Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O poder sindical
Estreitam-se radicalmente os espaços da manifestação sindical e num momento em que ela se torna imperiosa: conjunturalmente, em função da expectativa de um ciclo recessivo, e estruturalmente, em decorrência da globalização e da doutrina do descarte humano no processo produtivo. Tanto é verdade que o mais aguerrido setor é o dos metalúrgicos, tanto o da CUT como o da Força Sindical, e que está propondo acordo para reduzir o preço do carro popular (renúncia de parte dos tributos pelo governo, queda da margem de lucro) para renovar a frota, aquecer o mercado e evitar 50 mil demissões, segundo alegam.
Aqui no Paraná, o front mais audaz é o do professorado público e que deu mostras nesta semana do grau de arregimentação em cima de sua resistência ao Pladep (Plano de Desenvolvimento de Pessoal). O governo está quebrado, todos sabem disso, e os professores, embora tenham uma remuneração baixa, foram, dentre as categorais existentes, a que maiores aumentos acumulou, excluídos, é claro, secretários e os cargos em comissão. Se o Plano de Cargos da APP for adotado, o custo será três vezes maior do que está previsto no Pladep para o combalido tesouro estadual.
Há, ainda, a considerar o clima de retaliação entre professores e governo, com exageros de lado a lado como o do corte dos descontos na folha (o que é lesão a dispositivos de lei) feito pela Secretaria, a pedido de deputados, e a invasão da pasta da Fazenda para um exercício de pressão em cima do pleito com o interesse manifesto de desgastar o poder no andamento da campanha eleitoral.
O governo isolou o sindicato das negociações e chegou com capilaridade à base do sistema, concentrando milhares de gestores em Faxinal do Céu para discutir todos os detalhes do Pladep e nos núcleos escolares fazendo o debate na base. Quer dizer: saiu na frente, sem dar bola para o mediador sindical, e agora assume os ônus da operação e com a má vontade, indignada e próxima da fúria, dos militantes do outro lado que não brincam em serviço, no caso fora dele, seja nas assembléias ou nas pouco proveitosas greves.
Como se não bastasse, os bancários pretendem uma greve nacional dia 18, e pela assembléia havida na Capital, com apenas 60 participantes, dá para ter idéia das dificuldades em implementá-la, já que a Fenaban não pretende dar nada e ainda suprimir conquistas, congelando o anuênio e derrubando a jornada de seis horas. Isso se dá num momento de automação acelerada, de descarte generalizado de trabalhadores e na expectativa da consolidação da moeda de plástico, cartão magnético. Visível em tudo isso aí que os professores estão melhor situados do que categorias de vanguarda, como metalúrgicos e bancários, o que não significa que ganharão a parada. É a precarização do trabalho em marcha, que no passado deu origem à Internacional Socialista. No cenário mundializado de hoje, quem está com tudo é o capital. A esperança do trabalho está mais na crise cíclica do capitalismo, na hipótese da reprodução do crash de 29, do que nos efeitos positivos de qualquer arregimentação, por mais bem bolada que seja.
O poder sindical vai para a luta fragilizado e ainda por cima com a patologia da burocratização excessiva. Quebra da unicidade sindical pode ajudá-lo.
AXIOMA
Há quem tema a robótica na condição de fator adicional do desemprego. Pior do que ela, no entanto, e está à vista de todos, é a roubótica, a saber, a ótica do roubo
GLOSA Uma questão de lógica: se a Igreja Católica, pela voz de João Paulo II, pede desculpas à humanidade pelas atrocidades da Inquisição, não está derrubando o dogma da infalibilidade papal? Silogismo irretocável.
BIZARRICE Aí, no meio do papo em que se falava em grampo no BNDES, no Banestado, o travesti veio com tudo: Pelo jeito, todo mundo resolveu soltar a franga ao mesmo tempo. É grampo demais para tanta cabeça aureolada.
SPRAY Atas indiscretas do Banestado agora não saem apenas no Diário Oficial do Senado, pois a imprensa, a alternativa especialmente, está a fazer a reprodução parcial dos diálogos. Como a linguagem é livre e coloquial, dá a impressão que se trata de uma sessão de psicanálise do governo a caminho da catarse e da depuração. - Essas publicações e mais o embate político, que se travará em cima de quem quebrou o banco (inevitável, como se percebe), trarão dificuldades para o processo de saneamento e privatização. - A oposição está aquecida e com um vigor que não mostrou sequer na campanha eleitoral, especialmente Requião, que parece não ter acreditado que poderia ganhar. Tanto que se engajou no auê dos professores, o que mostrou que estes estão se lixando para qualquer acusação de uso da categoria como massa de manobra. - Parece que a origem do atrito mais recente entre Aníbal Khury e Cássio Taniguchi (o outro das multas anistiadas já está absorvido), em torno da eleição na Câmara Municipal, surgiu da precipitação de um parlamentar inexperiente que foi hipotecar apoio ao Buda, mas começou a fazer sugestões sobre os demais cargos da Mesa. Bastou isso para que houvesse a intriga de que Cássio (o deputado em apreço é da sua faixa) estaria se intrometendo no Legislativo estadual. Daí à potencialização, pela intriga e especulação, foi um pulo. Resultado: os dois saem desgastados quando nenhum deles tinha interesse em invadir a área do outro. - Fernando Gomes é um dos nomes listados para a Secretaria do Esporte. - Mas dirigentes federacionistas amadores teriam feito a indicação, em reunião com Aníbal Khury, de um nome ligado ao sistema e à continuidade das ações de Osvaldo Santos. A decisão foi tomada em reunião da Afedap (Associação das Federações Desportivas Amadoras do Paraná). - Professores sabem que os deputados são autores, pela segunda vez, do corte das consignações em folha para a APP-Sindicato. Deveriam fazer disso o primeiro ponto de batalha, até por ser o mais fácil, já que estiveram com os parlamentares. O corte é ilegal, além de deselegante e inócuo como medida retaliadora, mesmo quando os mestres extrapolam e fazem política de traço eleitoral. Como ajudaram Lerner, acham que podem atrapalhá-lo porque se sentem com forte sentimento de culpa em relação a Álvaro Dias.
FOLCLORE Numa reunião do PMDB com Pedro Parente, secretário do Ministério da Fazenda, que fazia exposição sobre o ajuste fiscal, o senador Requião leu trechos das atas do Banestado que vem publicando no diário da Câmara Alta para mostrar como o Paraná se alinhava no processo, o que provocou risadas. A marcação cerrada do Requião em cima de Lerner já deu origem a uma gozação na Boca Maldita: ele seria um Cândido Gomes Chagas, da Paraná em Páginas, multiplicado por mil.





