Luiz Geraldo Mazza
Uma das primeiras incursões em jornalismo me levou a trabalhar em concurso de miss: nem todas liam O Pequeno Príncipe e uma das que o fazia, como a Ângela Vasconcelos que chegou a Miss Brasil, lia também A Metamorfose do angustiado Kafka. Uma das coisas incríveis daquele tempo era o fato de que mesmo se a Miss Paraná fosse Miss Brasil os jornais concorrentes, isso é aqueles, aqui na província, que disputavam mercado com os associados, nada noticiavam. Vejam o nível da mesquinharia quando os concursos de Miss mexiam com todo o Brasil como salientou, dias atrás, o Luis Fernando Veríssimo.
Essa idiossincrasia chegava ao absurdo: o Diário do Paraná não podia dar uma nota ou reportagem sobre geadas nos cafezais que os dois jornais de Lupion, a Gazeta do Povo e O Dia, já vinham de tacape na mão como se sugerissem que o jornal, por ser de Assis Chateaubriand, que contestava a cafeicultura da terra, estava torcendo para que aquilo ocorresse. Felizmente isso acabou e a concorrência agora deve ser em outros termos, ainda mais à véspera do terceiro milênio, afloramento da terceira onda, e, convenhamos, que há muito por fazer para melhorar os nossos jornais como produto, ricos na forma, de um modo geral, e nem tanto no contéudo.
Essa conversa toda vem a propósito de eu ter virado notícia na Gazeta do Povo de domingo e anúncio, ontem, nesta Folha, os dois, é claro, com o objetivo da homenagem, a primeira numa teia de afetividade e de amor que só poderia vir de um ser humano como o Francisco Camargo, cujo filho, o Fabiano, é um talento aqui da casa. O mundo jornalístico está mudando e quando a troca é de amor, como no caso do texto em ritmo de realismo fantástico, mas que deixa claro o olhar fraterno de quem escreveu, não cabem razões de mercado.
BIZARRICE - A propósito da autofagia jornalística, que apenas expressa a outra, mais genérica, no caso curitibano, convém lembrar que no tempo das misses, a que me referi, o João Féder, diretor da Tribuna do Paraná, lançou o Miss Cinelândia regionalmente e que foi vencido nacionalmente pela candidata da terra, Vilma Sozzi. Sabem quem ela bateu na final? Adalgisa Colombo, que foi Miss Brasil e quase Miss Universo. Pois bem: Vilma foi candidata a Miss Brasil como Miss Paraná e não teve cobertura dos jornais (Tribuna e O Estado) que a haviam projetado. Da mesma forma, quando foi Miss Cinelândia Vilma não teve a cobertura dos outros jornais se não os patrocinadores.
SPRAY - Ontem a Câmara Municipal funcionou como os olhos e ouvidos da cidade ao questionar duramente o secretário de Segurança. Não é para menos. Trata-se do maior problema de Curitiba. - Vereadores habitualmente não dados à veemência como Borges dos Reis cobraram menos discurso e mais ação. - Uma patrulha de traço metropolitano foi anunciada. Havia até faixa pedindo segurança no bairro da Fazendinha. - Mobilização de magistrados hoje pretende além de reajuste em salários (isso não é enfatizado no caso paranaense) a autonomia do poder. Como praticá-lo se o presidente do legislativo, Aníbal Khury, se recusa a cumprir decisões do STF relativas a servidores da Assembléia e se o TJ também deixa de cumprir decisão que concedeu 62% de reposição aos funcionários do Judiciário? - Além disso há a questão, controversa, do controle externo que o Judiciário não admite e os advogados reclamam como necessidade imperiosa. - No mais até os servidores defendem a autonomia do poder e a decisão do STF em favor de servidores federais provou que ela funciona. Se houver recuo haverá suspeita de que a tese da súmula vinculatória, defendida por Sepúlveda Pertence, não é para valer. - Um seminário recente de avaliação da prestação jurisdicional em Curitiba e Região Metropolitana, feito pela Associação dos Magistrados, sugere criação de mais varas, o que é incompatível com o momento de apertura financeira que estamos vivendo. O governo gasta mais de 75% da sua receita com o funcionalismo e há pouca sobra para novas instalações. Imagine-se como ocupá-las com mais juízes, promotores etc. - A oficialização dos cartórios judiciais, já realidade em Santa Catarina, é também reclamada no documento. - Os sem terra levaram ontem um pontapé nas partes baixas do senador Osmar Dias que os desafiou à elaboração de cadastro de famílias que tenham realmente vocação para a agricultura, pois, segundo o parlamentar, mais de 30% dos assentados pelo governo abandonaram suas propriedades e já estão na fila da vez. - Sobre o assunto, Deny Schwartz, secretário dos Transportes, que fez a regularização de mais de 50 mil títulos no sudoeste, relata que muitos dos beneficiários daquele momento estão hoje em acampamentos. - Vale lembrar aqui também a sugestão lá de Faxinal do Céu para que o governo dê assistência mínima aos faxinais.
AFORÍSTICO - Sobre alcoolismo e abstenção, preocupações dominantes na década de 20 nos States em função da Lei Seca, eis o que escreveu H. L. Mencken: As coisas mais difíceis e úteis do mundo, como extrair dentes ou descascar batatas, ficam melhores quando feitas por pessoas tão sóbrias quanto os condenados às vésperas da execução. Mas as coisas mais gostosas, inúteis e divertidas deveriam ficar a cargo daqueles já devidamente lubrificados. O Pithecanthropus erectus era abstêmio, mas os anjos sempre souberam o que lhes convinha às cinco da tarde.





