Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Pacote de intenções
Nada mais imobilista até aqui, ao menos para efeitos internos, do que a atual gestão estadual. Começou criando para apaniguados quase 700 cargos em comissão como ajuste de campanha eleitoral, abandonou o Banestado ao corsarismo dos aventureiros da Leasing e da Corretora, iniciou o desmanche da Copel e da Sanepar para obter recursos e tapar os buracos de uma administração sem visão de uma coisa elementar: a de que o problema está na gerência da despesa e não da receita, sabidamente inelástica. E enquanto anuncia sacrifícios gerais, põe no disparo uma das maiores safadezas de que se tem notícia na história recente do Paraná: um trem-da-alegria para a tchurma mais próxima no Tribunal de Contas com a criação, iníqua e inócua, de conselheiros substitutos.
Percebe-se no grupo que está no poder uma incompatibilidade visceral com qualquer medida de economia. Sua vocação é o oba-oba, mais as arrumações das tais terceirizações, que curiosamente são exclusivas do grupo fechado, que se instalou no poder e se prepara com diligência para outras sacadas como a da vistoria eletrônica de veículos. Outra coisa que encarece demasiado o custo da administração pública é a mediação, como se dá no caso das agências de propaganda que servem de drenagem para o pagamento de serviços, os da área jornalística e política, e sobre os quais faturam mais 20%. Licitações têm sido insuficientes, hoje e sempre, para botar um mínimo de racionalidade e, acima de tudo, de transparência nessas relações. Parentes do governador estão entre os notórios beneficiários da área.
Não há cientista atuarial que ponha ordem nesse caos quando não procura limpar essas relações de suas formas parasitárias. Um Miguel Salomão, neste governo, com a sua seriedade doutrinal, parece um jejuador pregando num grupo de glutões. Não apenas ele, já que há outras pessoas bem postadas e cientes dos limites na gastança. Houve o cuidado de removê-lo da Fazenda, onde era a bateria dialética dentro do sistema, com suas lições de rigidez, até porque estivera no olho do furação do combate à sonegação no Clube dos Sessenta do ICMS (que flagrou com a mão no pote aliados de primeira hora do governador) e também nas artimanhas dos títulos estaduais e da Leasing.
Lerner criou secretarias desnecessárias para acomodar interesses partidários e que se fossem extintas em nada afetariam o desempenho do conjunto, a não ser na economia proporcionada. Enquanto Covas em São Paulo pegou a parada do Banespa e cortou 140 mil funcionários, Lerner fez da hesitação um estilo e que se repete no pacote de intenções e de promessas ontem apresentado. Como não temos oposição, digna desse nome, a sociedade dança conforme o batuque dessa orquestra desastrada, mas que não abre mão da pose majestática.
AXIOMA
Nota dissonante no encontro da ADVB quando o dirigente da Renault, ao falar sobre as ações da empresa no Mercosul, sugeriu que o Paraguai era um mercado alternativo, de automóveis roubados. Quando os franceses se ligam muito no know how, deixam de lado o savoir faire?
GLOSA Incrível como o Delfim Neto, Roberto Campos, Reis Veloso, Langoni fazem observações críticas sobre a atualidade brasileira como se nada tivessem a ver com ela. Só está faltando o Shigeaki Ueki retornar e dar um testemunho crítico sobre a conjuntura na área energética.
BIZARRICE Somos os campeões da hipocrisia: olhamos, estarrecidos, o caso da agiotagem em Guaraniaçu, como se essa atividade não fosse rotineira na Capital e nas cidades de porte médio. Aqui há ainda a agiotagem facilitada pelo poder estadual, quando permite o desconto em folha de pagamento dos servidores que ganham pouco e acabam com um mínimo por causa das consignações. Fantasticus dixit, verum est.
SPRAY Há 1.800 cargos em comissão no Paraná, mais de um terço deles criados no atual governo e todos, obviamente, providos por Lerner. - Quantos casos existem de acumulação irregular de cargos e qual seria a cota ocupada por inativos que voltaram ao serviço público? - Aumento da previsão de R$ 20 milhões anuais nas receitas tributárias está baseada em quê? É um chute a mais quando se prevê justamente mais recessão e consequentemente mais evasão de renda e sonegação. - Se os mais de R$ 10 milhões mensais em propaganda forem reduzidos a um terço, com o que dá recursos de sobra para a área com mínimo de critério e rejeição aos protecionismos (rádio, jornal e tv sem audiência não podem, por exemplo, patrocinar, o que é inútil, noticiosos do Banestado) teremos aí economia de R$ 7 milhões, R$ 3 milhões a mais do que a meta oficial no programa geral. Como pode o peixe vivo viver fora da bacia e Narciso perder na mídia sua fatia? - Outra incongruência é a de pretender apertar os devedores de tributos que virão com aquela chantagem de sempre (dá para lembrar do Atalla ameaçando demitir dezenas de milhares de empregados se tiver que pagar contas públicas) a de que se pagarem o que devem fecham as portas. - Dentre os maiores devedores de tributos estaduais aparecem faroleiros do society, que andam com lanchas voadoras na praia e com olhos brilhando esperando um flagrante na Caras, e normalmente aparecem como contribuintes de campanhas eleitorais, tal qual se dava com alguns dos sonegadores apanhados no Clube dos Sessenta. - Um dos bancos internacionais está negando aval a uma das empreiteiras que tocam vias pedagiadas, aqui no Paraná, e isso vai dar um senhor rolo. - O conselho de um secretário de Estado para que as parcelas do FGTS e do INSS fossem mantidas em atraso não pegou bem na área federal, que queria até prisão para os sonegadores e os que se apropriassem indevidamente dos tributos.
FOLCLORE Quando Curitiba fez os 300 anos, Rafael Greca assumiu o comando da festa, como se ela fosse uma extensão da megaquermesse de São Francisco. Agora está obcecado com a idéia de que será o governador no sesquicentenário da emancipação do Paraná, em 2003. Nós merecemos.
CROMO Lá fora, volta e meia o canto dos sabiás; na redação, ao meu lado, Anna Camanducaia investiga por que os ipês permanecem floridos quando as árvores já deveriam ter perdido seu ornamento dourado. O canto passarinho é para a repórter que passarinha entre botânicos e fica, esta ambiciosa, com toda a carga de poesia nos seus olhos e na alegria de sua rotina.
AFORÍSTICO Aníbal Khury ameaça com duas coisas: a Caixa estadual e o Tribunal de Contas Municipais. É mais uma contribuição à austeridade. Quando não há nenhuma autoridade sobra esse tipo de austeridade.





