Relações entre o governo e o magistério estão radicalizadas com os exageros e distorções de lado a lado. Professores tentaram atingir Lerner em cima da eleição com aquela invasão, primária como sempre, da Secretaria da Fazenda com o objetivo claro de criar vítimas, como já acontecera em 1988 com a tentativa de ocupar, nada mais nada menos, o Palácio Iguaçu, neutralizada com as bombas de efeito moral. Pela segunda vez deputados e governo decidiram retaliar com o corte das consignações na folha de pagamento. Agora o governo pretende restabelecê-las, impondo, no entanto, a condição de ouvir toda a categoria para saber se concorda com o desconto. O ritual da greve de fome é corolário dessa pendência e também o fechamento de algumas vias públicas, toleradas, com paciência budista pela autoridade, embora a revolta generalizada do público.
Manifestante de greve - e eu tenho um currículo superior há 20 anos da matéria - tem a mania de achar que o mundo inteiro gira em torno dele. Perto do seu caso, a escuta telefônica da safanagem da privatização das teles é bobagem e a morte dos curdos, que se deixaram imolar no fogo, é detalhe. Daí cercarem de extrema liturgia o jejum voluntário pela causa imediata do restabelecimento dos descontos em folha.
Que é intolerante o governo, não se discute. Mas intolerantes foram também os juízes quando, em sua briga com Requião, decidiram retirar depósitos judiciais do Banestado, transferindo-os para bancos federais. É uma ‘‘ultima ratio’’ à falta de outra opção. Dava para enfrentar a provocação oficial de outra forma? Claro que dava. Com a consulta, porém, mais os baixos salários, é bem possível que boa parte dos associados decida desautorizar o desconto. E isso, de certo modo, apavora a direção sindical, habituada que está com o automatismo do ingresso desses recursos, nunca interrompido porque o governo paga mal, mas não atrasa.
Se a APP-Sindicato fosse efetivamente o que se imagina, aceitaria a provocação e iria à luta com a mesma tenacidade revelada nas greves e, aí sim, desmoralizaria o governo com tapa de luva de pelica. É mais fácil, no entanto, levar alguns ao risco à saúde de alguns jejuadores do que fazer a doutrinação junto às bases, aliás já trabalhadas pelo governo não apenas nas concentrações de Faxinal do Céu como ainda na discussão do Plano de Desenvolvimento de Pessoal. Afinal, seria uma prévia do debate do Plano de Carreira que pretendem em lugar do Pladep, do governo.
Intolerância gera intolerância: os juízes retiraram os depósitos judiciais do Banestado para atingir o Poder Executivo no bolso; o governo faz o mesmo com os professores, cortando-lhes o suprimento de recursos. Professores podem ganhar a parada na Justiça, se não se dispuserem ao teste da consulta. É saída menos dramática. Há ainda a mediação política, com Aníbal Khury, por exemplo, que no passado permitiu a invasão da Assembléia e agora os ampara na greve de fome.


AXIOMA Num jogo Atlético x Londrina, este fez um gol, que o árbitro anulou porque o presidente da FPF, Esperidião Feres, rubro-negro, o exigiu, e à noite todos viram, na Globo, a bola atravessando a linha. Da bola que entra por fora, como essa do Santos, houve um gol num Ferroviário x Coritiba num chute do Renatinho, pai desse outro, o Follador, da Previdência, ponta esquerda do Coxa. Para uns a bola entrou no canto direito, para outros furou a rede pelo lado de fora. E o juiz Manoel Guimarães anulou, embora exista uma foto com ele assinalando a bola ao centro. No falso gol do Santos, alguém avisou o auxiliar que havia visto o lance na TV, o que levou o árbitro ao recuo. O olho humano perde para o eletrônico e, muito mais, para o da paixão.
BIZARRICE Com essa paranóia relativa aos cães de guarda, com as mortes de vítimas, uma anedota voltou à circulação: o carteiro quer entrar numa casa, mas diz temer o cachorro que o olha ameaçador. O homem explica que o bicho é sereno e que recentemente foi castrado. O carteiro replica: ‘‘Eu não temo que ele me faça o que o senhor imagina; tenho medo apenas que ele me morda’’.
SPRAY A defenestração dos irmãos Mendonça de Barros e mais especificamente as de André Lara Resende e Pio Borges, do BNDES, colocam sob risco todo o alentado programa do Fundo de Pensão de servidores estaduais. - Como se sabe, o processo foi cuidadosamente elaborado, em sistemática troca de informações, e ao BNDES caberia o respaldo da operação. - Não era nada satisfatório o clima da assessoria previdenciária do governador e, desalentado, Renato Follador admitia que era preciso começar tudo de novo. - O empréstimo-ponte de R$ 1,2 bi, que lastrearia o surgimento do Fundão, pode ter se volatilizado na tensão desses últimos dias. - O deputado federal Florisvaldo Fier, o Doutor Rosinha, vai ficar por 24 horas em jejum em solidariedade aos professores. Com aquele ar de mujique, de eremita das boas causas, ele dará sua experiência, que conferirá um pouco de mais misticimo. Espera-se que, de combativo, não se transforme em combalido. - O Rubinho Ferreira me liga, revoltado, do Aeroporto Affonso Pena para chiar contra o preço do copinho de mate a R$ 1,30, quando custa (e o depoimento é de hoteleiro de Guaratuba) menos de R$ 0,50. - Começa hoje, às 14 horas, no Centro Integrado dos Empresários e Trabalhadores das Indústrias, o seminário ‘‘25 anos de Pesquisa e Planejamento no Paranᒒ, com a palestra do presidente do IPEA, Fernando Rezende, sobre a experiência brasileira na área. - Amanhã haverá painéis das 8h30 até o fim da tarde. - Um burocrata do primeiro escalão de Lerner afirma, com todas as letras, ter convicção de que os professores, em 90% dos casos, não desejarão sofrer os descontos. - Está aí uma prova de que à APP não restaria outra alternativa se não a de derrotar o governo na pesquisa. - Se o Coxa perder, Mãe Diná está lascada: ela previu a final entre o Corinthians e o Coritiba.
FOLCLORE José Augusto Gomy, jornalista e literato, é apresentado na ladeira da Doutor Muricy, onde funcionava o ‘‘Diário da Tarde’’, a um seu admirador de nome Leitão. Observa que o paletó do novo conhecido está cheio de caspa e não perde a deixa para um exercício de blague, afagando-o amavelmente:
- Eis um Leitão que já vem com farofa.
CROMO E se os espiões de conversa em telefones grampeados ouvissem, em vez das insolências e conspirações de políticos e empresários, o chilreio das cigarras, o canto múltiplo dos passarinhos e o ruído do mar num caramujo?
AFORÍSTICO Se toda a intimidade de político fosse gravada, iria dar exatamente o que deu o ‘‘grampo’’ do BNDES: a cloaca máxima vazaria como vazou.

mockup