Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Método na loucura
Nelson Rodrigues se repetia, em suas frases bem cunhadas, e volta e meia, à moda de Brecht, ironizava essa aparente amnésia, a que estamos todos sujeitos (notadamente nós, pós-sexagnários). Já usei mil vezes, por exemplo, um saque de Shakespeare em Hamlet quando o príncipe, interpretado no cinema por Lawrence Olivier, faz referência aos seus próprios solilóquios, seus encontros com fantasmas, e como se distanciasse do seu envolvimento sugere que havia método demais na loucura. O que um considera loucura pode ser audácia e até manobra de inteligência na perspectiva de outro.
O governo está abandonando o Banestado, que, como uma bruxa maldita, queima na fogueira do interbancário com injeções diárias apropriadas a pacientes da UTI. São tantas as tolices cometidas, mesmo depois de declarada a intenção de sanear (não sacanear, como se certa forma ocorre) o banco que dá a impressão nítida de que se procura a pior das saídas, sob o ponto de vista da imagem e da história do estabelecimento, que é a intervenção, pura e simples, do Banco Central. Politicamente seria um ônus, mas tecnicamente, uma comodidade. Tal como se deu com o Banerj e o Banespa, com o que se chegaria a um processo forçado de federalização, transferindo-se ao interventor o papel pesado de executar inadimplentes (a maioria de aliados, muitos deputados e também um razoável contingente de bravos oposicionistas, dentre eles dois dos maiores inimigos da privatização) e especialmente de botar gente na rua, dividindo-se o sacrifício político com a tecnoburocracia federal.
Volta e meia, no bom propósito de procurar uma saída ética, faço a caricatura da turma do governo com os trapalhões, uma espécie de alertamento pedagógico. E como se insiste na mesma linha, passo a desconfiar que o pateta sou eu, que não enxergo a jogada de gênio com o sistema alcançando o que deseja por uma via amarga para nós, mas uma ambrosia para eles.
CROMO
O marqueteiro fanático olha para o céu e substitui estrelas e constelações por logomarcas universais.
AXIOMA Com que moral que o governo estadual pode esperar recursos da União se um dos seus secretários pede ao Porto de Paranaguá, por economia, que não pague os parcelamentos do INSS e os repasses do FGTS? Não esquecer também que o governo federal pretende até a pena de prisão para os que se locupletam com esses fundos sociais. O ato, antes de tudo, é de contestação aberta ao pacote.
GLOSA Formandos da primeira turma de Direito da Universidade Tuiuti não podem exercer a profissão porque o diploma não é reconhecido. Mesmo os que passaram no exame da OAB ou em concursos (a inscrição foi provisória, já que só em 30 de julho é que a Tuiuti pediu o reconhecimento) estão pendurados. O reitor e dono do complexo educacional, coronel Sidnei Lima Santos, que conhece os meandros da Educação (Conselho Federal, que intergrou) precisa agir rápido. Sugiro que se toque, diariamente, na frente da escola, a composição do Martinho da Vila, aquela do canudo de papel. No caso, os formandos entraram pelo cano com canudo e tudo o mais. Agora os acadêmicos das turmas atuais estão pressionando.
BIZARRICE Alguns economistas internacionais não acreditam que o Brasil se enquadre na rigidez do plano de ajuste. E o estado hoje dá um exemplo: Lerner, em cujas mãos o Paraná quebrou, está aprontando um trem da alegria para premiar os aspones do peito como conselheiros substitutos no Tribunal de Contas e hoje uma caravana de 40 prefeitos e secretários estaduais e municipais vai para uma visita de 11 dias à Espanha, França e Itália a pretexto de conhecer experiências de gestão pública. O Brasil é que ensina ao exterior as suas técnicas de dissipação patrimonial e de prodigalidade.
SPRAY O Paraná tem oportunidade mil vezes mais importante do que os Jogos Mundiais da Natureza, ano que vem, em Curitiba, para projetar o nosso turismo com o 27º Congresso de Agências de Viagens.- Todavia, a amostra, dada por nossa representação no congresso deste ano em Recife, foi um vexame: tentaram reproduzir no jantar a comida de Santa Felicidade, algo como trocar o frevo pela tarantela, na despedida e tivemos um desastre.- Quase 10 mil delegados estiveram na ABAV98 e só faltou distribuir malas da Ika, que não mais existe, para deixar o turista amanhã embasbacado. No caso da comida, ao menos, a do bairro-colônia é melhor do que a amostra apresentada ao Brasil.- Turismo no Paraná é piada: manipuladores estatísticos chegam ao cúmulo de dizer que a estada média em Curitiba é de três dias. Urge seguro de vida, pois no segundo dia, o cara morreu de tédio, ainda mais se tiver conhecido o Nordeste ou mesmo Santa Catarina ao nosso lado.- Se em PIB per capita e IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que decorre da média de fatores econômicos cruzados aos sociais, perdemos de SC e RS, em turismo a lavada é maior ainda.- Nosso empresariado da área é destituído de visão, isoladas as exceções. O governo é um enganador tanto no esporte (como se viu na série de textos sobre quem financia os centros de excelência) como no turismo. Foz do Iguaçu está quebrada, com hotéis fechados e os que operam com uma taxa de ocupação de 30% no máximo.- O governo e o empresariado assumiram a responsabilidade de fazer o congresso da ABAV. Que o façam com um mínimo de seriedade, ainda que seja aconselhável menos oficialismo nessas coisas.- Aramis Milarch, se vivo estivesse, estaria cheio de orgulho com seu filho, Francisco, um cobra em hipermídia, recentemente laureado na Inglaterra como 1º lugar de sua turma em Westminster.- Cassio Taniguchi, prefeito de Curitiba e presidente da Assomec, a que congrega prefeitos metropolitanos, preocupado com o processo de agressão do vale do rio Passaúna (depósitos de lixo, recompondo o anterior da Lamenha Pequena, loteamentos irregulares, enfim ocupação desordenada) e promete agir.-
FOLCLORE O ator Agildo Ribeiro contava em Curitiba que num dia, em Portugal, foi pedir um chope num bar e o empregado, espantado, não sabia o significado da solicitação. Agildo apontou para a bebida e o garçom esclareceu com o sotaque: O senhor quer pressão. Dois meses depois e em função do linguajar carioca nas novelas da Globo, que são um sucesso naquele país, foi ao mesmo buteco e viu como as coisas mudaram.
-Me dá a pressão.
-Que pressão?
Como apontou para o chope, o garçon clareou: Já entendi. O senhor quer chope. Que bom se no Brasil a pressão que um grupo faz sobre o outro e o governo sobre todos fosse chope. Viveríamos de porre.
AFORÍSTICO Se o estado quebra e o governador sai bem, repete-se afinal o que se dá na iniciativa privada. Há vários do governo que o comprovam.





