O Judiciário brasileiro se expressou ontem politicamente através dos seus integrantes, os magistrados que, como cidadãos, fizeram mobilização para que as reformas reclamadas não sacrifiquem nem a liberdade de pessoas e as das instituições e muito menos prerrogativas de poderes.
Já vivemos num estágio que livra o juiz do constrangimento sofrido pelo ministro Nelson Hungria que em 1955 não teve como conceder mandado de segurança ao presidente Carlos Luz, afastado pelos militares (Lot e Dennis), porque os tanques estavam nas ruas ou para elas seguiriam. O purgatório, até agora sofrido pela classe militar, não anima qualquer pronunciamento, mesmo quando a onda das reformas toca em dogmas como o da venda da Vale do Rio Doce, o que seria inimaginável em tempo de ‘‘guerra fria’’ e com a doutrina da ESG, Escola Superior de Guerra, em vigor.
Ela tem um aspecto bom na medida em que opera como fator dissuasório da marcha ascensional do presidente FHC para o despotismo, o que vai muito além das medidas provisórias e que ousa, em múltiplos aspectos, ter menos pudores do que os próprios militares na ditadura, à exceção, é claro, do aparato repressivo, hoje inconcebível.
Aliás dá para imaginar, com a folga reinante na invasão de terras ou em ações como essas dos índios derrubando, depois de queimar-lhes as bases, as linhas de transmissão de energia, como o setor de segurança reagiria. Os milicos enquadrariam os silvícolas, mandariam para o inferno as razões dos antropólogos (eles, aqui no Brasil, são o quádruplo dos índios que temos) e provariam que recebiam dinheiro do exterior para tais manifestações. Os sem- terra, então, seriam dizimados a prestações com seus líderes conduzidos para sessões de ‘‘reengenharia’’ no DOI-CODI, no CENIMAR, nas DOPS, isso sem falar nos núcleos ‘‘patrióticos’’ como o CCC, Comando de Caça aos Comunistas. Afinal só um ‘‘inocente útil’’ desconheceria o fato de que os pagés eram versados em Marx e Engels e tinham até traduções do manual de guerrilhas de Regis Debray na língua das várias nações do gê ao botucudo, do nhambiquara ao yanomâmi, estes aliás geopoliticamente de maior risco porque abarcando Brasil e Venezuela. Como pensar e julgar em tal clima psicossocial, eis a questão.
Espera-se também que a mobilização dos juízes sirva para a autocrítica sem o que terá sido perfeitamente inútil e confirmatória de um envolvente espírito de corpo, o que também não serve aos fundamentos do próprio poder e de toda a carga de valores epistemológicos que comporta.
BIZARRICE - Sobre o encontro de ontem eis o que escreveu o ex-juiz e anarquista militante Elísio Marques sobre o caráter emblemático do local do conclave: ‘‘O pequenino tribunal do júri (onde o síndico é o polêmico juiz João Kopitowski) ao lado do Gigante Adormecido (prédio do novo Fórum de Curitiba), onde vez por outra a SWAT faz exercícios de adestramento.’’
SPRAY - Um teste de seriedade ecológica da prefeitura de Curitiba se dá, neste momento, na frente da casa do governador Jaime Lerner e a alguns metros do próprio IPPUC: uma propriedade com razoável área verde (árvores altas) é alvo de uma construção. Se houver abate indiscriminado vai pegar muito mal. Aliás o morador antigo era eleitor de Lerner e cedia seus muros para propaganda. - Outra edificação, esta da Moro, se dá ao lado da sede da FAEP, antigo IBC, uma das áreas verdes mais densas do Cabral. Já derrubaram um pinheiro secular, mas de uma janela das proximidades, do seu apartamento na praça Suissa, o geólogo João Bigarela tudo observa e já fez, mentalmente, um inventário da fauna e flora do local. - No seminário dos juízes sobre a prestação jurisdicional em Curitiba e Região Metropolitana os magistrados provaram que desejam mais trabalho e que buscam também a eficiência. Propõem, por exemplo, em lugar das comarcas existentes na Grande Curitiba a comarca da Capital e da região com fóruns regionais e elevam todas à entrância final. - Pedem a extinção da férias coletivas de julho, simplificação da tabela de custas etc. Enfim uma série de sugestões, entre as quais a de promover um seminário específico para discutir o procedimento sumaríssimo. - BNDES aponta em média nacional uma produtividade de 181 ligações por empregado, a Sanepar tem a relação 373 por trabalhador e isso se dá em meio a um racionamento de dois anos. - Beatriz Pellizzetti Lolla, mestra em história, lançou no Instituto Histórico o seu último livro ‘‘Memórias de um italiano na revolução de trinta em Santa Catarina’’. Ela desenvolve estudos sobre as utopias dos colonos entre as quais a de Cecília em Palmeira no Paraná, inclusive consultando documentação na Itália.
FOLCLORE - Quando da viagem de Lerner e a mulher, dona Fani, houve um momento de constrangimento ao se encontrarem no aeroporto, hora do vôo, com Requião e dona Maristela. A dificuldade de quebrar o mutismo foi óbvia até que o senador contou que seus filhos estavam gostando tanto de Brasília que lhe pediam para comprar um apartamento na cidade. Lerner, sutilíssimo, dizia apoiar a idéia, mas talvez não tenha percebido que o ‘‘desligamento’’ era menor do que a vaidade, pois poderia significar que mudaria para disputar a presidência.
CROMO - ‘‘Luz, luz’’ - gritou Goethe na hora da morte. Aqui os mortais comuns, quando pedem a luz, desejam normalmente os ‘spotlights’ da Rede Globo.
AFORÍSTICO - O tubarão das operações com títulos estaduais tem tudo para ser algum dos mecenas das recentes campanhas eleitorais. Aliás quando houve, no governo Richa, a denúncia de comissões extras (desnecessárias) suspeitou-se exatamente disso: pagamento de ajuda em campanha.

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