Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Injustiça poética
Se existe justiça poética, aquela que se cumpre fora do organograma, há de ter, também, uma forma de injustiça poética. E foi o que acabou acontecendo com Jaime Lerner, que correu todos os riscos, mobilizou energias para trazer a Renault até nós, logo ele que teve a sua formação de pós-graduado na França, cuja presença física foi esquecida pelo protocolo da montadora no ato inaugural de hoje. Ele sofreu penosa campanha interna por haver concedido tantos estímulos a uma empresa, até outro dia estatal, do exterior, quando somem do mapa as organizações tradicionais da terra (Refripar, Bamerindus, Impressora Paranaense, Batavo etc.) e agora, na hora da apoteose, acaba se transformando no sujeito oculto da oração. Bem feito, diz a oposição e repetem empresários da terra que respiram, abraçadinhos, na UTI.
Há, no Paraná, a despeito de sua permeabilidade ao adventício, tanto que nenhuma outra unidade federativa tem tão variada representação étnica, alguma restrição aos dirigentes de multinacionais que por aqui aportam a quem, pelo menos alguns, olham como se fossem colonizadores do velho estilo, reprodução daquilo que se viu na Argélia. Descontado o exagero chauvinista e também a total impropriedade da comparação, pelo que tem de infantil e primária, em nada concorre para melhorar essa imagem a mancada espetacular do protocolo da empresa ao omitir o nome do governador.
O ridículo maior estaria por vir: o cerimonial do Palácio se comunicou com os meios de comunicação para acentuar que nada tinha a ver com a gaffe, o que, pelo hábito do culto à personalidade, seria uma contradição em termos, ainda que por tradição a área tenha criado constrangimentos para o governador como o papelão da encenação de O Vampiro e a Polaquinha. Assim, no dia em que havia tanta coisa para comemorar, como a aprovação do andamento da venda das ações da Copel e do processo de saneamento do Banestado na CAE do Senado, o governo foi premiado, logo ele, tão narcisista, com a mancada dos franceses protegidos. É mais engraçado do que patético.
Há nesse registro uma espécie de ato falho: nega-se o regional, o que pelo menos geopoliticamente é a regra, para fazer valer a atração induzida para o capital estrangeiro que se deve a FHC mais do que a qualquer outro. Nessa visão logística, Lerner é mero figurante e não ator principal.
GLOSA
Ontem, na Exclusiva, entrevista com Nelson Justus. Reinaldo Bessa cumprimenta o deputado e este replica: Bom dia, José Wille. Percebendo o erro, Justus tenta remediar: É que estou habituado a falar muito com a CBN
AXIOMA Requião chamou, várias vezes, a diretoria do Banestado de quadrilha e Giovani Gionédis, de ladrão. Fingir que não ouve não é atitude fleugmática ou de distanciamento. Tanto neste caso quanto no das ofensas genéricas de ACM, um mega-Requião, o que transborda o campanário, para os tucanos do governo. FHC não reage e aqui, os atacados entram na mesma linha. Procura-se - e isso poderia sair nos classificados - um sinal, um sinalzinho só, de dignidade.
BIZARRICE Descuidos do cerimonial do governo são comuns. Na segunda gestão de Lupion, era ocupante do cargo um oficial da Aeronáutica, o capitão Sidnei. Uma das pisadas na bola foi apresentar num show para o Marechal Lott um bailado sensual, acrobático, do padrão Eros Volúsia. O milico, poderoso, ficou vermelho como um peru, indignado com o que olhava como abuso. A pior, porém, foi mandar um convite para o arcebispo metropolitano D. Manoel da Silveira DElboux e excelentíssima reverendíssima senhora.
Que sirvam as lembranças para abrandar o esquecimento do governador nas festas inaugurais da Renault. Ou será que ele não é tão importante como imaginamos, em função dos nossos exageros de uma imprensa tutelada e em vias de padecer por falta de grana oficial?
SPRAY Na inauguração da Bertrand Faure, o governador disse que somos o campeão da industrialização e a França, do futebol. Não esqueceu dos franceses, a quem sempre cultuou, mas foi esquecido pela Renault no protocolo. - Com a chegada da grana do BNDES, o governo acerta as contas, ajusta o Fundo de Pensão, paga os atrasados de alugueres, empreiteiros e prestadores de serviço. O brilho no olhar dos interessados é feérico, tal qual luz natalina. - Derosso só não teve dois votos para a presidência da Câmara Municipal: um de abstensão e outro de faltante. Dá para sugerir, como chineses, que Aníbal é um tigre de papel, como eles diziam do capitalismo? - A repressão aos pequenos é sempre mais fácil, sejam eles ambulantes ou sacoleiros. Agora a fiscalização municipal está meio intolerante com placas e faixas de propaganda que na maior parte dos casos é de pequenos empresários e de autônomos. - Índice médio de cura do Hospital do Câncer atingiu 58%. Uma ampliação no terceiro andar do Erasto Gaertner dará 40 leitos a mais e é preciso haver colaboração da comunidade. - Porta arrombada, tranca de ferro nas praias: o CREA vai fiscalizar duramente construções na orla. O Edifício Atlântico, em Guaratuba, e o teleférico de Matinhos o teriam motivado? - Um juiz da Capital atacou um do interior (Região Metropolitana) e o caso, bastante embaraçoso, está para ser julgado.
FOLCLORE O vereador Jorge Samek mandou inserir em ata, na Câmara Municipal, votos de repúdio a FHC, que vem hoje a Curitiba. É o típico gesto inútil. Lembra o caso do sujeito que foi avisado que a mulher o estava traindo num determinado prédio. Ficou imaginando como vingar-se: subir ao andar em que o casal transava e surrar o sedutor e a seduzida. Pensou melhor: mas se ele me der uma surra, o que faço? Voltou às cogitações: ataco de revólver, mas se ele falhar e eu for humilhado? E assim por diante. Aí veio a inspiração: pegou uma pedra, acertou a vidraça do quarto e deu um grito: Pegando a mulher dos outros, hein, seu vagabundo?, e saiu correndo, é claro, para não ser visto.
Não deixa de ser um protesto e um pretexto.
EPIGRAMA FHC criou uma polêmica ao dizer que não se justifica a diferença no tempo de aposentadoria entre homem e mulher. Isso aconteceu dias depois de os estudantes da Universidade do Rio terem ofendido a primeira-dama, Dona Ruth. Pelo jeito ela se iguala também nos riscos de vaias e agressões ao marido.
CROMO Amor perfeito existe, mas por enquanto é apenas uma flor.
AFORÍSTICO A Tiazinha, chicote em punho, na celebração do padre Rossi, pode ou não pode? Vai ou não vai? como dizia o Chacrinha. Em vez de Teresinha, o público gritaria Tiazinha. Montagem herética-erótica põe em discussão o exagero dos carismáticos e quais os limites da catarse.





