Luiz Geraldo Mazza
Predador por excelência
Lembro de uma autodefinição do senador Roberto Requião como um predador por excelência. É claro que a semântica adotada foi positiva e não negativa, ainda que a mecânica darwinista do mundo biológico deva ser vista como neutra. Tanto que Curitiba agora está às voltas com gambás em quantidade excessiva por quebra do equilíbrio ambiental e ausência de predadores. O lambari, meu peixe predileto, é objetivo alimentar da traíra, da saicanga, de peixes exóticos como o ‘‘black-bass’’, a truta de tanque. É, também, um predador de ovas, por exemplo, do tucunaré amazônico.
Um predador na política segue também imperativos do ecoambiente, posto que o tipo de aliados que Fernando Henrique e Jaime Lerner têm dispensem adversários bravios. O comportamento de Aníbal Khury e do secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, em estranhíssima associação, é um exemplo: a freada no processo de venda das ações da Copel está aí para demonstrá-lo.
O senador Requião, além da resistência oposta na CAE em torno do processo de saneamento do Banestado, com o objetivo claro de tatuar o governo atual como o autor genuíno da façanha negativa, já protocolou um documento no BNDES em que alinha o que considera ilegalidades do processo de caucionamento de ações da Copel e comunica oficialmente as medidas que tomará no âmbito judicial para responsabilizar tanto a União como o Estado-membro pelo que chama de dilapidação do patrimônio público.
Tanto no caso da obstrução anibalesca, apoiada com entusiasmo pela oposição, quanto no da resistência, esperada e compreensível de Requião, o que se nota é a presença de um governante abúlico, destituído de vontade, para enfrentar as tensões mais agudas. Já se entregou no primeiro caso várias vezes e no segundo tivemos a sua lamentável omissão, por falta de determinação, no bloqueio aos empréstimos internacionais. Tivesse o temperamento de um Requião, faria os funcionários estaduais cercarem a Assembléia para pedir apoio à venda das ações para garantir o 13º.
Essa linguagem, a do melodramatismo, mexe não com o coração, o que seria surpreendente, mas com a cuca dos deputados, habituados ao ritual do cortejamento servil a essas manifestações, como permitir que os professores invadam as suas instalações, como se deu no passado ou ainda as transformem em pátio de milagres com cenas deploráveis, como a demagógica e primaríssima greve de fome.
Um governo, que não sabe enfrentar as chantagens dos aliados, está menos capacitado ainda a encarar um adversário determinado, obsessivo e que cumpre o lado predatório do conflito. Isso enquanto não está no poder porque quando o ocupa a primeira coisa que faz é anular o outro, velha compulsão fascista.

AXIOMA
Um deputado que tenta ‘‘vender o peixe’’ de que é esquerdista aparece com R$ 30 mil de contribuição da Inepar em sua campanha eleitoral. Melhor isso do que ficar pendente no Banestado, como se deu com outros


GLOSA Num anúncio da cerveja Skol, em que se fala numa promoção na Pedreira Paulo Leminski, aparece um coral de ‘‘coroas’’ cantando ‘‘é redondo’’, um deles sem tirar nem pôr alguém lembrando Lerner. Bem mais assemelhado do que o secretário José Tavares com o baixinho da Kaiser.
BIZARRICE Apesar da crise - e isso prova que ela é poliédrica, dura para uns e amena para outros - houve um aumento de 30% em implante de cabelos no Brasil. O perfil dos clientes, conforme alusão do Ricardo Boechat, é de executivos e políticos, entre 35 e 45 anos, a maioria de casados pela segunda vez. Essa faixa etária é jovem demais para implante em caso de queda, seja de cabelos ou de vigor, muito mais compreensível do que com os bem mais velhos, que têm todos os motivos para agarrar-se em ilusões.
AMNÉSIA Não é só o discurso do Luis Antonio Fayet que fala da situação em que encontrou o Banestado dada como boa. Amanhã, um semanário alternativo vai publicar um carta de Lerner ao Banco Central em que diz que está tudo azul. Memória de uns, amnésia de outros. Assim é o registro político.
HISTÓRIA A ‘‘Vilinha’’, núcleo provisório de ocupação de Curitiba, ficava às margens do Rio Atuba, conforme uma versão do historiador Júlio Moreira. Já o arqueólogo Igor Schimz sustenta, com base em prospecções feitas, que há uma grande possibilidade de isso ter ocorrido às margens do Rio Bacacheri, na Vila Tingui. Hoje o vereador Jair Cézar vai visitar a ‘‘Vilinha’’ em companhia do cônsul português Miguel José Fawor. O legislador já está querendo fazer ali o Portal Lusitano. Devagar com o andor com o seu Fawor: enquanto a questão científica, suscitada pelo arqueólogo, não for resolvida é melhor não agir com aquela desenvoltura, por vezes açodada, do ex-prefeito Rafael Greca.
SPRAY Circula no meio financeiro o informe de que a taxa que o Paraná vai pagar pelo saneamento do Banestado é bárbara: 1,3% ao mês. Houve banco estadual que pagou 6% ao ano. - O vereador Ehden Abib teve contado em seu favor mais 25% de adicionais no Tribunal de Contas. Se ficar mais um mandato acaba se aposentando sem precisar ir à Corte. - Quem no governo dá tanto apoio aos desmanches de automóveis que não pagam impostos e vivem fora de qualquer fiscalização? Essa é uma das questões mais suscitadas por ouvintes da Rádio CBN. - Desde a segunda quinzena de novembro, agentes do TC procedem verificação em documentos fiscais das prefeituras de Foz do Iguaçu, Medianeira, Matelândia, Cascavel e São Miguel do Iguaçu. Se essa dureza fosse contra o governo estadual, a cobra iria fumar. - Se o governador não pode nomear o secretário de sua confiança, deveria pular fora por uma questão de dignidade. Poucos terão a categoria de um Zaqueu de Mello, de Londrina, para transformar a renúncia num ato de extrema e durável grandeza.
FOLCLORE Se as manobras para adiar a eleição da Câmara Municipal de Curitiba e da votação da entrega em caução de ações da Copel para garantia de empréstimo no BNDES em nada redundaram, por que todos os lados, irresponsavelmente, sorriem como se o povo fosse um palhaço permanente?
EPIGRAMA O entulho autoritário é um cadáver insepulto, e como fede!
CROMO Entre os joões-de-barro, pássaros construtores, seria impossível algum deles com o padrão Sérgio Naya.
AFORÍSTICO Na sociedade do espetáculo não se respeita nem o misógino e muito menos o filósofo amargo e pessimista: Schoppenhauer e Nietszche não escapariam a uma convocação para um programa de TV com Chacrinha ou o Leão e o Ratinho e teriam que se submeter a um julgamento por parte da galera. Andi Warhol falou nos 15 minutos de glória, a que todos têm direito. Esses seriam os minutos de teste e constrangimento.

mockup