Luiz Geraldo Mazza
O que é bom para o Brasil
Volta e meia colocam o País diante de axiomas como o de que o que é bom para os Estados Unidos da América do Norte é bom para o Brasil. Nada mais falsete. E tanto que hoje os ‘‘States’’ se colocam na linha de frente do apoio do FMI ao Brasil por temerem precisamente um efeito cascata diante de uma debacle nossa no campo financeiro. Aquilo que normalmente desprezam, quando chegam a nos confundir com a Bolívia ou sugerem que nossa capital é Buenos Aires é, agora, pelas dimensões continentais que subestimam, um risco diante da hipótese de um crash.
A dependência do Brasil é tão aguda, em descompensação, que nos faltam meios de buscar alternativas fora dos figurinos do FMI. A esquerda burra pensa que gritando ‘‘fora, FMI’’ resolve alguma coisa. No mesmo alinhamento a velharia nacionalóide. Nada disso, porém, significa que não possamos, como tenho dito, ampliar a nossa faixa de manobra e capacidade de barganha.
O Japão, obviamente mais forte, tem uma fórmula diferenciada para atender a sua crise: investe mais de US$ 100 bilhões, reduz impostos e aplica a massa maior desses recursos nas pequenas e médias empresas por uma circunstância elementar e imediata - a de gerarem mais empregos e terem efeitos multiplicadores mais fortes na economia.
Na verdade, a oposição brasileira, incluído aí o tempestuoso Requião, tem dado essa postura dos nipônicos (não dá para comparar os dois tipos de crise) como uma saída, já que ela não tem um compromisso imediato com a direção de um país literalmente quebrado, razão pela qual podem imaginar opções sem qualquer viabilidade em termos concretos.
Estamos nos abrindo demais, desde Collor, sem manter salvaguardas. Há quem aplauda tudo o que está acontecendo, como a desnacionalização da Rede Mercadorama, entendendo que o País não tem como formar poupança interna, suficiente e na escala adequada, para retomar o desenvolvimento. No meu discurso na Academia de Letras mostrei que Lerner deu uma nova dimensão à economia ao transformar as montadoras em carro-chefe de um processo que nos liberta da condição de economia periférica relativamente aos paulistas, mas que persistem riscos sérios de desaparecimento das empresas regionais.
O fato é que não há um modelo único. O direcionamento que os japoneses dão à sua economia não privilegia a fusão e a concentração, a verticalidade, e sim a dispersão e até a atomização, a horizontalidade.

GLOSA
Professores estão em greve de fome, outra vez, o que prova que normalmente têm o que comer. Pior seria se esse tipo de greve fosse um caso típico de redundância


TRAPALHADAS Havia trapalhões em excesso no Palácio Iguaçu. Agora parece que ninguém tira a condição de ‘‘fora de concurso’’ na especialidade, do deputado Marcos Isfer. Primeiro foi o causador de todo o embrulho e da troca de retaliação entre Aníbal e Cássio. Embora o episódio, que ainda gerou uma crise, fosse pedagógico o suficiente para torná-lo mais cauteloso, voltou a aprontar com uma posse festiva no Conselho da URBS de Haroldo Náter no comando da Diretran, o que mais parecia provocação contra o presidente da Assembléia. Cássio Taniguchi agiu rápido e destituiu o empossado e também o administrador regional do Bairro Novo, Oscar Moritz, vinculado a Isfer.
AXIOMA Um improvisado Sherlock curitibano, ao perceber uma série de dados sobre a pessoa que está à frente das falsificações que incriminam o tucanato nas Ilhas Cayman, viu que se tratava de alguém que já esteve ligado à capital no mercado doleiro em agência de turismo. E foi ele quem estabeleceu conexões e mandou os informes para Ricardo Boechat da ‘‘Globo’’. Jamil Degan, o nome do operador apontado, teve que sair às pressas de Curitiba ao dar um tombo enorme na praça e agora vive em Nova York como James Degan. Muitos que fizeram o mesmo estão por aí, impunes e na maior das tranquilidade, alguns despontando até nas colunas sociais.
BIZARRICE O mestre e colega de turma de Direito João Baptista Cobbe me manda uma saudação em latim a propósito do ingresso na Academia (ver ao lado). O latim soa forte para os que curtem os clássicos e também arcaísmos. Paulo Leminski, com suas habituais explosões de entusiasmo, achou que eu dominava a nossa raiz linguística ao declamar, na ordem indireta, os primeiros versos da Eneida de Virgílio. ‘‘Cano arma virum que profugus ab oris Trojae’’. O ritmo é perfeito e foi isso que empolgou Leminski. Com seus exageros habituais, com tudo que o empolgava, afirmou que eu era um latinista. Aí, contendo seus impulsos, expliquei-lhe que eu e o Élio Narezi, maior criminalista do Paraná, que estudávamos juntos, decoramos tudo isso para o vestibular, e era verdade.
EPIGRAMA Dizem que, se for de graça, brasileiro não rejeita fila de vacina. Hoje, antes de ir à fila, pensa um pouco. Como temos hipocondríacos em massa, torna-se uma temeridade dizer no rádio e na televisão quais os sintomas de um estágio inicial de meningite ou cachumbinha. O teste para ver se a nuca está rígida e impede que o queixo atinja o tórax é o suficiente para colocar um desses sensíveis em pânico e apavorar os outros.
SPRAY Jacaré suporta bem o meio ambiente do Parque Barigui. Já não se pode dizer o mesmo em relação aos homens. A dor é o odor, o perfume clássico da insalubridade. - Há quem imagine que a Prefeitura poderá se ver obrigada ao mesmo gesto de Ney Braga quando isolou o Rio Belém do Passeio Público e abasteceu a represa com água de poços artesianos. - Um detalhe: quando o Grupo Trombini botou o sistema de esgoto, no Governo Richa, junto às instalações industriais no Barigui, o monitorador químico me relatou que encontrou vestígios fortes de metais pesados na água poluída, incluindo mercúrio, que atribuía a explorações em busca de ouro em Almirante Tamandaré. - Dessas loucuras nenhuma supera a havida numa das barragens (Segredo), em que se constatou nas vísceras de peixes de fundo (bagre, jundiá) a existência de traços de mercúrio.
FOLCLORE Leopoldo Oberst, repórter de ‘‘O Cruzeiro’’, anos 50, adorava testes de resistência: ficou vários dias em Montevidéu, diante da casa de Obdúlio Varela, o condutor da Seleção campeão de 1950, para conseguir uma entrevista. Fez um acampamento diante da casa do capitão da Celeste e quase criou um problema diplomático. Aqui, no Paraná, tinha a mania de fazer testes de resistência como mergulhador. Falava tanto na vida submarina que a Boca Maldita não o perdoou, apelidando-o de Leopolvo.
CROMO E lá vem com seus passos bailarinos, a minha neta Fernanda, linda e desenvolta, para me ajustar à capa acadêmica: eterna é essa ligação.
AFORÍSTICO A próxima intervenção de Aníbal é no Rotary e no Lions.

mockup