Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Palito em banquete
Bem no seu estilo, o de frasista, Aníbal Khury disse à Veja que se ocupar com o custo dos automóveis da frota a serviço dos deputados é como fazer economia de palito de dente em banquete. Deixando de lado que o palito caiu da moda na etiqueta, mas continua indispensável no espeto corrido, o fato é que a afirmação é bem ao estilo da prodigalidade brasileira. Infelizmente para nós, como povo e civilização, não tivemos guerra civil para aprender a cultuar a sobriedade, o senso de poupança e ter horror às mordomias. Não apenas os europeus, mas muitos povos do chamado Primeiro Mundo, aprenderam essas virtudes no sofrimento, na escassez, nas filas de racionamento. As que tivemos na 2ª Guerra Mundial (e eu entrei nelas para comprar pão e açúcar não poucas vezes) foram insuficientes para fixar responsabilidade.
Objetivamente, apesar do mau gosto da expressão e da sua impropriedade, o guru acaba tendo razão. É que se gasta tanto em quaisquer dos poderes que não passa pela mente dos nossos administradores a noção de cautela, contenção e economia. Essa cultura é que vai minar o ajuste fiscal que não passará, mais uma vez, de um jogo de cena para efeito externo, apesar da crise estar gritando em nossos ouvidos.
As matérias que a imprensa brasileira vem publicando sobre as prodigalidades parlamentares estaduais são chocantes, ainda que mimetizadas no código esotérico das rubricas. Aqui no Paraná, era especialista em decifrá-las o PT, que agora se transformou, em maioria, num defensor da lei do silêncio em cima do assunto e um pragmático usufrutuário das benesses, tanto lá na Assembléia, estadual quanto na Câmara Municipal. Dá saudades da energia de um Pedro Tonelli, que valia sozinho por uma bancada, fazendo as denúncias de mordomias e vantagens dificilmente decifráveis. Hoje restou o Dr. Rosinha, que parece ter se exaurido no papel de Quixote e decidiu, até pelo tédio do ritual, ir para a Câmara Federal. Com o realismo do PT, que aliás pedagogicamente se atrofiou, perdendo representação (seria a combatividade em queda ou a suspeita de rumo ao comprometimento?), não teremos mais voz alguma para detalhar essas trutas.
Cada vez que há esse alertamento, os deputados alegam que se está criando um caminho para a fujimorização, como se não fossem eles os culpados. Ninguém contribui tanto para o niilismo como eles. Na intimidade reclamam das mordidas do eleitor (com o que se legitima a assistência social), como se atendê-las fosse, sob qualquer hipótese, obrigação incontornável.
AXIOMA
Ainda de banquete, para usar a metáfora do Aníbal Khury. O garçom era muito exigente e detalhista, e, quando o cliente lhe disse que precisava apenas de palitos, retrucou de bate-pronto: O senhor os quer barrocos, bizantinos ou funcionais?
GLOSA O Brasil não ganha uma: perdeu o Mundial de Futebol, as meninas perderam o bronze no vôlei como o masculino, e agora o Vasco perde do Real Madrid. Houve a vitória sul-americana do Paraná Basquete, mas aquilo é bem menos sério do que os Jogos Mundiais da Natureza. Não havia público nos dois casos.
BIZARRICE Se essa pressão legislativa para manter o Giovani Gionédis não for coisa combinada entre as partes (Legislativo e Executivo), o que em nossas práticas não seria de espantar, estaremos diante de uma típica manifestação de fraqueza. Álvaro Dias, Requião, Canet Júnior, Ney Braga não a tolerariam e chutariam o pau da barraca.
ANALOGIA Pinochet ameaça o suicídio, mas até para isso é preciso ter noção de prazo. Como ensina o jurista Yhering, o direito não socorre os que dormem. Dormientibus non sucurrit jus. Getúlio Vargas o fez no tempo certo e virou um quadro político que lhe era desfavorável, assegurando a vigência da frente PSD-PTB por mais alguns anos. Pinochet, se faz o tresloucado gesto no calor da discussão jurídica, provocaria remorsos e mobilizaria a direita.
SILOGISMO O Rubinho Ferreira, acompanhando, de Foz do Iguaçu, o desafio de Aníbal Khury a Lerner, fez paródia com o que se dizia sobre Lincoln Gordon no Brasil em 1964: Basta de intermediários. Aníbal para governador. Um jornalista político faz a correção: Basta de intermediário, Lerner secretário.
SELVAGERIA Um dos sinais de exaustão do uso da liberdade, patente na questão dos sem-terra, no hábito de invadir repartições públicas e fechar estradas, ficou nítido com a selvageria praticada contra a primeira-dama do País e isso no interior de uma universidade. Essa cena e aquela outra do populista chutando o traseiro de um empresário, nos primeiros leilões de privatização na Bolsa de Valores do Rio, que saiu na capa de revista nacional, é, como diria o Nelson Rodrigues, o último arranque de um cão atropelado. Fim de ciclo.
SPRAY Feitas todas as concessões exigidas, a Assembléia votou urgência para o negócio da Copel. É nessas situações que se desvela a pequenez do Paraná. - Guaracy Andrade, da tropa de choque do lernismo, teve a contagem de 4 anos e 2 meses (sob regime do INSS) para sua aposentadoria pelo Tribunal de Contas. - Dia 8, 16 horas, na Livraria Ghignone, na XV, o jornalista Ivan Schmidt lança o seu livro Edgar Alan Poe, Nunca Estive Realmente Louco. Ivan está ainda trabalhando um texto sobre o Contestado. - Campo Mourão passou a dar exemplos de austeridade: depois do recuo forçado no aumento dos vereadores, havia um projeto que ampliava o número de camaristas de 15 para 17 e que foi retirado. O vereador Joani Teixeira, autor, pediu a retirada. - Esse aumento de 5 a 7% nos combustíveis, com a retirada de subsídios, vai ter impacto muito maior do que o imaginado. Ele opera em cascata em função dos fretes e de custos como o das estradas pedagiadas. - Requião está levando questões de campanário para o Senado: denunciou que a firma dos Greca teve privilégios em financiamento no Banestado, não deixando, também, de pedir vistas do processo de saneamento.
FOLCLORE Quem andou por aqui, outro dia, foi o pianista Arthur Moreira Lima. Ao fazer um recital em Moscou foi apresentado ao embaixador do Brasil:
- Muito prazer, Vasco Leitão da Cunha.
- Fluminense Moreira Lima, a seu dispor.
CROMO Um sapato velho no monturo, vaso improvisado de uma flor campestre.
AFORÍSTICO Vejam os jornais dos gaúchos, debates de privatização, denúncias: parecem bem mais vivos do que os nossos, como se aqui as pessoas fossem como manequins de vitrine, o rosto indefinido.





