Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Narcisismo punido
O governador tentou de todas as formas negar o fato de que a Renault não o incluira no convite oficial. Ocorre que essa documentação, a existência do papel, é mais clara do que um grampo daqueles que derrubam ministro. O que se torna estranho é o fato de essa questão haver provocado irritação profunda não apenas em Lerner como em vários personagens do primeiro escalão, enquanto que a acusação do senador Requião, repetida várias vezes na CAE, de que ele, o ocupante do Palácio Iguaçu, é chefe de quadrilha, como toda a direção do Banco do Estado, e que o secretário Giovani Gionédis é um ladrão, foi absorvida de forma tranquila. Mesmo que se argumente que Requião é lelé da cuca, tal qual Lerner repete ao lembrar que ele se faz de louco para ser tratado como um inimputável para efeitos de enquadramento criminal, a diferença de reações em nada favorece a imagem do governo e o zelo com a sua moral.
É claro que, verificada a gaffe, o que se torna constrangedor porque o nosso governador é um francófilo de primeira linha (tal qual outros do mesmo agrupamento técnico e intelectual como Saul Raiz e boa parte dos quadros da Copel, dentre eles o saudoso gênio Isaac Milder), houve pressa em reparar a mancada com nova emissão de convites. O incidente não justifica histeria, ainda mais quando a mesma equipe metaboliza as agressões do senador Roberto Requião, todavia não deixa de constituir-se numa lição com requintes didáticos de uma fábula, daquelas que, no fim, sempre trazem a mensagem moral, por aquilo que mais nos distorce que é a imanência da versão oficial como a mais absoluta verdade e a dos nossos governantes tratados como mitos.
Alegar a inconsequência de Requião para não dar ouvidos às suas acusações é, antes de tudo, prova apenas de pusilanimidade, pois mesmo a inconveniência de um processo-crime, por seus efeitos políticos, não deveria ser vista como um obstáculo, a não ser que haja o temor de que aquilo que todos nós temos como injurioso, calunioso e difamatório seja verdadeiro. Os homens públicos, como a mulher de César, devem não apenas ser honestos como também parecer. E não será adotando uma distância olímpica do problema, porque o autor da denúncia, na perspectiva dos denunciados, seria compulsivamente leviano, que se absolveria a autoridade.
OUTRA FÁBULA Vamos, porém, olhar com bom humor a mancada. Lerner deveria ser o dono da festa e em termos quase absolutos porque se expôs, sofreu os ônus políticos, foi à luta com o seu projeto de atrair as montadoras. Seria como inaugurar o Estádio Pinheirão, em sua fase final, sem homenagear o José Milani ou a Arena do Atlético e esquecer do Mario Celso Petraglia.
A situação lembra em tudo uma piada corrente em Hollywood: autores do longa-metragem King Kong, ainda na sua primeira versão com Fay Wray, tentaram o financiamento da película, enfrentaram mil reuniões, o ar afetado de burocratas em brainstormings até que foram chamados para a decisão. O big boss, charuto rolando na boca, disse que aprovaria o projeto, mas com uma condição. Os autores já viviam a euforia da vitória, quando ouviram a condição restritiva do financiador : Topo tudo, mas tirem o macaco!
Lerner, o King Kong da estória, foi expulso do script.
AXIOMA
Trabalho, segundo o Macaco Simão, agora só se encontra no encruzo. Não está certo: há trabalho, também, em cachoeira de água limpa
GLOSA O Odone Fortes Martins, o inventor do jornal sem jornalista, batia córner e fazia gol de cabeça, anteontem, na festa da Bosch, entrevistando pessoas como um animador. De Bosch é coisa em que há poucos especialistas.
BIZARRICE Que o Paraná mudou com Jaime Lerner não há como contestar. Antes, se alguém falasse que a Krupp estaria para vir a Curitiba, todos entenderiam que se tratava daquela doença, a crupe, que fecha a garganta do paciente. O pior é que alguns críticos do Lerner, especialmente os do PT, prefeririam a difteria (que é o nome certo) sob o fundamento de que pelo menos não é multinacional.
EPIGRAMA Que falta de brasilidade a do Caetano e da Marisa Monte virem cantar na inauguração da Renault. Ouvido de um indignado nacionalóide.
SPRAY Desde ontem o Paraná não é o mesmo: já deixou de ser periferia de São Paulo, de ter uma economia de complementaridade à paulista. Retoricamente, vale como a complementação do ato de 1853, que nos tornou província autônoma. Só que agora temos uma economia menos paranaense e menos brasileira. - Ecologistas fizeram o auê, mas não conseguiam ser ouvidos, dado o seu acesso dificultado aos meios de comunicação. Revelaram espírito de luta, sem a agressividade, porém, de militantes como os do Japão, que há décadas passadas botaram uma torre para impedir decolagens e aterrissagens no aeroporto ultramoderno de Narita. - Lula vem aí, hoje, para reunião do PT regional: é bom que aconteça, uma vez que muda a postura dos partidos nacionais que só vivem do processo eleitoral. A entressafra política é mais importante do que a safra por uma questão elementar: a primeira é a semeadura, a segunda a colheita. - Maioria dos trabalhadores da Renault é de paranaenses. Do chão de fábrica, os 260 operários foram recrutados em território estadual, 80% deles de São José dos Pinhais. - A médio prazo teremos alguns efeitos, decorrentes do impacto urbano, o que é infelizmente desconsiderado: mais agressão na política de usos do solo, mais marginalidade, mais violência. Indesejados, mas inevitáveis, esses efeitos colaterais, como se deu em Betim e Contagem, e que estrangularam Belô, uma das poucas cidades planejadas do Brasil, hoje rigorosamente um inferno.
MÁXIMA O pessoal da Renault pode esquecer o Lerner, mas o Requião, não.
FOLCLORE De tudo o que se nota na política brasileira é que predominam os mais fortes contrastes: o PT tem uma logomarca igual ou parecida com a da Texaco, uma abominada multinacional, e o Partido Verde, até por assim ser chamado, vai ser difícil amadurecer.
CROMO Que afinidade dramática há entre um idoso dos nossos asilos e a expressão aturdida do leão velho do circo, que já não serve para a ribalta e aguarda apenas o fim que parece chegar a toda hora e não chega.
AFORÍSTICO Se Aníbal Khury se aposentar, vai aparecer um outro poderoso: menos por sua vontade do que pela disposição servil de tantos deputados. Esse tipo de força é mais agudo do que um eletroimã industrial.





