Luiz Geraldo Mazza
Sobre esse encontro que o governo estadual empreende, nestes dias, em Faxinal do Céu, para integrar esforços do chamado setor social entre os vários níveis de administração (do federal ao municipal, mais especialmente entre o Estado e as cidades), é indispensável lembrar do padre J. Lebret, cuja doutrina Economia e Humanismo está nos fundamentos de nossa tradição de planejamento.
Basta recordar que é de 1963 o primeiro plano, com estruturação científica, elaborado no Paraná e prejudicado pelo corte do golpe de 64, que não era nem democrático e nem solidário e punha no índex de saída o método Paulo Freire de alfabetização, apontado como o ideal naquele documento para enfrentar essa chaga que ainda nos coloca mal em termos meridionais, onde perdemos feio do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
A empresa encarregada de montar esse estudo foi a Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais, que seguia rigorosamente a filosofia do padre, cuja presença é relevante em planos diretores de São Paulo, em diagnósticos e projetos (estudos de barragens, da hidrovia do Tietê, hidrelétricas, de navegação na Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai), enfim em múltiplos fronts.
O trabalho era centrado na mobilização de todas as energias sociais. Tanto que sugeria uma espécie de dois comitês chaves, unindo secretarias, ligadas ao setor econômico (Fazenda, Indústria e Comércio, Copel, Sanepar, Agricultura) e ao social (Saúde, Educação, Segurança, Criança, Trabalho etc). E os denominava Secretaria de Mobilização Econômica e de Mobilização Social.
CAPITALISMO TARDIO - Convidado para fazer palestra nesse encontro, me vali de um dos temas que mais me preocupa no capitalismo brasileiro (que tenta queimar etapas com uma velocidade inadequada e que não leva em conta a sua condição de processo tardio e, por isso, bastante selvagem), onde se acentua um tipo de dicotomia que não deveria existir, se fôssemos mais fiéis ao pensamento de Lebret, entre o social e o econômico.
O Paraná como um todo é uma prova dessa defasagem: aparecemos bem em renda per capita na condição de quinto PIB, mas em analfabetismo, mortalidade infantil, presença de crianças em idade escolar no mercado de trabalho (nesse aspecto só levamos a melhor sobre o Piauí) perdemos distanciadamente do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Temos, por exemplo, a melhor infra-estrutura viária com os nossos mais de 10 mil quilômetros pavimentados. A Telepar, até outro dia, não mais agora, era a melhor das empresas do sistema Telebrás, mas episódios como os ocorridos no Hospital Universitário de Maringá mostram que a demanda nessa área está insatisfeita.
Quando se cruzam esses dois fatores, o econômico e o social, para apurar o chamado Índice de Desenvolvimento Humano percebemos que o fato de darmos maior relevância ao primeiro pólo (e isso se dá na gestão revolucionária de Ney Braga) é que confere a gaúchos e catarinenses a melhor posição. O Rio Grande do Sul tem o maior IDH do Brasil, em estudo da ONU, com 0,871, abaixo do Chile (0,880) mas acima da Venezuela (0,859), México (0,842) e Qatar (0,838). Seguem o Distrito Federal (com a maior renda e a terceira melhor educação), São Paulo, Santa Catarina, Rio e Paraná.
ILUSÃO PERIGOSA - Uma das ilusões do capitalismo é a de que o simples acionamento da economia libera todas as forças sociais. Essa tese, que Marx melhor estruturou na acumulação do capital, é repetida, hoje sem o humanismo daquele pensador, pela onda neoliberal que tudo subordina ao mercado. O padre Lebret buscava associar ao desenvolvimento econômico o social e por isso seus seguidores tinham muito, e com anos de antecedência, a ver com a própria teologia da libertação.
Havia um compromisso com mudanças que se estruturavam em fatores educacionais e culturais. Aceitava-se para começo de conversa o mundo como processo em que o homem opera como agente transformador ligado à chamada atuação dos organismos intermediários, valorizados nas encíclicas de João XXIII, entre o Estado e o Indivíduo, como a família, a empresa, a cooperativa, a igreja, o sindicato, os grupos cívicos organizados.
É que a hipertrofia do Estado moderno, mesmo nas democracias, tende a eliminar essas formas de mediação. Acrescenta-se hoje a preocupação com o meio ambiente diante de uma forma de capitalismo incompatível com o respeito à qualidade de vida e a preservação do mundo.
De nada adiantará darmos um novo salto na economia paranaense sob Lerner com as montadoras e empresas satélites se ele acentuar desequilíbrios não apenas regionais (a Região Metropolitana obviamente escolhida por fatores logísticos pode reproduzir o modelo de São Paulo em termos de impacto urbano e viário, o que lhe fará cair a decantada qualidade de vida), pois é visível a vantagem que o eixo Curitiba-Ponta Grossa já detém e que ora se acentua, como também os sociais (deflagração de uma nova onda migratória campo-cidade).
FOLCLORE - A revista Paraná & Cia, antes pertencente a Fiep, faz reportagem no mínimo irreverente sobre Rafael Greca, mostrando-o inclusive a deglutir pedaços de frango. Essa perseguição em cima de políticos para apanhá-los de boca aberta ou bebendo é clássica. Fizeram isso com Carlos Lacerda, no Rio, e aqui, com Jayme Canet (patrulhado pelos jornais de Paulo Pimentel). Houve quem fosse tão perseguido que lembrasse a oportunidade da observação de Papini, em Gog, de que o ato de comer deveria ser tão isolado quanto o de descomer.
CROMO - Para dar um tom de metalinguagem à reportagem da TV de anteontem que mostrava a migração de pássaros, aliás volta e meia repetida, só faltava aparecer no vídeo de cada um pouco de titica das aves. Seria poetitica.





