Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Fragilização do trabalho
O trabalho já foi o fundamento básico da economia. Não é mais. Com o digitar de um computador retira-se massa de dinheiro de um país para outro com uma eficiência e velocidade não alcançada por uma linha de produção de operários ultraqualificados e robôs. Essa é a nova ordem que está aí e que não se derruba com queixumes e encenações demagógicas e piegas.
A capitalização intensiva e a financeirização da economia, hoje em escala mundial, dada como um determinismo incontornável (não esquecer que o socialismo real também assim se acreditava), mudou conceitos e valores. O mesmo horror que anarquistas, socialistas e até mesmo liberais revelavam contra as distorções capitalistas aflige humanistas.
Numa conferência-debate que Cristóvão Buarque fez em Curitiba, patrocinada pelo Conselho Regional de Economia, na qual estive como moderador, lembrei do padre Lebret, que operava com o seu movimento humanista no furor da guerra fria e cujas formulações na ordem imperial que temos soaria ingênua.
Vicentinho, com a boa intenção de pregar a retomada do desenvolvimento, ameaça para 99, com um ar de profeta Malaquias, invasões de supermercados, de repartições públicas, numa extensão daquilo que o MST já vem fazendo, e conclui que é difícil fazer greve quando há desemprego. Ninguém perdeu tantos associados da base sindical como os metalúrgicos.
Mas a luta para baixar custos, rever malhas sociais (e as daqui não servem de comparação com a dos países europeus, obviamente), vai se dar mundialmente. E mesmo países com governos de esquerda, de linha social-democrata, se mostrarão impotentes, como já se observa em muitos lugares, em que pese a resistência à base de greves gerais, como se deu na França.
O que está ocorrendo nos portos é um exemplo: não há como evitar a perda de monopólios sindicais que podem até ser protelados, ganhar moratória, mas tudo virá em cima de um objetivo: a baixa de custos operacionais imposta pela competição. Da mesma forma que Nova York registrou a greve maravilhosa contra as tecnologias poupadoras de mão-de-obra nos jornais, o que não evitou a assimilação dos processos de ponta, tal se dará igualmente nos portos.
Num dos últimos encontros que tive com Luis Carlos Prestes (Canal 7), um pouco antes da Queda do Muro, nem parecia que o herói da Coluna estava acompanhando as mudanças, tanto que acreditava na greve geral como solução extrema para os conflitos, o que no mundo fragmentário em que estamos se torna cada vez mais impraticável. Há formas de luta mais abrangentes e efetivas que vão além do imediatismo da instância sindical: a simples estabilização da moeda brecou os conflitos nessa área, alimentados pela inflação, ressaltando, no entanto, outros atores como o arco da cidadania ativa que vai da defesa do consumidor, da ecologia, para todos os fronts de discriminação e exclusão. O MST é um exemplo, ainda que seus métodos nem sempre sejam aceitáveis.
AXIOMA
Segundo Bismark, se o povo soubesse que se fazem as leis da mesma forma que se produzem salsichas, ficaria em náusea permanente. Hoje daria para aduzir que se assemelham às licitações e aos leilões de privatização
GLOSA Uma das reformas do aparato estadual será tratar os laranjas como acerolas, dez vezes mais cítricos.
EPIGRAMA Vendo como esse pessoal das multinacionais olha os nativos, já se entende porque gostam de parecer como montadores. Já para as autoridades, o tratamento é de filho para pai diante das concessões fiscais.
BIZARRICE Fábio Campana fazia o julgamento, ontem, do concurso de presépios e alguém observou: é um dos caras mais entendidos em vaquinha de presépio; seu alvo de observação é a fauna política, especialmente os deputados.
DIÁLOGO Ouvido nas paredes da Assembléia:
- Que bar é esse que todo o mundo está falando?
- Não é bar e sim barganha.
SPRAY O bobo da vez é uma designação que se dá a fornecedores que caem no conto de sereia das grandes redes de hiper e supermercados e aceitam vender os seus produtos a preços baixíssimos para aparecer no cadastro na perpectiva de continuarem operando. - Numa briga interna de sócios do GBOEX funcionou também o grampo na base das acusações recíprocas. - Numa das batalhas, o coronel Péricles da Cunha, crítico da diretoria, teve destacadas as suas observações negativas sobre os militares como ociosos (não fazem nada nos quartéis, se aposentam cedo e não dão retorno nenhum à sociedade; não se vê militares brigando por outra coisa que não sejam salários) em boletins. - Com a saída do Rosinha da Assembléia e o predomínio do pragmatismo no PT, anuncia-se um ciclo de obediência estrita e sem chio. - Idosos estão protestando pesadamente contra a determinação da URBS de que, ao ingressarem nos ônibus, devem fazê-lo pela frente. Toda essa onda contra pula-catraca cheira a aumento de tarifa. Quem assim entendeu foi o presidente da UPE, Joel Benin. - Discussão sobre vacina está ganhando um terreno de risco que pode se refletir nas próximas campanhas de imunização. No passado, a vacina obrigatória transformou Oswaldo Cruz numa cobaia de resistência psicossocial, pior do que a do organismo que sempre haverá de apresentar alguma forma de efeito colateral à imunização. Importante que haja debate e que se revele claramente, o quanto possível, os casos de choque anafilático, predisposição a doenças. Deve-se ter em mente o seguinte: se for criado um clima de paranóia em relação a efeitos secundários, isso deixará resíduos que dificultarão a próxima campanha. - Valquíria Prochmann, jovem estudiosa do Direito, lançou ontem, na UFPR, Poder Executivo e Produção Normativa. A geração nova de juristas cada vez impressiona mais: Clemerson Cleve, mestre da área, é hoje nosso maior constitucionalista.
FOLCLORE Para quem reclama do fato de os jogos do campeonato nacional só terem início depois da novela da Globo, há uma explicação: quando da votação da Constituinte portuguesa, pós revolução dos cravos, também as sessões se davam depois do folhetim eletrônico, por sinal da Vênus Platinada. É o que dizem: pode até não ser verdadeiro, mas é um argumento forte.
CROMO Na Bolsa de Valores, corretores se chocam, excitados, e não enxergam um colibri em alta, adejando no meio da sala.
AFORÍSTICO Quem pede mais: deputado em fim ou em início de mandato? Os dois.





