Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Grampo que não é grampo
Temos o lixo que não é lixo e o grampo que não é grampo. Ontem, na despedida do seu programa na TV Independência, Sílvio Sebastiani reapresentou o lance de uma entrevista, de dois anos atrás, com Aníbal Khury, na qual, respondendo a uma pergunta de Enéas Faria, o guru declarou: O governador Jaime Lerner, na intimidade, me disse em determinada hora: Aníbal, você acha que eu vou vender a maioria das ações da Copel, depois de 25 anos de vida pública? Eu não faria isso nunca. Preferiria morrer!
A história, dizia Ortega y Gasset, somos nós e as circunstâncias. Aníbal, em dia de mobilização bancária, tocada especialmente por Ângelo Vanhoni, no curso da emoção, declarou sob aplausos do plenário e das galerias: Enquanto eu for presidente da Assembléia Legislativa, por aqui não passa a privatização do Banestado.
Mais tarde, fora do frisson e esclarecido até pelo filho Ricardo, diretor do banco, e que sabe quanto se estava pagando por dia no interbancário e já com perda de depositantes, apesar de a maioria ser institucional e cativa porque vinculada ao espaço público, Aníbal percebeu que estava por fora da realidade, como de resto os resmungões que tentavam ideologizar a questão.
A língua é o chicote do traseiro, como diziam as vovós, repetindo um ditado que, como todos os aforismas do Marquês de Maricá, era altamente discutível, posto que axiomático. Na verdade, tudo é mutante, além da Rita Lee: a verdade de agora é a empulhação de amanhã, ainda mais quando há tempero político. Vide a reaproximação de Requião com Quércia, que equivaleria ao abraço entre Álvaro Dias e Onaireves Rolim de Moura.
No momento em que Aníbal fez a confidência (afinal, há referência à intimidade do encontro), dia 14 de abril de 1996, 13 dias depois do Dia da Mentira, a situação era bem diferente do cenário atual: a crise de Estado não se agudizara e muito menos os espaços não se haviam estreitado tanto. Só falta agora a oposição, com o mujique Dr. Rosinha à frente, cobrar o Jaime Lerner que faça, como os professores, uma greve de fome em favor da Copel.
Mas é palavra dita, e isso vai ser usado à larga para constranger aliados e aquecer os debates da próxima semana. Haverá pedido para que se coloque a fita com as palavras de Aníbal Khury em exposição permanente, menos para atingir o deputado, embora aquela referência à intimidade, vale dizer de cocheira, como se diz no jargão dos turfistas, do que para desgastar o governador, afinal mantido na prefeitura da Capital por determinação de Parigot de Souza, seu mestre e artífice maior da empresa elétrica estadual.
A privatização da Copel, a grana do BNDES, tudo isso figura na linha do indispensável como o plasma, o sangue e o soro numa UTI. Nada disso poderá impedir a marcha de tudo até porque a Assembléia que aí está, como a das legislaturas anteriores, jamais negou o amém às situações mais absurdas. Como aquela do tempo de Requião, em que dramaticamente pediu o Fundo de Previdência e em seguida, quando percebeu que o conselho da organização apertou na fiscalização, solicitou o fim da entidade e o Legislativo, como sempre se dá, se curvou aos seus motivos.
Haverá a travessia, o que não impede de considerar esse grampo que não é grampo um ótimo tempero para os exercícios teatrais da política. Não deixa de ser divertido. Muito divertido.
AXIOMA
Tudo o que está acontecendo agora tem uma justificativa: é efeito da vacina contra o sarampo. Há quem o argumente no caso da desclassificação do Coritiba e agora podem fazê-lo também com a privatização da Copel
GLOSA Nosso presidente FHC está cada vez se aproximando mais em estilo do Rafael Greca: sobre o Brasil ele disse que vivemos aqui o mito grego da abertura da bolsa de Pandora, que libera os males, mas mantém em seu interior um estoque apreciável de esperança. Mais duas ou três frases do gênero e, com a crise se agravando, vai lembrar o Rei Sol, Luis XIV.
BIZARRICE Maria da Conceição Tavares, a deputada petista, pelo jeito, é de um estilo antigo de professora. Ao interpelar seu ex-aluno Pedro Malan agrediu-o verbalmente de forma furiosa. Ninguém esquece do vexame da choradeira de emoção ao saudar, antecipadamente, o feito dos ex-alunos que bolaram o Plano Cruzado. A choradeira da mestra e aquele fiscal do Sarney fechando o Supermercado Real do Juvevê não podem ser esquecidos.
SPRAY Curitiba virou nos dois últimos dias um ponto de concentração militar das três forças, mais Polícia Federal e órgãos de segurança e inteligência no Cindacta do Bacacheri. - Área militar cercada, cautelas extremas, discrição - tudo dava margem a muitas especulações, já que havia representantes militares e civis dos três Estados meridionais. - Ontem, por volta das 2 da tarde, o pessoal se deslocou de avião para as suas áreas de origem. Há quem ligue tudo à próxima visita do presidente Fernando Henrique para inaugurar a Renault. - Por falar em multinacionais, as relações dos seus executivos e pessoal da alta hierarquia com a comunidade não têm sido muito boas. Um setor da burguesia está chiando, já que é muito galinha, e o pessoal de fora, com discrição fora dos nossos padrões. - Já estão igualmente acumulando algumas broncas: a demora na execução das obras da Renault se deveu ao fato de empreiteiras, terceirizadas, haverem atrasado o pagamento dos trabalhadores e provocado greves. - Agora a onda é em cima da Audi-Volks, com os acidentes inúmeros que lá ocorreram com trabalhadores. Segundo o advogado Edésio Passos, nada menos de sete já foram vítimas fatais. A escolha de terceirizadas co-responsabiliza também.
FOLCLORE Durante a greve de fome dos professores, muita gente lembrou do repórter Leopoldo Oberst, que costumava realizar matérias de resistência acompanhando faquires como Silk e Urbano pela revista O Cruzeiro, enquanto permaneciam semanas sem se alimentar. Era muito desconfiado e abusado e dado ao sadismo de comer sanduíches enquanto os jejuadores cumpriam seu duro ritual. Imaginem se ele partisse para uma dessas em nosso caso. A propósito, o Jornal do Estado reafirmou que a marmitex chegava lá, embora não tenha como provar se alguém se atracava no rango.
CROMO O assombro na devassa do caleidoscópio faz do menino um astronauta a viajar entre galáxias.
AFORÍSTICO Quem jura a Constituição pode baixar Medidas Provisórias?





