Luiz Geraldo Mazza
Tantas foram as vezes que Sílvio Caldas, o grande cantor, anunciou sua despedida dos palcos que de repente ninguém mais acreditava na disposição efetiva do seresteiro de tirar o time. Mais ou menos a mesma coisa está acontecendo com essa mobilização do pé vermelho convocada por Belinati, pois o encontro acabou transferido pela terceira vez.
Quando o prefeito de Londrina percebeu que montaria o circo para os outros brilharem - estavam listados, entre outros, além do governador, o senador Requião e o ex-governador Álvaro Dias - passou a ser mais sensível ao apelo do próprio Palácio Iguaçu no sentido de deixar tudo para outra oportunidade.
O oportunismo visceral de Antonio Belinati - que não tinha esse tipo de reivindicação quando seus parentes integravam a administração, embora Londrina continuasse exatamente como está agora - se vale de velhos ressentimentos e de alguns temas de campanha eleitoral agitados pela oposição como o desprezo por método da massa cinzenta da região e o esvaziamento político-econômico de Londrina.
Fundamentos da convocação existem porque há fatos concretos que mostram, de certa forma, não apenas a ausência de prestígio a líderes, como também a falta de presença do governo e não apenas na região, como de resto em todo o interior. Todavia a forma como a questão foi colocada ela mais parece um gesto de ingratidão do que manifestação legítima, decorrente de sentimento generalizado do setentrião. Ocorre que essa tese, a do abandono, foi a bandeira-chave da campanha oposicionista e que obrigou o governo até a abusar na sua mobilização em Londrina em verdadeira operação de guerra.
O que Belinati está fazendo é o reconhecimento de que a oposição estava certa e ele não mereceria ter ganho o segundo turno. E como acaba dando unanimidade contra o governo, que o elegeu na marra, tornaria seu gesto mais limpo e criativo se saísse do seu posto e deixasse uma Carta Testamento, reconhecendo limpamente que não deveria ter ganho. Seria mais ético do que tentar fazer um gol contra com extremo refinamento, apenas pelo prazer de prejudicar a quem tudo fez, até o que não devia, para ajudá-lo.
BIZARRICE - Enquanto seu irmão, Júlio, aparecia como um dos maiores construtores de paliteiros na orla, Jaime Lerner fazia, nos anos 80, uma espécie de anúncio para caricaturar a sobrecarga dos esgotos: Não faça de sua válvula uma arma, pois a vítima pode ser você. À cada puxada de descarga em Caiobá as coisas funcionavam como o lançamento de torpedos de um submarino. Na época do filme Tubarão temia-se mais uma bosta flutuante do que o peixe.
SPRAY - Não bastasse o respingo da CPI dos títulos estaduais e ainda por cima a troca de acusações em torno de irregularidades no Banco del Paraná, ainda houve a demissão do diretor financeiro do Banestado, Alfredo Sadi Prestes, para agravar a situação. - Não é saudável, como se sabe, a situação do Banestado, especialmente com as ocorrências da Leasing que ofereceu capital variável a empresas quando está vedada de fazê-lo. O fato de estar melhor do que os demais bancos estaduais não o afasta da área de risco, conquanto Lerner seja contra. - Há muita decepção com a desfiguração do Banco del Parana: não houve governo, e isso desde antes de Richa, que não o apresentasse pelo que tem de mais vicioso: a estória dos cisnes negros, as operações triangulares em favor de empresários do oeste e agora, mais recentemente, a incrível narrativa do vendedor de cachorro quente de Ponta Porã, usado como laranja em operações no mínimo de um milhão de dólares por dia. Essa denúncia o pessoal de Mário Pereira fez contra a turma do Requião e esta repicou com outras mais negras. Por isso muitos acham que, a despeito de sua utilidade, o del Parana só tem contribuído para colocar mal as nossas instituições. A frequência com que aparece como fonte de escândalos assusta. - Ambientalistas se mexem para impedir que o engenheiro florestal Luiz Antonio Motta Nunes de Mello assuma a superintendência regional do Ibama. O trabalho do engenheiro Jonel Yurk é considerado muito bom pelos ecologistas. No caso da Giacomet-Marodin é uma temeridade que se permita o alastramento da invasão que destruiria a última grande reserva de araucária angustifolia. - Mais uma vez Itapoá se movimenta para transformar-se em área do Paraná. A bronca é por causa das dificuldades de transposição do rio Say no lado paranaense e da baía de Babitonga do lado catarinense. - Governo teria despendido R$ 17 milhões em comunicação social apenas em novembro, conforme uma lista que corre de mão em mão por aí. Como se vê a espionagem no Palácio independe de grampo no telefone.
FOLCLORE - O poder mora ao lado é o título da matéria sobre Aníbal Khury que o jornal do Batel do jornalista Luiz Gonzaga publica esta semana. É paródia do título do filme O pecado mora ao lado com Marylin Monroe, mas em momento algum sugere que haja qualquer falta pecaminosa até porque 99% das publicações sobre o bruxo apenas o exaltam. Nem insinua que o poder de Aníbal seja assim olhado, como o vizinho do Executivo e Judiciário, e isso tem até alguma pertinência não apenas física, mas sobretudo política.
CROMO - Em Faxinal do Céu há uma árvore que sobreviveu à fissão nuclear de Hiroxima: todos olham, com respeito venerável, o vegetal como se dotado de algo mais forte do que a imortalidade.
AFORÍSTICO - Juízes se reuniram no Brasil, anteontem, para defender salários mais elevados e manutenção das prerrogativas: se cada área de poder achar-se em igual direito a reforma dança.





