Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
A ociosidade nervosa
Sartre fez uma definição sóbria, mas pessimista sobre a vida: É uma paixão inútil. Às vezes parece ter sentido, outras nem tanto. Albert Camus, também existencialista, mas de outro alinhamento, no mito de Sísifo (subindo a montanha e carregando às costas a rocha) procura mostrar que a obstinação em retomar o mesmo caminho do sopé ao cume visa a explicitar que o homem, no caso, tenta revelar-se superior ao próprio fadário, ao seu destino.
Não existe, nas ações políticas do cotidiano, essa grandeza clássica: percebe-se apenas o predomínio de uma ociosidade nervosa, compensada pela presença na mídia, no exercício do faz-de-conta. O atrito, de uma pobreza de talento sem tamanho, entre o presidente da Assembléia e o da Câmara Municipal, é uma prova de inutilidade agitada e que não leva a lugar algum, a não ser ao horror aos estilos do fazer política no Brasil, já evidenciados na catadupa de votos nulos e brancos e das taxas de abstenção do último pleito.
Um texto de Sêneca, que aliás enuncia o cenário urbano da Roma do seu tempo, descreve a figura dos novidadeiros, muito comuns até hoje na Boca Maldita de Curitiba ou nas pedras do interior, que vivem num ócio agitado e tenso, andam de um lado para outro como formigas, e, quando o dia termina, estão estressados, extenuadíssimos, como se tivessem feito algo de útil e não especulado, aqui e ali, um boato.
Ações - fica bem tratá-las como tal, já que conotam, filológica e semanticamente, movimento? - como essa do debate em torno da eleição no Legislativo Municipal lembram tudo isso: inutilidade operacional e desfrute de narcisismo, como se a rigor comportasse uma discussão jurídica a exigir a presença de Ulpiano, de Kelsen (não confundir com o Kielse) ou de Pontes de Miranda para clareá-la definitivamente.
Da mesma forma a inútil queda de braços entre professores e governo que ficou no ponto, depois de tanto sacrifício (o dos jejuadores e o do público a assimilar a cena), em que havia se iniciado: a área pública não abre mão da pesquisa para ver se os mestres estão dispostos ao dízimo, restabelece o desconto e deixa para depois das férias a retomada das discussões sobre a legislação que trata das carreiras de trabalhadores da educação.
AXIOMA
Só professor pode entrar na APP, mas esta pode invadir a Assembléia, o Palácio e os jornais que a desagradem. O nome disso é fascismo: negar o direito e, por extensão, a existência do outro
GLOSA Não importa// o dia// não importa// a data// faça alguma// coisa// mesmo que alguém// desfaça Poesia do Batista de Pilar que ilustra o tema de abertura. Penélope esperava Ulysses de Ítaca no bordado que fazia e desfazia.
BIZARRICE A Wal Mart inaugura suas unidades, o Sams Club e o hipermercado, dias depois do episódio da salsicha vencida numa de suas instalações em São Paulo. Agora só falta dizer que a imprensa está querendo encher linguiça com um assunto de menor importância. De embutidos chegamos aos embotados.
SPRAY Militares de Curitiba, anti-FHC, sugerem em seu boletim da ASMIR-PR (Associação dos Militares da Reserva Remunerada e Pensionistas das Forças Armadas do Paraná) que tanto Lula, quanto Ciro e mais o MST nada mais fizeram do que legitimar a reeleição e seriam, portanto, laranjas. - No boletim, dez partem para sofismas matemáticos com os quais provam que FHC, ao fazer 35 milhões 936 mil e 916 votos perdeu para 47 milhões 359 mil e 151 votos dos contrários. Somaram 31 milhões 786 mil e 111 dos demais candidatos aos nulos e em branco. Matemágica pura. - O boletim assinala o recebimento de um artigo do capitão Edgar Freygang contra as indenizações da lei Beto Richa a presos políticos. - Revelam que seus candidatos no Paraná foram o Werner Wanderer para federal e o vereador Elias Vidal para estadual. - Que o mundo mudou nem se discute: a filha do presidente FHC tem seus bens bloqueados, seus ministros prestam depoimento na Polícia Federal, Pinochet é mantido preso por ordem da Câmara dos Lordes (e a Espanha de Franco era doce?) e o almirante Massera é preso na Argentina. Ainda que haja uma dose forte de hipocrisia em tudo isso, o balanço é saudável. Fidel que se cuide. Havana é a sua Pasárgada. Fora de Cuba é mais um ditador, menos duro que o Pol Pot. - O governo trapalhão ainda ganha um lugar no livro dos recordes: o Giovani Gionédis determinou que se tirasse da conta de viúvas do IPE o dinheiro que havia sido depositado no Banestado. Isso aconteceu há tempos e deu margem a mil broncas. - Na semana que vem Requião promete uma nova denúncia sobre o Banestado e envolvendo gente intimamente ligada aos esquemas políticos e industriais do poder. Dá impressão de reflexo tardio, pois as maiores e mais quentes revelações vieram justamente depois da derrota eleitoral, já que na campanha parecia mais soft. - Um consórcio do interior veio para atuar na capital e pegou os melhores vendedores, oferecendo-lhes vantagens e um estilo agressivo a que a maioria não estava habituada. Agora, depois de tudo, jogam esses trabalhadores contra a parede, recusando-se a demiti-los e impondo-lhes a saída voluntária. - Não se sabe de qualquer estudo da parte de órgãos como a Associação Comercial e Fiep sobre os impactos decorrentes não apenas da chegada das montadoras como também de megaempresas do tipo Wal Mart, Big, Carrefour e ainda complexos como o da Artplan em desenvolvimento no Parque do Barigui. O balanço do lado bom e do negativo precisa ser feito. - Desde anteontem o Paraná, por seus méritos, está habilitado a gerir integralmente os recursos da área de saúde, por decisão ministerial. Serão R$ 51 milhões por mês.
EPIGRAMA A série de acusações sobre negócios com cadáveres no Instituto Médico Legal nada tem a ver com a indisposição normal das pessoas ao ato de morrer, mas preocupa porque de repente aquilo que era da ficção, Frankestein, transforma-se em realidade-pesadelo.
FOLCLORE Depois do problema ocorrido anteontem, o Jornal do Estado está disposto a adotar a divisa do histórico Barão de Itararé, Aparício Torelly, que de tanto ser visitado pela polícia de Vargas colocou um aviso na porta do jornal A Manha: Entre sem bater.
CROMO Tritura-se silêncio// na moenda do tempo.// Deslizam enigmas// encurtam distâncias// no fechar das mãos// Batista de Pilar em seus poemas de A Nona Cartada.
AFORÍSTICO Lerner estava em Antonina e Aníbal foi se atracar num barreado em Morretes. Aos palacianos soava, paranoicamente, como outra conspiração.





