Luiz Geraldo Mazza
Porto inseguro
A greve dos arrumadores em Paranaguá é mostra da falta de determinação do governo, sua incapacidade de enfrentar tensões, como se vê no caso das invasões de terras em que a sua passividade tem sido o adubo da audácia. Já ao tempo da campanha eleitoral, para não ser contaminado pela ‘‘arrumação’’ dos arrumadores em relação à concessionárias dos contêineres, o governo empurrou o problema com a barriga, perdeu cargas e respeito por sua inação, acreditando que os fatos se acomodam e chegam espontaneamente a um ponto de metabolização. Enquanto isso, que se dane o porto e que se percam as cargas. Infelizmente não há como agendar uma viagem agora para o exterior, pois aí o tema ficaria para as calendas.
Se Santos, Itajaí, Rio de Janeiro, por exemplo, assimilaram tecnologias novas, contando com bases sindicais resistentes, tão ou mais fortes do que as de Paranaguá, e conseguiram manter tarifas menores, o que nos torna assim tão impermeáveis à racionalidade quando temos na direção do terminal uma das figuras mais competentes na gestão portuária como Osiris Guimarães? A sensação de apatia que o comando geral deste governo transmite é assustadora. No Palácio a bajulação é o insumo-chave da anestesia. Dá a impressão que a realidade não ultrapassa a cortina de vidro, como se estivessem diante de um material mágico e capaz de glamourizar sempre o que ocorre lá fora.
Pois, como se já não bastasse o show de trapalhadas, a pasta da Fazenda, no bom propósito de fazer economia, parece não ter percebido a singularidade da autarquia ao querer aplicar-lhe normas muito boas para o Palácio e algumas outras instalações habituadas a dispêndios desnecessários como da iluminação feérica. Baixar custos com água, energia, telefone, combustível e - imaginem a heresia - o não pagamento dos parcelamentos firmados com o INSS, Prefeitura de Paranaguá e Caixa Econômica Federal (FGTS), num momento em que a União pensa ferrar seriamente os que se apropriam desses valores, ameaçando-os até com prisão, como está cogitado, é o caminho mais curto para que a União retome o porto que está cedido ao Estado e o transfira, na sequência, conforme a filosofia dominante, à iniciativa das privadas.
Não sabem o que fazer com a Copel e a Sanepar, em que buscaram o ‘‘cascalho’’ das ações negociadas num mercado pouco favorável, depois de detonarem o banco estadual. Querem detonar o porto. A idéia da dispensa provisória do governo, que parece similar à que se pretende fazer com os trabalhadores, está ainda no ponto do disparo. Antes que, com a falta de autoridade, tenhamos o desprazer de assistir a um sem-terra chutar a sambiquira de algum hierarca do poder, como o crime organizado e mesmo o dos pés-de-chinelo estão fazendo em Curitiba.

GLOSA
O diretor do Hiper Extra tem o nome de George Washington. Agora para o Carrefour enfrentar essa parada tem que no mínimo contratar Abraham Licoln.


AXIOMA Estudantes de Comunicação de Ponta Grossa estão ouvindo várias pessoas sobre o golpe (ou revolução, como querem brazilianists) de 64. Vieram falar comigo e ao me perguntarem se o censor entrava nas redações, expliquei que o mais sensato era fazê-lo no Palácio Iguaçu e Prefeitura, fontes dominantes.
Seria um caso de cortar caminho e economia processual.
BIZARRICE Inimigo número um da Lei Camata, aquela que determina o gasto máximo de 60% com pessoal, é a casamata dos burocratas e de políticos calhordas que não sabem viver fora do assistencialismo. A Camata rompe a casamata e mata a mamata. É mais fácil uma aliteração do que uma alteração.
MÁGICOS A série de textos que a ‘‘Folha’’ vem publicando sobre as façanhas do governo na área esportiva com seus famosos centros de excelência, complexo olímpico do Pinheirão (o mausoléu do futebol paranaense), Universidade do Esporte aos poucos vai desmistificando o oba oba publicitário. O Bamerindus HSBC e a Chrysler negaram que respaldarão os centros de atletismo e de basquete. Em tempo de matar cachorro a grito nem empresa grande aceita, apesar dos retornos possíveis, viajar na maionese.
FÁBULAResistência do Salomão Soiffer à reivindicação dos lojistas do Shopping Mueller em torno do estacionamento, depois de haver inviabilizado associação que os representava, é uma prova de que o Brasil, mesmo na democracia, não se liberta das suas raízes coloniais. Está aí um senhor feudal em plena autoridade diante dos vassalos, a quem cabe apenas a virtude da servidão.
PERGUNTINHA Os sindicatos patronal e dos trabalhadores da área jornalística vão dar solidariedade à empresa de Paulo Pimentel (SBT) em função da coação sofrida por seus profissionais, perseguidos pela estiva em Paranaguá, ou vão ficar, como no regime militar, quando tinha suas instalações invadidas pela Polícia Federal e cassadas suas concessões, calados, outra vez? Vergonha na cara, gente. Depois pega mal olhar-se no espelho, como sugeria Sartre.
SPRAYSe a emenda constitucional de Esperidião Amin, aprovada anteontem no Senado, for ratificada em outras instâncias, a Câmara Municipal, habituada à folga orçamentária, vai ter que cortar rente ao osso: de 5,4% da receita líquida do município para 3%. Vai doer.- O curioso é que haverá a alegação de que não há mais o que cortar, como sempre. O ministro Serra, da Saúde, que estará hoje em Curitiba, deu o exemplo de resistência ao pacote. No Brasil é assim: corte de despesas e reforma agrária só na área dos outros!- Quem está por aí com a beleza marcante de quem pegou o sol do Caribe, outra vez, é a Fernanda Rocha, que trabalhou na campanha de rádio de FHC e fez mais sucesso do que a Rosa de Tóquio na II Guerra Mundial, pois ganhou a parada. Vai acabar na TV dos grandes centros. Aliás, todo paranaense que se manda daqui, em nossa profissão, se sai bem. E isso é antigo: vide Roberto Mugiatti, José Augusto Ribeiro, Hélio Teixeira. Só para citar alguns.-
FOLCLORERequião, pelo jeito, deve ter algum dom premonitório. Anunciou, na base da brincadeira, é claro, que iria dar a lista das Mônica Levinsky do Palácio Iguaçu. Se o fizesse, talvez como se deu com Clinton, ficasse igual ao que indicavam as pesquisas ‘‘engordecidas’’. Esse ‘‘engordecida’’ é mais um verbete do glossário dos meus netos, fonte de poesia e de espanto.
CROMOPor que descobrimos, tal qual Proust, o enunciado da morte no odor do jasmim e a presença do funéreo no cedro longilíneo?
AFORÍSTICO E a lei da oferta e da procura, quando a Assembléia a revogará?

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