpo. Inclua-se aí também a reação selvagem havida em Foz do Iguaçu, que exigiu a intervenção da polícia, por causa da decisão de demitir funcionários.
SPRAY Na expectativa da reforma do secretariado, os grupos que lutam pelo domínio da polícia civil estão ‘‘dando um tempo’’ nas divergências e até se cumprimentam. - Secretários não aproveitados que ficarão em assessorias vão apenas mostrar que o governo Lerner passa ao largo da austeridade, até porque carece de energia para acabar com as Secretarias inúteis ou fundí-las. - Não está certa, embora os festejos celebrados, a manutenção de Gionédis na pasta fazendária, como sugeriram alguns apressados deputados. - Nem tudo é vitória de Aníbal Khury, como certo noticiário insinua. O caso da Câmara Municipal de Curitiba, com o Edde Abib, indicado por Aníbal, de não ter mais do que o seu próprio voto é um exemplo. Lerner, pelo jeito, prefere ganhar a batalha final, mesmo quando pra lá de humilhado. Diz-se um político de ‘‘resultados’’. - Desmanches de automóveis foram importantes cabos eleitorais em vários pontos do território. - De olho nas planilhas: o aumento dos combustíveis deve levar o público a buscar apoio de Procons para ver em que medida o custo final corresponde aos componentes reajustados. Daí se pode chegar a uma revolução cultural.
FOLCLORE Aquela figura que aparecia na campanha eleitoral comendo parafusos, pelo menos desde anteontem, está vomitando belíssimos automóveis. Mégane (ou me engane) que eu gosto.
CROMO Imagem da mão etíope, em meio à fome coletiva, com o filho desnutrido ao colo, na primeira página dos jornais, é a Madona possível do subdesenvolvido. No seu braço, porém, o adorno. Como nos nossos pobres com telefone celular e que o acham mais importante do que o pão que lhes falta.
AFORÍSTICO ‘‘Ao campo’’- brada o presidente e a massa vai ao Maracanã.

mockup