Luiz Geraldo Mazza
Obstrução parlamentar
Dá para prever o que acontecerá com a tramitação do processo de saneamento do Banestado, tanto na Comissão de Assuntos Econômicos quanto no plenário do Senado: Requião fará aberta obstrução parlamentar no sentido de inflingir ao governo o máximo de desgastes, o que já vem fazendo com a publicação das atas das reuniões da diretoria no Diário Oficial da Câmara Alta. Se tanto Osmar Dias quanto José Eduardo, este por entender a especificidade do problema como nenhum outro e sabendo ainda o quanto a passagem do tempo é terrível para um banco sujeito a dependências do plasma do interbancário, podem alinhar-se na defesa da operação, o senador oposicionista atuará em sentido contrário para marcar, como tatuagem, que Jaime Lerner seria o único e exclusivo responsável pela ‘‘quebra’’ do Paraná.
Requião está dando uma espécie de troco nos seus adversários, já que suas duas últimas eleições, a de governador e a de senador, foram impugnadas no TRE, o que o tornou um ‘‘sub-judice’’. Neste momento, é mais ou menos o que está acontecendo: o senador subestimou suas possibilidades de ganhar o pleito, o que poderia ter acontecido se houvesse melhor aplicação e enfoque dos temas escolhidos, dos quais o dispêndio com propaganda, as irregularidades em medida calamitosa no Banestado (Corretora e especialmente a Leasing) e a questão da segurança, porém luta com muita obstinação na Justiça para marcar o governante como um infrator sistemático da lei.
Há quem diga que o melhor para o Banestado seria a federalização, conforme o modelo do Banespa, para não gerar ônus como os decorrentes da injeção de R$ 4 bi que o conjunto da sociedade deverá pagar a pretexto de sanear o instrumento financeiro estadual. De outro lado, a oposição, através de seu exército Brancaleone, tenta intervir na tramitação da matéria no Senado, já que no Legislativo está habituada a ser atingida pela motoniveladora da maioria do amém, amorosa, como sempre, pelo poder.
A greve de ontem dos portuários, o desespero em salvar corporações públicas, cada vez mais próximas da exaustão, a tentativa de botar um freio, a essa altura impossível, no processo de privatização marcam o momento brasileiro: são os arranques do cão atropelado da ordem antiga, o Estado provedor e albergue, obra do populismo delirante hoje em seus estertores.
Há ainda esperança de que o modelo vitorioso, que aí está, insustentável no plano epistemológico, mas consagrado como verdade revelada, sofra um daqueles choques cíclicos do capitalismo. Se o cosmopolitismo vigorante é um lixo, não será com a velharia do nacionalismo e do estatismo que o contestaremos. É possível, sim, repensar a luta em outros parâmetros.


AXIOMA
Não é de boa ética falar em dietética
quando os professores jejuam



GLOSA Numa quarta-feira o Coxa foi campeão do Brasil e do Torneio do Povo em 85 e 73. Quarta-feira, dia de romaria na igreja do Perpétuo Socorro, ajuda. Mas não teria sido numa quarta-feira o incidente no jogo com o Sport Recife que acabou lançando o time na Segunda Divisão?
BIZARRICE Sadomasoquista era aquele governista que pretendia entrar na sala do sacrifício dos professores em greve de fome comendo um BigMac. Isso é tortura de pós graduado no DOI-CODI, Cenimar etc.
EPIGRAMA O ministro da Saúde está anunciando uma nova onda de vacinação para a faixa etária acima de 60. Se der efeito colateral, como se deu com a última, é melhor iniciá-la entre os ministros e autoridades, cobaias por uma boa causa.
SPRAY A permanência, ao menos por algum tempo, de José Pio Borges à frente do BDNES ainda é uma esperança de o Paraná manter o acerto do empréstimo-ponte de R$ 1,1 bi para acertar a questão do Fundo de Pensão. - Se isso não ocorrer, tudo volta ao ponto de partida, inutilizando o trabalho de meses da equipe coordenada pelo Renato Follador, cujo desempenho chegou a habilitá-lo, por alguns momentos, como possível substituto de Reinhold Stephanes. - Um jornal tentou sugerir que os professores em greve recebem refeição de madrugada, enviada por um deputado, mas não confirmaram se o alimento é consumido. Uma pequena e nada sutil sacanagem. A não ser que o demonstrassem com um mínimo de referências, o que não foi feito. Professores mais radicais foram até a Redação e queriam que o autor, não identificado, vomitasse o escrito. - No episódio da medida extrema do sacrifício prova-se, uma vez mais, uma velha distorção da esquerda e do populismo: querer ganhar as batalhas na base da comoção, do apelo ao melodrama. Se efetivamente se trata de uma questão de justiça, não se entende o recurso à autoflagelação. No Vietnã, os bonzos, ao se incendiarem, só chocaram o mundo nos primeiros dias. Saíram da primeira página dos jornais para os registros internos de curiosidades, e do horror inicial chegou-se ao tédio diante da repetição. - Os professores ganharam uma liminar na Justiça. Deveriam manter-se nessa instância e tentar desautorizar, por um caminho legal e não político, a consulta já deflagrada pelo governo sobre os descontos. - O heroísmo daquele chinês enfrentando o tanque militar, em Pequim, é um retrato na parede que precedeu ao massacre. Nem com este a indignação mundial mudou a realidade e os chins estão lá, com seu comunismo de mentira, bajulados até pelos norte-americanos. - Vai mudar o regime sindical com o fim da unicidade (tese do PT contra os PCs) e, de repente, pode pintar um outro sindicato na base profissional. Se os professores derrotarem o governo na consulta, e tiveram tempo para isso, não haverá risco algum.
FOLCLORE Lerner adora a mídia nacional quando ela aparece por aqui para encher-lhe a bola em cima de discutíveis feitos. Bastou o Vicentinho, da CUT, hoje suplente de senador, interferir em favor dos professores e criar um tema nacional (negativo para o governo) e tudo se resolveu. A indecisão e falta de determinação marcam um estilo. Dentro em pouco um sem-terra chuta a sambiquira de um hierarca do Palácio Iguaçu. E isso dá primeira página. Bem feito. Ponta-pé é tão humilhante quanto o tapa na cara (este pelo som, como alertava Nelson Rodrigues) e nem a morte do agressor a socos preserva o humilhado. Chute no traseiro não dá para esquecer. Vide aquele do Garrincha na Copa do Chile.
CROMO O leite do mamoeiro, da seringueira, da ‘‘coroa de Cristo’’ nem sempre amamenta e às vezes agride como corrosivo.
AFORÍSTICO Grampo derruba ministros no Brasil. No Paraná dá promoção para os eventualmente envolvidos.

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