Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Viabilidade do besouro
Fernando Henrique, o presidente, ao entusiasmar-se com dados que indicavam queda no desemprego, fez referência à caixa de Pandora, aquela que, quando aberta, libera os males no mundo, conservando, no fundo, a esperança. O rumo que o Brasil tomou, para o bem e para o mal, não tem volta: não há risco de médio prazo de haver aqui o que aconteceu na Rússia com o crescimento da força eleitoral dos que haviam sido apeados do poder, comunistas, neocomunistas e nacionalistas. O oposicionismo, no Brasil, é residual: jamais haverá, ao menos na correlação de forças, de ameaçar o projeto hegemônico que, aliás, conta com a compreensão de muitos dos seus integrantes que já não aceitam arquétipos cepalianos como o da substituição de importações, autarcização da economia que nem a China Continental manteve.
No Brasil não houve abertura, mas arrombamento, e isso desde Collor, quando se desconsiderou a noção de ritmo para os ajustes internos e o estabelecimento de salvaguardas eficazes para os processos de desnacionalização que viriam. E foi o que sucedeu: estamos agora recebendo a notícia de que já no Natal de 99 não teremos a marca Bamerindus vinculada ao HSBC. Tudo aceito com normalidade como a absorção da Refripar pela Electrolux e que também retirou qualquer referência ao nome tradicional.
Esses dois aspectos - o da desnacionalização e desregionalização - vão nos transformar em capatazes de multinacionais. Nada disso é assim surpreendente: um levantamento da Gazeta Mercantil de ontem mostra que as subsidiárias das transnacionais norte-americanas no Brasil atingiram os maiores índices de retorno sobre o ativo: 8,42%, quase o dobro da média mundial. Aponta-se o fato como estimulador do investimento direto. Tudo é orientado para essa direção: o governo se ajustou às exigências do modelo do FMI e, embora pareça atrasado em relação à rapidez como se deram os fatos na Argentina (a Petrobrás deles, YPF - Yacimientos Petroliferos Fiscales, foi privatizada), é olhado como mercado-chave na América Latina, ao qual se concedeu a ajuda dos US$ 41 bilhões, em função precisamente de suas dimensões e da possibilidade de um efeito-dominó na insurgência de um ciclone especulativo.
Se FHC falou, outro dia, em caixa de Pandora, poderia agora, com os dados do consumo de energia elétrica no Paraná, evidenciar a expansão da economia, conforme os quadros da Copel de janeiro a outubro de 98 em analogia com o mesmo período do ano passado: houve um ganho na média de 5,4% no consumo, e o setor que mais cresceu foi o comercial (7,9%). Aliás, em termos nacionais, quando era maior a sinistrose, uma pesquisa indicou aumento do consumo de energia, o que nega recessão. Dá para lembrar a metáfora do besouro, cujo vôo não é explicado pela ciência diante das suas próprias dimensões, formato e peso. De repente, o besouro morre e nós o perseguimos como abstração.
AXIOMA
Um bêbado soluçou hic. Ao lado, um latinista ficou surpreso e deu sequência aos pronomes hoc e huic. Onomatopéia também é cultura
GLOSA Desde ontem os táxis estão usando a bandeira 2, a pretexto de fazer o 13º da categoria. Tanto o sindicato dos taxistas como da associação de rádio-táxis divulgam pesquisas com a categoria a favor, é claro, do ajuste. Só não ouvem o usuário. O Brasil é assim: seja governo ou iniciativa das privadas, pois o povo não conta, é apenas detalhe, afinal só deve obediência.
BIZARRICE Deputados batem o pé e o governo se encaramuja. Eles querem a manutenção de um secretário, que Lerner pretendia substituir. Só esse tipo de relação com um Ney Braga, um Canet, um Álvaro Dias ou um Requião seria desde logo suficiente para a dispensa imediata do auxiliar. Neste governo acontece o contrário: o visado vira primeiro-ministro em sistema presidencialista. Até para ser refém há uma dimensão de dignidade a preservar.
EPIGRAMA Aí a baratinha disse para a amiga: Essa naftalina é um barato!
SPRAY Quando se mexe em legislação de cartórios só pode ser para ampliar privilégios. É inimaginável o contrário. - Como se já não bastasse o que se pretende fazer com o quadro de servidores fiscais, submetido não mais a regras orgânicas, uniformes, mas ao anseio transitório dos políticos, dispensando-se a obrigatoriedade dos concursos. É o nosso Legislativo em queda, não dando para comparar os quadros de hoje com o dos anos 40 a 60, e que a cada legislatura mais deteriora. - No cronograma de privatização do BNDES e acertado com o FMI está prevista a privatização da Copel para o segundo semestre de 1999. Já o sistema Cesp mais a hidrelétrica do São Francisco e Eletronorte (Tucuruí) estão programadas para o primeiro semestre. - Amanhã, 15 horas, no encontro da Avenida Anita Garibaldi com Manoel Pedro, no Cabral, instalação da placa da Praça Coronel Elísio da Costa Marques. O homenageado é avô do advogado, ex-juiz e ex-oficial PM Elísio Marques. - Muito interessante o livro Os Fantasmas de Curitiba, uma expedição pela cidadania, de autoria de jovens estudantes do Positivo. Fizeram com temas humanos e cívicos o que o Eduardo Fenianos fez com a parte físico-social de Curitiba como urbenauta. - Dia 4, Casa Andrade Muricy, 19 horas, lançamento dos livros da crítica de arte Maria José Justino Seja marginal, seja herói. Modernidade e pós-modernidade em Hélio Oticica e Estela Sandrini - o sensível devaneio da racionalidade. Uma edição é da Universidade Federal, outra da Kingraf. - Provão do MEC mostrou que o Paraná tem o melhor ensino fundamental do País: em Português, em 95, ficamos em 5º lugar na 8ª série e agora em 1º; em Ciências, ficamos em 1º e em Matemática pulamos do 6º para o 1º. A autonomia da escola pública depende da seriedade do enlace com a comunidade peri-escolar, o que é feito através das APMs (Associações de Pais e Mestres). Em 96, havia 500 APMs legalizadas, hoje há mais de 2 mil.
FOLCLORE Curitiba melhorou muito: há ainda bastante nazismo, horror ao migrante, como o livrinho do Positivo o demonstrou. Mas se voltássemos aos anos 50, sem gravata não se entrava na Rua da Cidadania. Sem chapéu, então, nem pensar.
CROMO O urro do leão do Passeio Público ficou preso nos cristais matinais da memória: hoje nem o sino da igreja é perceptível.
AFORÍSTICO Na Alemanha libertada, Hitler não escaparia do julgamento sumário; Pinochet hoje não está sendo visto com olhos chilenos. E que tal se resolvem responsabilizar o Sarney pelo massacre do Carandiru? As culpas como as rendas públicas são sempre mais federais do que estaduais.





