Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Nova instância de luta
Nesses tempos de globalização, a dialética precisa operar: na contramão da mundialização e do cosmopolitismo é imperiosa a necessidade de salvar identidades nacionais e regionais, o nosso modo de ser. É uma das múltiplas funções da Academia Paranaense de Letras, em que fui empossado ontem na cadeira 20, antes ocupada por Samuel Guimarães da Costa. Entre eu e Samuel, uma convergência: a de buscar sempre nas intervenções a medida paranaense das coisas numa perspectiva brasileira.
Uma vez Londrina foi nosso laboratório num encontro regional de jornalistas, quando o Samuel, o nosso provocador, desenvolveu um trabalho mexendo com raízes culturais da região, face à predominância paulista, sob o título São Paulo, imperialismo interno do Brasil? Estava em plena guerra fria em moda esse tipo de avaliação em escala internacional e a colocação, mecanicista, tinha o objetivo de avaliar em que medida essa herança, a da 5ª Comarca, nos inibia ou nos lançava para o alargamento do nosso raio de autonomia.
Tínhamos uma bancada dominantemente à esquerda, integrada entre outros por José Augusto Ribeiro, Jairo Régis, Milton Cavalcanti, Edésio Passos. Oradores articulados e identificados, inclusive com os equívocos da fábrica de ideologias do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), o mix do marxismo, sartreanismo e o nacionalismo, suruba que Hobsbaw deploraria. Lembro que Rafael Lamastra, o pai, foi quem se incumbiu de enfrentar essa bateria, na qual eu também entrava com a experiência das assembléias universitárias.
Depois a provocação teria continuidade em Ponta Grossa: tese do Samuel, esta de arder, por seu propósito político e psicossocial um tanto quanto desligado de fundamentos técnicos (a vocação da terra, o latifúndio do solo pobre que exigia áreas imensas para a criação), mais para desafiar instituições e pessoas quando as ligas camponesas se espalhavam pelo Nordeste: Reforma agrária nos Campos Gerais. Dá para imaginar, numa sociedade até hoje com vestígios fortes da formação campeira, o impacto.
A burguesia, que provocávamos, era muito inteligente. Em Londrina, quem nos recebeu, em sua propriedade maravilhosa, hoje transformada em núcleo de preservação, foi o Álvaro Godoy, um raçudo que liderou a Marcha da Produção, detida a meio caminho pelo Exército Nacional. Ele nos ofereceu churrasco e os talheres, com os quais muitos poderiam pensar, em função do clima de agito, que pudéssemos ocupar aquela propriedade, talvez saindo à frente do ato, também demagógico, do Incra, sob Sarney, quando decretaram a desapropriação, para fins de utilidade pública, de todo o município de Londrina. Da alegoria do nosso gesto à irresponsabilidade do segundo não há termo de comparação.
CROMO
Se fiz algum gol e me abraçam, quem me deu o passe foi a sociedade e nela também aqueles de quem, por vezes, divirjo
O CHARME DA BURGUESIA Em Ponta Grossa, nova elegância da burguesia (e que burguês!): Horácio Vargas foi o anfitrião e degustamos carneiros em sua fazenda, em cuja piscina, nós, os supostos carbonários e obreiros, nadamos em água mineral, desfrutando o discreto charme da elite campeira. Tudo o que parecia uma troca de elegância acabou tendo consequências, ainda mais depois da greve dos jornalistas (que propus em assembléia unitária com os gráficos) em 1963, quando deixamos a capital sem jornais por três dias. Samuel estava lá, escrevendo editoriais e comentários do Jornal da Greve, o único que circulou, e que era produzido nas oficinas do Diário Popular, do Abdo Aref Kudri. Um dos patrões valeu-se daquele momento para acusar Samuel e Abdo de comunistas e eu, vejam a ironia, já que me julgava um agitador de primeiro time, como sendo da linha auxiliar. Só faltaram me carimbar como inocente útil. Samuel saiu mais fácil do que eu, Valmor Marcelino, Adherbal Fortes, Milton Cavalcanti, Edésio Passos, Newton Stadler de Souza, Peri de Oliveira, Oscar Volpini, Milton Ivan Heller. É que ele tinha um crédito irremovível para os militares: ganhara o Prêmio Pandiá Calógeras por seu livro A Formação Democrática do Exército Brasileiro. Depois, como chefe da Casa Civil de Paulo Pimentel, ia nos ajudar a todos, que tanto careciam de solidariedade, vetados no mercado e processados na Auditoria de Guerra, isso sem falar nas sanções do Ato Institucional.
UMA EPOPÉIA A saga do Samuel é anterior a tudo isso: liderou uma batalha, com todos os componentes de luta de classes, em favor das cooperativas de ervateiros em conflito com os industriais. Aliás, abro aqui um parênteses: a despeito do rigor dessas classificações circunstanciais, foi um industrial da área, o coronel David Carneiro, pai do historiador, que aparece como pioneiro da previdência social no Brasil ao estabelecer os fundamentos da Companhia Ervateira Americana, em 1909, época de greves diárias e conflitos geridos, como a imprensa dizia, pelos maximalistas, entre os quais poderia estar, por seu arrebatamento, o fundador da cadeira 20, Niepce da Silva, que numa palestra a operários, em 1927, repetiu Proudhon, dizendo que a propriedade é um roubo e a religião, uma hediondez. Esse embrião previdenciário alinhava, entre outras conquistas, a aposentadoria, o salário móvel, a participação nos lucros e a cogestão. Tanto que na greve geral de 1917, que parou tudo, a Companhia foi liberada porque seus trabalhadores recebiam muito mais do que se buscava na reivindicação geral.
Dá para perceber que nos conflitos o processo caminha e a acomodação, que se segue, nunca reproduz o estágio anterior. Na globalização fica difícil preservar os valores nacionais e regionais, tonalidades importantes para que se preserve a identidade, luta do patrono, do fundador e dos ocupantes da cadeira 20 (Albino Silva, Niepce da Silva, Cyro Silva, Francisco Pereira da Silva, Samuel Guimarães da Costa) e à qual modestamente me engajo. Mais um detalhe de identidade: jornalista como eu e o Dr. Francisco, que tomou posse ontem, foram Samuel e Albino Silva, os dois de Paranaguá como é o meu caso. Nesse mosaico paranaense, Paranaguá é única, original, no mundo mutante. A Academia é como o jornal, a rádio, a Boca Maldita: mais uma trincheira.
AXIOMA Até homenagem tem limite: o que fizeram ontem neste jornal foi de sufocar. Só faltou botarem uma foto do Luiz Geraldo Mazza Neto, 4 anos, com o fardão da Academia.
GLOSA A família, os amigos, os colegas montaram uma conspiração: já em 1985 haviam me aprontado uma dessas para comemorar meus 35 anos de jornalismo. A maior compensação é a de que se trata de partilha em solidariedade e amor. Gente do povo me cumprimenta na rua como se homenagem os atingisse.





