Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Escuta clandestina
Se no caso do Sivam, Sistema de Vigilância da Amazônia, já ficou demonstrada a vulnerabilidade do governo diante da guerra dos grampos, é de perceber-se que as corporações e os lobbies andam muito por dentro do sistema. Assim, a interpretação da Polícia Federal no sentido de que a gravação é doméstica, melhor seria dizer intestina (de intestinal), ratifica essa impressão de que para um governo, que tem oposição numericamente frágil, ainda que, por vezes, talentosa, o maior ônus está intramuros.
Se alguns se tornam veementes na hora de condenar as gravações, porque sabidamente ilegais, é surpreendente como outros fazem uso do mesmo recurso, como se em suas mãos eles se tornassem depurados. É o caso da Rede Globo, que faz uso dessa técnica para explorar o que lhe interessa, como se deu com Mario Celso Petraglia na questão da CBF. Em momento algum se mostrou aquilo que o acusado reclamava: conhecer o inteiro conteúdo de todas as fitas pela singela razão de que trechos isolados de uma conversa, tal qual se deu agora no BNDES, possam descontextualizar a inteireza de um diálogo, mostrando a árvore como se fosse a floresta.
Curiosamente, e isso nada tem a ver com o papo, a Inepar, do Petraglia e do Atilano Oms, aparece como associada ao consórcio da Telemar, visado naquela conversação e que deu margem à sessão quente de ontem do Senado na sabatina do Mendonça de Barros, que se saiu bem, mas nem por isso satisfez a oposição, que se empenha a fundo para potencializar a ocorrência, sem conseguir, no entanto, número suficiente de parlamentares para uma CPI.
Nos governos há muita gente engajada, como representativa de interesses econômicos, e o de FHC como o de Lerner não fogem à regra. O mal é a sociedade apática, trabalhada ideologicamente pela mídia que esconde o essencial e mostra o supérfluo, e também a carência de instrumentos institucionais para conter abusos. O risco que corremos no processo de concentração capitalista, em dimensões imperiais, é o de não termos como combater cartéis ligados a esquemas de governo e de parlamento. Nos States há agora a disposição de enquadrar Bill Gates por ofensa à legislação antitruste. Aqui nós temos, desde a Constituição de 46, a lei equivalente de Agamenon Magalhães e que resultou na implantação do CADE, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, e que só funciona sob pressão da sociedade organizada ou do ombudsman, ouvidor institucional, o Ministério Público.
O direito à informação, questão básica, é burlado. Se por exemplo ele fosse respeitado, não teríamos paciência em ficar ouvindo essa história de que o Rafael Greca deixou os cofres da prefeitura arrasados. Cássio Taniguchi já havia, com a delicadeza habitual, o demonstrado, sem alarde. Evidente, porém, no pedido de Antecipação de Receita Orçamentária, de R$ 60 milhões no BNDES. Também as façanhas da Leasing e da Corretora Banestado estariam claras e o governador teria dado resposta à pergunta sobre os mais de R$ 300 milhões gastos em propaganda em menos de quatro anos, o que não fez até agora.
Os políticos sempre confiam no infalível: a amnésia da sociedade.
AFORÍSTICO
Misturador de vozes para neutralizar escuta clandestina no governo é inútil porque autoridades e políticos já se valem desse tipo de linguagem. O pior é que se entendem como os surfistas e engraxates, policiais e malandros, que têm os seus códigos próprios.
AXIOMASe a gravação, obviamente autorizada, das reuniões do Banestado chegaram às mãos da oposição, é porque gente do sistema quebrou a custódia. Quem tem aliados como os governos federal e estadual dispensa oposição. Essa é sempre mais frágil até por desconhecer o caminho das pedras.
GLOSAO STF decidiu que não é constitucional limitar em 7% o orçamento do TJ porque isso feriria a regra da autonomia financeira do poder. Com essas e outras questões de ordem jurídica, como a relativa aos direitos adquiridos (vide a imposição de cobrar a previdência de aposentados do serviço público), o processo enfrentará tensões inevitáveis. Para o governo, um desconforto; para a democracia, uma necessidade imperiosa.
BIZARRICEFingir-se de rico, embora deva para todo o mundo, é o estilo típico da Federação Paranaense de Futebol. Mesmo com credores uivando, montou a festa dos 60 anos no Clube Curitibano (Ricardo Teixeira presente) e com distribuição de mimos em ouro. Pois agora desenvolve um simpósio sobre arbitragem, quando deve aos árbitros da praça quase R$ 30 mil relativos aos anos de 95 a 98.
SPRAYA paranóia da aposentadoria, sob regime mais confiável, tal qual se deu com a Universidade com a perda dos melhores quadros, se repete agora com a polícia civil e militar.- Dezenas de delegados e coronéis da PM entraram ontem com seus pedidos de aposentadoria. Vai sobrar vaga, seguindo-se o ajuste das promoções.- Bastou haver a referência a Curitiba, por conta do caso das Ilhas Cayman, para que sobrassem boatos: um deles adiantava que Jamil Degan estaria vindo até a Capital para tomar providências contra boatos. Apesar de acusado de golpe na praça, tem muitos amigos, ligados à área de turismo e dólares. Ontem, em Nova York, foi acareado com o pastor Caio Fábio. Degan não foi reconhecido e provou que nada tinha a ver com a confusão.- Hoje no Bife Sujo, amanhã no Café 24 horas da rua XV, lançamento do último livro de Wilson Rio Apa, agora não mais romance e sim ensaio, intitulado O Homem-Ator (A Vida como Representação e Realização).- Agora teremos aos domingos, 22 horas, na Net, Canal 20, mesa redonda do Valdir Córdova Bicudo. Das segundas às sextas mantém ao meio-dia a Net News Sports, no mesmo canal.-
FOLCLOREUm desses cidadãos prestantes sugeriu ao prefeito de Curitiba que botasse um tapume para esconder dos olhos dos que trafegam pela Avenida das Torres o cenário da favela de Vila Pinto. No Rio, um secretário de Turismo, Saladini, sugeriu que se explorasse aquela arquitetura do caos com pinturas no padrão optical art. No caso de Curitiba, o entendido em vinhos e advinhos, o Luis Groff, respondeu à sugestão que se deveria colocar um espelho enorme na favela para que todos se vissem refletidos.
CROMOO caracol e a lesma//vão andando devagar;// Mesmo que não tenham pressa,// Uma volta eles vão dar. Esses versos são de Patrícia de Assis Nunes (de Munguba), selecionados no Palavrinha Viva do Positivo. Eles detém a graça e a vibração da cantiga de roda.





