Luiz Geraldo Mazza
A vizinhança do poder
A Folha parece ter uma vocação em Curitiba: a de ficar muito próxima do poder. Neste momento, estamos aqui na Rua Mauá, como antes na Augusto Severo, nas costas do Centro Cívico, hoje atrás do Judiciário, como anteriormente quase ao lado do Poder Legislativo. Essa aproximação não nos transforma no Ulysses, amarrado ao mastro do navio, para não ouvir o canto das sereias e sua sedução necessária: até que mantemos os ouvidos atentos ao que ocorre lá que normalmente é bem mais do que sai como informação oficial.
Essa vocação geográfica vem de antes, lá dos anos 70, quando a sucursal ficava no Edifício Arthur Hauer, em cima da Confeitaria Iguaçu. Foi, de certa forma, o meu primeiro emprego, e que rompeu a inércia imposta por ser premiado pelo Ato Institucional, o número 1, que nem a Brahma, obra do Milanez e do seu representante local, Ubaldo Siqueira. Na sequência pintou outro emprego e este no Canal 12, que ficava nas proximidades, para montar o ‘‘Telegol’’ com Carlos Marassi, Almir Júnior e Fátima Freire-Maia.
Por que o Edifício Arthur Hauer era uma insuspeita proximidade com o poder? Simples: no último andar funcionava a empresa de armazéns de café Coffeebraz, cujo dirigente, o deputado Haroldo Leon Perez, viria a ser o governador, e no sétimo andar operava o escritório de arquitetura de Jaime Lerner e Marcos Prado, que viriam a ser o prefeito e o diretor do Detran e que imporiam, com base no IPPUC, um plano de circulação que mexia com a modorra da cidade até por criar o Calçadão, execrado em princípio pelos lojistas que poderiam ter tudo, menos noção de logística.

TÍTULO
No cabeçalho, logo após a marca, vinha a dica ‘‘O Jornal do Paranᒒ, título que chegou a ser patenteado, algo que rendeu disputas administrativas e judiciais e que seria o pontapé inicial da jogada


Na Folha, eu escrevia a coluna Curitiba Especial, e foi nela que saíram os três primeiros artigos de defesa do mobiliário urbano e do plano de circulação. À ausência de peças de doutrina, a Prefeitura utilizou-os como matéria paga na primeira página de todos os jornais da capital. O gerente, Ubaldo, achava aquilo muito bom para prestígio, mas insuficiente: os outros faziam surfe, faturavam, nas nossas ondas.
BOCA MALDITA Éramos, também, próximos de outra forma de poder, alternativo é claro, por estarmos na área territorial da ‘‘Boca Maldita’’, fonte permanente de boato (o Anfrísio Siqueira, presidente da ‘‘instituição’’, costuma dizer que é o embrião da verdade), de informação e forte em contra-informação. Aliás, a Boca soube antes de todos da cassação do Leon Perez e nela circulavam xerox (dizem que a empresa já pensou em citá-la como usuário privilegiado) até de peças de processo da temida CGI (Comissão Geral de Investigação), entregando coisas de políticos, militares e empresários, muitos deles da fauna local.
Há um aspecto missionário no que fazíamos em Curitiba: uma ponte com o Norte, especialmente, num esforço de integração que nem amarras físicas das estradas e das linhas de transmissão de energia, bem como a malha de telecomunicações, conseguia, quebrando o isolamento, as idiossincrasias, os preconceitos eregidos ao longo do tempo entre Paranás tão diversos. Abríamos em gráficas, de página inteira, matérias descortinando o Sul, o Litoral, mexíamos com a história paranaense, e fomos dos primeiros a utilizar os serviços do repórter e pesquisador histórico Cid Destefani, que já trabalhara em Londrina, com as suas fotos recuperadas que se transformaram numa espécie de ‘‘cult’’.
Para mim que já tinha no lombo vinte anos de basquete, a experiência de atuar na Folha foi tão grande quanto a de testemunhar o surgimento de ‘‘O Estado do Paranᒒ como cronista, a revolução que foi o ‘‘Diário do Paranᒒ dos Associados (dá para lembrar que marca a chegada da diagramação moderna da imprensa paranaense tocada por dois egressos do ‘‘La Prensa’’ argentino) e posteriormente a do jornal ‘‘Última Hora’’, um fenômeno de circulação e de populismo aplicado. O sentido visceral, telúrico, de um jornal que rescendia à terra tinha a compensação, além de tudo, de fazer-se em escola com Rosely Abraão, Rosirene Gemael, Jacques Brand, Carlos Drummond, Hélio Teixeira, Zair Schuster, Vera Andrade, Rosemeire Tardivo, a Fifi, uma geração sem vícios e com tudo para que os mais velhos como eu se sentissem rebatizados e renovados. Havia os ‘‘coroas’’ como Hugo Santana, secretário de Redação por longo tempo, e o Milton Ivan Heller.
A REPORTAGEM O pique máximo do jornal era a reportagem em que ninguém o superava. Em cada concurso estadual da especialidade, a Folha levava a maior parte dos prêmios. Nos anos 70, eu e o Ubaldo Siqueira fomos a Londrina para sugerir os fundamentos da edição estadual, algo parecido com essa proposta de agora em pleno florescimento.
Como a equipe da Folha era singela, por muito tempo fiquei com os cadernos especiais, ‘‘malho’’ que não constrange, documentais, e os fazíamos à razão de quase um por mês sem burocracia e com a cautela de dobrar clientelas em bem bolados briefings. Não tínhamos circulação expressiva na capital, mas atuávamos junto a categorias que fazem opinião, razão pela qual obtínhamos apoio para fazer suplementos como o dos 20 anos da Copel ‘‘20 anos-luz’’, o da inauguração da Rodoferroviária, alguns sobre comunicação (história dos meios e sua evolução), Cidade Industrial, as praias, estradas etc.
Feitos excepcionais tivemos na ‘‘Folha Esportiva’’, que saía às segundas, e que dava um baile de cobertura de fotos e textos em qualquer concorrente. Lembro que em 1970, quando o Atlético foi campeão, o Hélio Teixeira comandou o trabalho de ir a Paranaguá em avião fretado pegar as fotos e o relato do jogo com o Seleto e voar para Londrina no fim da tarde e retornar, madrugada do dia seguinte, com a melhor cobertura do feito e uma venda de 8 mil exemplares só na Capital.
ROTINA Assisti algumas crises como a da transferência da equipe, depois de indenizada, para uma terceirizada, que também não pôde segurar o rojão, o que implicou numa redução drástica do quadro, limitado a duas pessoas, numa das quais rescindi contrato para retornar nos anos 90. Novamente reencontro Mari Tortato e depois o Deonilson Roldo no comando da Redação e essa onda que muito me gratifica no convívio, especialmente da geração mais jovem, e que muito me ensina no dia-a-dia.
Essa transfusão de energia nos vacina contra o tédio a que às vezes o profissional se sujeita e a alegria com que fazem a sua rotina está muito distante do tipo ‘‘zangado’’ (a beat generation) e ‘‘angustiados’’ existenciais com quem lidei tanto tempo, bebendo caipirinha no fim da tarde e xingando mais a própria profissão do que os patrões para no dia seguinte tudo recomeçar como um desengonçado Sísifo que sobe o morro carregando a bobina de papel-jornal e ao derrubá-la retorna ao mesmo ritual do sopé ao cume da montanha. Já estamos nos suportanto melhor. Sísifo sifu. Aposentou-se antes de ser apanhado pela reforma previdenciária.

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