Luiz Geraldo Mazza
Um teste complicado
‘‘Se a eleição fosse hoje você repetiria o seu voto?’’ Se alguém se animasse a uma sondagem desse porte teríamos não uma surpresa, mas o impacto do óbvio. Muitos dos que votaram em FHC, até por falta de opções, fariam certamente, após a revelação do pacote, uma revisão radical. Poderiam até engrossar a fileira do voto em branco ou nulo ou, quem sabe, votar na oposição, mas o pleito não seria decidido em primeiro turno.
Qual a utilidade dessa sondagem, uma vez que não poderia alterar a realidade de um fato consumado? Simples: teria um efeito moral até bom para os governos, e aí entram igualmente os estaduais, não se deixarem levar pela arrogância ao subestimarem a lição das urnas que deram chance, tanto nacional como ainda regionalmente, à oposição para ganhar o pleito. Aqui provavelmente teríamos o segundo turno. O governo Lerner, como virtual, isto é, aquele que se volatiliza quando se desliga a TV (como Álvaro Dias e Requião dizem), teria uma derrota numa experiência simulada, em que é tido como especialista.
Quem sugere essa hipótese é o analista político Fábio Campana, versado em todos os macetes da área. Ele a propõe sem qualquer juízo preconcebido, mas tão-somente para uma investigação comportamental do tipo behaviourista, uma das suas secretas paixões: algo assim como olhar um zôo (e essa comparação já foi feita por Mencken com a máxima ‘‘a democracia é a arte e a ciência de administrar o circo a partir da jaula dos macacos’’) e ver como nele convivem e conflitam atores e espectadores.
Para um governo que gasta com a pesquisa do Banestado, um absurdo mais uma vez beneficiando alguns atores da cena propagandística, para ver se o povo é a favor ou contra a privatização, quando isso já está decidido, até que a sondagem teria maior utilidade moral e pedagógica. Afinal, quem o monitora é quem decide, não havendo a menor importância se o estabelecimento concorda ou não e até mesmo seus correntistas e acionistas, bem mais importantes do que políticos, clientes e servidores, que falam como se a casa lhes pertencesse e só a eles dissesse respeito, como se vivêssemos a fúria do império trabalhista. Seria, portanto, politicamente mais proveitosa e melhor na linha do custo-benefício do que o gasto supérfluo já consumado.
Consta que Requião tem dito, em vários lugares, que é o governador. Como, no entanto, ele, que tanto se servia de pesquisas, é contra os institutos e até apresentou proposta no Senado para regulá-los, talvez não recomendasse essa simulação, conquanto soubesse que seria beneficiado por ela. A rejeição ao presidente FHC, pós-pacote, se transmitiria aos governadores na mesma medida em que a de Lula contaminou Requião.

AFORÍSTICO
Se as eleições nos States revelarem recuperação dos democratas, fica provado que em Clinton não é só aquilo que sobe. Será também um pau (êpa) ma hipocrisia vitoriana do país e no oportunismo dos republicanos


AXIOMA Cândido Gomes Chagas está para Lerner (mais Maurício Schulman, Karlos Rischbieter e tantos outros) como o inspetor Javert estava para Jean Valjean em ‘‘Os Miseráveis’’ de Victor Hugo. Valjean roubou um pão em estado famélico e foi perseguido. Candinho argumenta que as pessoas que ele critica pegaram muito mais do que uma padaria. Na capa da ‘‘Paraná em Páginas’’ aparece Lerner em absoluto destaque, ocupando quase todo o espaço. Texto na primeira linha: ‘‘Lerner reeleito.’’ Mais embaixo, em caixa alta, títulos maiores: ‘‘O problema é do Paraná.’’ Às vezes chamam isso de autofagia. Numa certa certa medida ela é, além de saudável, necessária. O amor pelo governo aqui é radical demais, como se todos ou a maioria esmagadora dele dependesse.
GLOSA Prorrogação de contratos de locação de veículos no governo estadual mostra que nada há de novo no front da austeridade. Um destes contratos com a Cotrans (52 veículos e 31 motoristas) foi renovado pelo prazo de 12 meses. Uma forma nada sutil de evitar a concorrência e a competição. É legal, mas se insere numa linha que estimula cartórios e parcerias.
BIZARRICE Valdomiro Romero inventou um cemitério virtual pela Internet e se valeu do Dia de Finados para lançá-lo e fez ainda um trocadilho com o nome para inseri-lo na rede mundial ‘‘Eternet’’. Provisório como a vida, coloca a eternidade no mercado ao custo de R$ 60. Se alguém quiser entrar nessa e não pagar receberá a explicação de que se trata de Finados e não fiados.
SPRAY Duas pessoas ingressaram ‘‘sub judice’’ na Academia Militar do Guatupê por terem sido inabilitados no exame psicotécnico. Concluíram o curso, saíram aspirantes a oficial e há três anos aguardam definição legal no STJ para a promoção a 2º tenente, quando em tese adquiriram vitaliciedade. - A jornalista Graça Gomes foi aposentada na Procuradoria Geral da Justiça, que assim acabou reconhecendo a sua incapacitação para o trabalho e pondo fim ao problema que se tornara tenso com os atos administrativos que apuravam ‘‘abandono de emprego’’, quando a jornalista estava impossibilitada de locomover-se. - Deu a maior confusão um ato do Banestado, adotando o que chama de conta ideal nos servidores e que era pernicioso para os que não fazem aplicações. Assim, o que não tem super-cheque passou a sofrer descontos mensais de R$ 8,50 quando era de R$ 4 a cada três meses e os que têm passaram a pagar R$ 12. Um erro de comunicação que provocou centenas de telefonemas. Os que reclamaram (e muitos não haviam recebido qualquer comunicação do banco) foram atendidos com o estorno do débito. - Tudo o que acontece no Banestado deveria ser previamente medido e pesado, ainda mais quando reina a máxima confusão quanto ao futuro, já que não há informações e se fala até em federalização. A oposição não admite que caia na mão do governo o montante de R$ 4,1 bilhões a pretexto de saneá-lo e está estrilando vigorosamente. - Telemática: em um mês, 170 comarcas estarão interligadas entre si, o TJ e o Alçada. Até o final de novembro estará operando o Protocolo Integrado. - Juízes já decidiram que recorrem ao Legislativo para obter a fusão do TJ com o Alçada. Ministério e OAB aprovam a fusão e já estão em demarches junto à classe política.
FOLCLORE Artistas paranaenses pleiteiam reserva de mercado, de 25%, para atos da área pública. Se a iniciativa, por exemplo, visar o País, não haverá sentido em botar um ator paranaense (desde que não seja um daqueles que migraram, como Ari Fontoura, Isadora Ribeiro, Toni Ramos, Paulo Goulart etc.) em mensagem que vise a identificar o artista. E assim com a música, a pintura, artes plásticas. Antes eles exigiam que até nos anúncios oficiais houvesse a quota. Às vezes o corporativismo vira porcorativismo.

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