Luiz geraldo mazza
LUIZ GERALDO MAZZA
Um caso de ética
Nesses episódios confusos, tanto do grampo no BNDES quanto no rolo das Ilhas Cayman, especialmente neste, o lado mais ético foi o da oposição por não ter explorado o tema, como queriam aliados do governo como o inevitável, mas felizmente derrotado, Paulo Maluf. Até o atrapalhado senador Suplicy, autor daquele pastelão quando brincou de Inspetor Clouseau em Nova York atrás da mulher do economista José Carlos Alves dos Santos, que já estava havia tempos enterrada, também se conduziu dignamente no episódio, não repetindo o deslize intolerável daquela improvisação cômica na CPI do Orçamento.
Os cuidados, que tanto Lula como Brizola adotaram, revelam um escrúpulo nada comum no cenário político, aberto, ainda mais quando as condições emocionais o favorecem, a esse tipo de manobra sórdida. O Brasil tem experiência aguda de processos semelhantes nos casos da carta que incriminava Artur Bernardes e o conflitava com o Exército, e o da Brandi, que atingia João Goulart em suposto conluio com políticos argentinos.
Como dizia o mestre João Mazzarotto nas aulas de latim, Praefero mortem honestam quam vita torpe, a saber, prefiro a morte honesta do que a vida torpe. A oposição perdeu uma eleição, que um fato emocional como esse poderia decidir em seu favor, não aceitando fazer aquilo que fizeram tanto com Lula como com Brizola nos casos das respectivas filhas, Lurian e Neuzinha. O sistema, agora, como nos exemplos de Tancredo-Sarney, Collor e de FHC, principalmente na eleição recente, ganharou exatamente escondendo o que iriam fazer. Não é um consolo para os tempos pragmáticos em que vivemos, ainda mais quando o cinismo afirma que o único pecado em política é o de perder e que o resto vale tudo para alcançar tal objetivo. Essa grosseria não tem nada a ver com Maquiavel, o príncipe florentino que abominaria cafajetisces.
AFORÍSTICO
A batalha em torno da Mesa da Câmara Municipal é uma prova de que não temos o que fazer, nem jornalistas e muito menos políticos.
AXIOMA Releases volta e meia se punem no exagero ou nas mancadas: um de anos passados, da Secretaria de Saúde, contava que tantas pessoas haviam morrido de IRA e grafava, em caixa alta, como nos códigos médicos, a expressão. Mas as pessoas não morriam de ira, um dos pecados capitais, e sim de insuficiência respiratória aguda.
Agora saiu um da Câmara Municipal, sobre a vereadora Julieta Reis, que diz assim: A esbelta, culta e bonita fulana de tal, a interessada na notícia, já abraça as feiras públicas, ambulantes, terceira idade, e agora gordinhas no projeto de liberar a porta de trás dos ônibus a pessoas avantajadas. E mais adiante acrescenta que com isso aumenta o seu curral eleitoral.
Que falta faz o Stanislaw Ponte Preta.
GLOSA Um terrorista de botequim sugeriu que uma rádio pegasse um dos professores em greve de fome e apresentasse o seu boletim médico em evolução para o colapso: tanto de batimento cardíaco, tanto de pressão, respiração etc.
Dava para fazer uma aposta no sentido de que o governador iria para a UTI antes que o jejuador. Direitos autorais da dupla caipira Sade-Masoch.
BIZARRICE Quando da posse na Academia de Letras, decidi fazer o discurso de improviso, o que também aconteceu, em 85, ao agradecer a cidadania honorária. Nesta fiz o seguinte: levei para a tribuna um papel em branco e iniciei o papo falando sobre a página branca do poeta Mallarmé. O deputado Caíto Quintana, que adora verbo, especialmente declamatório, no fim da solenidade me pediu o discurso e um dia me levou ao gabinete para vê-lo em moldura. Nem Woody Alen chegaria a tanto. Para quem perguntasse o que era aquilo responderia: É o discurso do Mazza como cidadão honorário de Curitiba. Isso é tão coerente como encaixotar fumaça e enxugar gelo. Um gozador fino, o deputado.
SPRAY Cidadania ativa: semana que vem Pier Paolo Nota denuncia no Procon o fato de o colégio Dom Bosco ter retido a apostila do seu filho por causa de atraso no pagamento de mensalidades.- Outro caso de ativismo é o de Luis Fernando Fedeger, jornalista, que vai tentar brecar na justiça a venda do Banco del Paraná, braço paraguaio do Banestado.- Mais um: o deputado Rosinha, representado pelo advogado Genésio Natividade, obteve da 4ª Vara da Fazenda Pública a ordem judicial para que Jaime Lerner responda à interpelação e explique, tim-tim por tim-tim, o gasto dos R$ 300 milhões em propaganda.-
Como se vê, aos poucos o povo se mexe: proprietários, em Matinhos, descrentes na solução do engordamento da praia, examinam a hipótese de ação cautelar para prevenir prejuízos.- Alcir Cornelsen, médico, sugere que proprietários de áreas em que a avenida beira-mar, uma idiotice sob o ponto de vista técnico, está sendo comida pelo mar que eles próprios se cotizem e cubram a parte agredida com pedras. Mais vale um band-aid quando não há recursos para uma cirurgia.- O oficialismo protege hoje quatro agências, quando no governo Richa nada menos de nove organizações participavam, inclusive do interior.- Por falar em agências, também elas estão com suas faturas atrasadas. Um setor empresarial da área de comunicação acha que com o agravamento da crise (Banestado não irrigará o mercado em 99, muito menos a Copel e a Sanepar) uma das formas de economizar grana seria suprimir os intermediários. Enfim, a velha arte da prestidigitação: o de transferir pepinos para o próximo.-
EPIGRAMA Dentro em pouco, quem for otimista deverá ser internado em hospício. A não ser que se trate de apresentador da Rede Globo, o que seria excusado.
FOLCLORE E o governador Jaime Lerner viajou de novo, agora com amigos do circuito mais íntimo, para Buenos Aires. Lá fará conferência sobre o Mercosul e a arquitetura. Para o Orlando Carlini, com alguma cota de razão, o que há de visível para o Paraná, quando ao Mercosul tão badalado, são apenas os conjuntos populares de música andina que se apresentam no calçadão. A relação Brasil-Argentina é a prova máxima, já que se trata do segundo maior mercado, de que o Mercosul não é essa sobremesa que alguns empresários imaginam.
CROMO O azinhavre cobre o busto dos heróis na praça. Em muitos deles é o único sinal de ferimento de vida tão sacrificada.





