Luiz Geraldo Mazza
Demissão temporária
O governo estadual acredita mais em magia e prestidigitação do que em soluções reais. Se a Segurança é questionada, inventa o tótem, coloca um símbolo para golpear a concretude. Surge o problema das estradas, para as quais não há recurso, sai em busca do pedágio e estabelece uma taxa que tornaria o Paraná inoperável no transporte rodoviário. Seria o caso de pedir sugestões ao Leite Chaves, que inúmeras vezes defendeu a volta do Zepelin. Como a taxa é insuportável, o governo parte para a prestidigitação e corta linearmente o valor pela metade. Até hoje o assunto está na Justiça.
Como se preocupa muito com a Lei Camata, que transgride com a mesma naturalidade com que não paga as suas contas, apelou para um novo passe de mágica, digno do David Cooperfield: cria um fundão e passa para ele a responsabilidade de pagar inativos e pensionistas. O plano parece admirável. Só que ninguém explica de onde vão sair os recursos para pagar os inativos: os 10% da ativa e aposentados continuarão pagando, mas o governo, caloteiro, desde que criaram o IPE não paga a sua parte. Apenas Paulo Pimentel o fez, de forma indireta, ao construir as sedes da instituição em Curitiba e Londrina.
Não existe, portanto, o fundo de sustentação. O Requião tentou criá-lo e quando verificou que o Conselho Curador iria fiscalizá-lo, ao denunciar que o dinheiro, depositado no Banestado, estava com rendimentos abaixo das taxas de mercado, decidiu extingui-lo e as vaquinhas de presépio do Legislativo disseram amém à manobra absurda, autorizando ainda gastos com a grana acumulada. Fala-se em patrimônio (edifícios públicos vendidos ou alugados) que é imobilizado e, portanto, não garante fluxo de caixa. Ademais, o Pedro Parente, na televisão, elogiou a intenção do governo paranaense, mas explicou ser inaceitável que se pegue, por exemplo, recursos de privatização para esse fim. Em suma, o governo, embora criando expectativas exageradas, caiu, por suas próprias artes, num autêntico pacau de bico, na sinuca, enfim.
A preocupação é portanto gráfica: tira-se o peso dos aposentados da folha e pronto, o Paraná está livre das sanções da Lei Camata. De onde se extrairá o dinheiro para a folha dos inativos, não se explica. O questionamento parece prosaico demais para ser ouvido pelos luminares palacianos.
O governo está propondo que os patrões possam dispensar temporariamente os seus trabalhadores. E por que não podemos fazê-lo com o governo, dando-lhe aquilo que mais cultua, que é o descanso também provisoriamente? O quadro de agora é sério, acabou o espaço da famosa e elástica, embora discutível, criatividade. O governo já quebrou o Banestado, aluiu a Copel e a Sanepar e agora está de olho no aposentado. Sai de baixo. A lição no Stephanes pai não foi absorvida nem por Lerner e nem pelo Stephanes filho.

AFORÍSTICO
Aníbal Khury quer eleger o presidente da Câmara Municipal. Qualquer dia se mete na eleição de Rei Momo e de Miss Paraná


AXIOMA Uma a uma todas as mistificações na área do esporte (a maior foi a dos Jogos Mundiais da Natureza, que não animaram Foz e nem salvaram a Costa Oeste, porém deixaram dívidas) vão caindo por terra. O HSBC nega o apoio ao atletismo, a Chrysler ao basquete. Fica o perfume do Rexona para ocultar os miasmas gerais de tanta empulhação.
GLOSA Renato Follador é notoriamente uma pessoa dedicada e de boa vontade. Se a fórmula imaginada para o Fundo desse certo (já vetada pelo Pedro Parente), tudo bem. Se não der, como não haverá recursos para pagar os aposentados, passará a ser chamado de Renato Esfolador.
BIZARRICE Para quem estranhava o fato de o Paraná ter dois terços de sua representação do Senado ocupada por uma família (os Dias, Osmar e Álvaro), temos o exemplo da eleição americana: dois filhos do Georg Bush foram eleitos governadores de Estado. Estamos num estágio melhor. E sem estagiária.
SPRAY Se o governo estadual continuar como está, assim não permanece. No pacote fiscal há sanções gravíssimas contra a burla à Lei Camata, aquela que determina dispêndio máximo de 60% com gastos de pessoal. - A prestidigitação do Fundão está levando funcionários à neurose, principalmente depois do veto federal à solução que vinha sendo gestada. - Para onde vão esses ‘‘dízimos’’ de todos os funcionários ativos e inativos: cai na geléia do caos fazendário ou fica em conta à parte? - Incrível é a subserviência parlamentar que já aprovou a Caixa Econômica para substituir o Banestado numa Comissão e o fará em plenário. Na esteira da dependência, Lerner irá sancionar, depois das costumeiras hesitações, aguardando que venha um veto do Banco Central para não se desgastar quando a sua obrigação era mostrar que a lei é inconstitucional por não poder o Parlamento criar despesas. Para quem abriu mão de prerrogativas, como a de cuidar da Segurança, tudo é possível. - Hoje, Auditório 2 do Ipardes, 14h30, seminário ‘‘União Européia e América Latina’’. Daniel Bessa, mestre português e ex-ministro de Economia, fala sobre a inflação em Portugal de 1945 a 1980. - Campo Mourão aderiu ao protesto das prefeituras para dar apoio à Marcha a Brasília, mas cumpre com a sua parte nos deveres de casa, apesar de tudo e da queda de 6,5% na receita: reduziu de 16 para oito cargos com status de secretaria e para a metade os de comissão. - Quem vai ter que se virar daqui para a frente vão ser as Câmaras Municipais: o Senado aprovou por unanimidade, ontem, projeto de Esperidião Amin que limita gastos. A de Curitiba, por exemplo, está fora da lei: teria que gastar apenas 3% da receita líquida do município e no caso da nossa o montante vai a 5%. - No encontro sobre abusos com drogas, no Parque Barigui, a jornalista Nanani Albino relatou o caso de uma professora de bairro de Curitiba que flagrou as crianças no recreio fazendo a dramatização das ações do motoboy do Parque. A observação é curiosa porque o ‘‘break’’, que consagrou Michael Jackson, é uma estilização das brigas de ruas de bairros pobres dos States. - Outro relatório dizia que 90% das crianças de rua de Curitiba usam drogas. O levantamento é de educadores e vai além do indicador de 80% de pesquisa nacional, na qual a capital não figurou, e que abrangeu os grandes centros urbanos.
FOLCLORE Meu neto, Luisinho, entra na sala de casa e vê uma caricatura minha a óleo feita pelo Cláudio Seto e pergunta: ‘‘É do Van Gogh?’’ Na pré-escola mostraram telas do atormentado pintor e talvez ele tenha visto semelhança com o traço usado em uma das arlesianas. Foi melhor do que a perua curitibana que, diante da Arlesiana na Biblioteca, perguntou se era Van Gogh era nome ou pseudônimo, e o Fernando Pessoa, debochado, que passava ao lado, arrematou: ‘‘É sim, o nome verdadeiro é Kirk Douglas!’’
CROMO Ninguém mais iluminou os trigais de Provence e nem agitou os gerânios e muito menos os sóis enlouquecidos como Van Gogh.

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