Luiz Geraldo Mazza
Amanhã, pela manhã, o governador Jaime Lerner, depois de tanto enrolar, desembrulha o famoso pacote que trata do ajuste do Paraná ao clima imposto pela decisão de cima, da União, capataz do FMI, ao desarranjo fiscal. Fica muito bem essa expressão porque já se disse que o Brasil passará por um processo purgativo.
No tempo de criança era comum, em todas as famílias, o hábito de tomar, de dois em dois meses, um purgante, naquele tempo o temido óleo de rícino. Que pelos efeitos que provocava na gente prenunciava a sua plena utilização no futuro para foguetes espaciais. Uma das amplas utilizações do óleo de mamona, antes de aparecer o conjunto dos Mamonas Assassinas, que certamente lembravam o uso das bagas com estilingue para briga de gangues juvenis, que precederam esse mundo pop. O efeito do óleo na serpentina intestinal dava a impressão de que o paciente voaria para o espaço, tal a quantidade de energia que disparava em direção ao urinol.
Da mesma forma que Newton desenvolveu a teoria da gravidade ao receber a maçã na cabeça caída da árvore sob a qual dormia e que Arquimedes descobriu a base científica do deslocamento da massa líquida de um corpo que cai sobre água (o que não lhe valeu o debochado apelido de tirar água da bacia), Júlio Verne poderia também prever o foguete a partir do purgante.
O fato é que aos poucos todos os níveis de governo deverão ajustar-se a esse alinhamento, imposto pelas circunstâncias e sobretudo pelas forças externas. Desconfia-se, desde o chio do ministro Serra à bronca dos prefeitos espoliados como sempre, que teremos mais uma sessão de faz de conta, a pior parte ficando a cargo da massa ignara, a patuléia, via tributos.
E o Lerner poderá simplesmente revogando as coisas que fez no início do seu governo, ainda não terminado, embora dê a impressão de que está entrando no terceiro e obterá uma brutal economia: um corte radical nos R$ 100 milhões por ano em propaganda (dava quase, por duodécimo, dez milhas por mês), a redução drástica das secretarias formais e inúteis para mero ajuste da sua tchurma e alguns aliados, o corte das mais de quinhentas funções comissionadas que criou e teria bem mais do que os R$ 10 milhões mensais de economia objetivados.
É claro que seria preciso fazer a alquimia dos aposentados com a criação do Fundo de Pensão dos servidores estaduais para reduzir também a menos de 60% o dispêndio com pessoal, o que lhe asseguraria a aprovação da Lei Camata. Vão usar ativos como recursos da Copel para esse fim e a oposição, minoritária, vai chiar, como está fazendo relativamente ao Banestado com Requião mostrando, uma vez por semana, uma ata do conglomerado no Diário do Senado, até que o meirinho o proíba por ordem judicial. Como se vê, purgante para todos os lados. Se lançado no ventilador, ninguém escapa.
AXIOMA
Diante da força predominante da União, mais uma vez, já que a federação no País sempre foi uma ficção, realçada no pacote do ajuste, convém lembrar aquele poema caricatural de Carlos Drummond de Andrade: Enquanto o poeta municipal discute com o poeta estadual, o poeta federal tira ouro do nariz. E, diga-se apropriadamente, do nosso lombo.
GLOSA Da mesma forma que a farsa que se pretendeu armar no assassinato pela polícia no caso do estudante Zanella está desmascarada e aprofundada no andamento do júri popular, tudo o que pretendem esconder, quanto à culpa deste governo, na quebra do Banestado vai aflorar. Tal qual acontece no esgoto, quanto aos resíduos que flutuam.
BIZARRICE Carlos Alberto Pessôa, Luis Roberto Soares e Carlos Nasser (o sarro em cima dele é dizer que é pé frio e sua presença na campanha de Maluf o comprova) estão em Portugal a bater papo no saguão de um hotel. O gerente os observa animado e, de repente, não contendo a vontade de expressar-se, faz a afirmação aturdida e com o tradicional sotaque: Que raios de idioma estranho é esse que estou entendendo quase tudo o que vocês estão falando?
EPIGRAMA Nesse tempo é comum observar que o negativismo virou marketing. Um release dos madeireiros aqui na redação dizia que o colapso da produção madeireira se dará em 2010 e assim por diante. Uma olhada na primeira página de um jornal, noticiários de rádio e televisão são o suficiente para mostrar que valorizamos a crise e subestimamos a esperança. Apesar de um Lair Ribeiro no Brasil.
Um radical dos nossos tempos diria quem for otimista ou é mal intencionado ou, pior do que isso, mal informado. Esta é à altura do Orlando Carlini, que costuma dizer que Curitiba é tão acanhada que nem inimizade aqui prospera.
SPRAY O depoimento do mestre paranaense, autoridade mundial em filosofia da matemática, Newton Carneiro Affonso da Costa, no programa da Fundação Inepar, é um dos maiores acontecimentos científicos dos últimos tempos.- Surpreendeu o domínio amplo que detém sobre as perspectivas da inteligência artificial acoplada ao domínio da física quântica que permitiriam a construção de robôs de uma eficiência inimaginável.- Tenho insistido - e volto a fazê-lo - que é um crime como os governos paranaenses ensimesmados na vaidade e no culto à personalidade, narcisismo puro, não perceberem que deveríamos montar cadastro da nossa massa cinzenta, existente no Paraná, no Brasil e no exterior.- Vou lembrar alguns para não ficar nma citação do curitibano Cesar Lattes: Fausto Castilho, do norte pioneiro, cientista político, mestre em filosofia da USP e Unicamp; coronel Cavagnari, parnanguara, da Unicamp, uma das maiores se não a maior autoridade do País em logística e geopolítica e que foi quem se antecipou, com visão prospectiva, dentro da Escola Superior de Guerra, no esgotamento da doutrina de segurança nacional diante do final da guerra fria.- Dá para citar dezenas, como Nelson Maculan Filho, que foi reitor da UERJ, Ubiratan Borges de Macedo, filósofo escolástico, etc.- Quando Lerner chamou Fausto Castilho para a Universidade (virtual) das Américas, poderia ter iniciado um processo dinâmico de intercâmbio na direção reclamada.-
FOLCLORE Diferença entre Lerner e Covas é grande: este deixou o Banespa cair em mãos federais, mas salvou as finanças estaduais; aquele fez com o Banestado o que se faz com uma lesma quando se lhe atira sal e vende o controle da maior estatal (Copel) para resolver o caixa com aposentados do serviço público .
CROMO O nascer do sol era forte, mas lembrava merchandising da Coca Cola.
AFORÍSTICO Se sair o trem da alegria do Tribunal de Contas no meio da recessão, valeria um cartão vermelho para o governo. Amarelos ele os tem em quantidade.





