O Brasil tem perdido oportunidades excepcionais para fazer uma revolução cultural. A mais importante delas poderia ter sido logo depois da eleição de Tancredo e, especialmente, da adoção do Plano Cruzado, que deu todas as vitórias do PMDB em governos estaduais. Um dos que falaram abertamente no assunto, e com uma pose de doutrinador, foi João Sayad, então ministro do Planejamento. Se naquele momento não houvesse o fator perturbador das eleições, nas quais houve a vitória do maior partido do governo, tal como se deu agora na reeleição de FHC. Ainda que por estreita margem, haveria justificativa para as lágrimas da Maria Conceição Tavares, que apostou tudo nos seus ex-alunos, o que não acontece agora.
Como FHC já perdeu a oportunidade de ter feito as reformas logo após a sua vitória em 1994, acredita-se que desta feita, com o emplastro financeiro do FMI, há todas as condições de falar, outra vez, em revolução cultural, mais ou menos no sentido daquela que os chineses fizeram, ao menos no que diz respeito à mobilização e à fundamentação doutrinária. Não precisamos criar fanáticos como os que redundaram na Camarilha dos Quatro, e muito menos com a atmosfera que gerou os fiscais do Sarney, como aquele curitibano que ganhou os 15 quinze minutos de glória ao fechar o Supermercado Real, no Juvevê, em nome do presidente.
Já experimentamos todas as demagogias e oportunismos. FHC perdeu o direito de contemporatizar e isso se repete com o nosso governador. A moleza acabou, também para o Brasil, igualmente, pelo seu convívio com o FMI, com o qual jamais cumpriu um só acordo, o que se repetiu com a farsa da moratória de Sarney, e apenas se mostrou honesto com Juscelino Kubitschek, efetivamente disposto a enfrentar o capataz das finanças internacionais.
Estamos aí com um ajuste fiscal duro, a passar pelo filtro do Congresso, onde haverá as acomodações e recuos possíveis, pois a fórmula parece ter vindo pronta e acabada, o que abre nova possibilidade para uma experência de revolução cultural. A TV Globo, como sempre com sua vocação chapa branca e a sua prática de ‘‘construtivismo’’, mostrou como as pessoas podem ajustar-se em seus orçamentos domésticos quando a prioridade é levar os governos federal, estadual e municipal ao cumprimento dos chamados deveres de casa, o que jamais fizeram, especialmente a União.
Por exemplo, se o Lerner aqui no Paraná fizer a prestigitação do Fundo de Previdência (todos se lembram da havida com Requião) para ajustar-se à Lei Camata, será uma tapeação gráfica que não resolverá o nó das finanças públicas, área até hoje entregue a um jejuno na matéria, embora do agrado, como sempre, do chefão-mor da classe política. O risco das mistificações é permanente, mas espera-se que a sociedade organizada, mais do que os políticos, cumpra o seu papel, divergindo, denunciando, colaborando, se for o caso, sem servidão.
CROMO
Nem tudo que é estético faz bem: os poetas aprendem isso quando botam a mão ou o pé numa água viva, urtiga do mar na areia da praia
AXIOMA Quem folhear a próxima ‘‘Paraná em Páginas’’ vai descobrir que Cândido Gomes Chagas tem uma solução melhor do que a geriatria para remoçar pessoas. O presidente do TJ, Henrique Lenz César, está com uma face louçã quase dos tempos de universitário. Aliás, confrontando fotos de ontem e de hoje, mostra Aníbal Khury com o ar de Akim Tamirof quando mocinho, Jaime Lerner com cabelo comprido, e até o Ronald Reagan. Agora quem deu uma enxugada mesmo foi o Candinho, dono da revista, praticando tênis e cultivando suas idiossincrasias como a de Lerner. Pelo jeito, faz bem, tanto quanto sexo, como sugerem os cardiologistas.
GLOSA Vários amigos (e quem não o é) do Luis Alfredo Malucelli foram convidados para prefaciar um livro dos seus relatos na ‘‘Gazeta do Povo’’. De todos, o curioso foi o de Jamil Snege, que sugere que o Malu adquiriu seu gosto pela culinária por ter sido uma confeiteira francesa na encarnação passada.
BIZARRICE O prefeito de Contenda tratava de interesses em Brasília junto ao Senado e Câmara Federal. O senador Requião falava insistentemente como se fosse o governador eleito do Paraná. Isso é uma forma de tirar o sono dos lernistas mais próximos, que temem uma revisão dos resultados no TRE e no TSE. A consciência do pecado amedronta. Shakespeare já o demonstrava. Imaginaram um Ferreirinha jurídico?
SPRAY A denúncia da ‘‘Folha de S.Paulo’’ de que o cientista político Antônio Lavareda, que trabalhou nas campanhas de FHC, tem um contrato que lhe rendeu R$ 4,1 milhões em apenas 15 meses junto ao Palácio da Alvorada, obriga a pensar nos casos locais, onde todos recebem também alguma forma de retribuição. - Uma fauna ligada a agências de propaganda, a prestadoras de serviço como relações públicas (ainda bem que as sexuais não entram na listagem) e produtoras de fantasias várias (o governo é como um Moloch em adquiri-las) opera como forma de reciprocidade. - Com os tempos duros da recessão, isso aí vai exigir cortes, que se dependerem da determinação de Lerner dificilmente acontecerão. Há quem preveja que Lerner não termina o seu mandato por não ter condições de administrar esses conflitos: a cupidez da turma é maior do que o orçamento e os bloqueios da Lei Camata. - Quem esteve estes dias na praia - embora com o tempo não muito firme - está convencido de que existe muita sinistrose e paranóia quanto ao que está por vir com a recessão. - Acredita-se até que, pelo menos neste ano na praia, a temporada não será muito diferente da do ano passado. Basta não haver o velho corsarismo de imobiliárias e de hotéis, comerciantes de um modo geral, o que deveríamos aprender claramente com Santa Catarina. - Não aprendemos com os catarinas uma coisa elementar: é preciso ter noção de escala e por isso a entressafra, a meia estação, reclama preços pela metade. O Paraná não aprende lição tão elementar. - O empresário Joel Malucelli, que fecha o seu hotel em Guaratuba no inverno, vai perceber, agora que acaba de adquirir o de São Francisco, um dos melhores de Santa Catarina, essa realidade e quem sabe a transfira ao nosso litoral.
FOLCLORE No exame oral, nos tempos em que o vestibular o exigia, o professor, na prova de Física, pergunta ao aluno que fenômeno se dá quando há evaporação da chaleira e pinga na chapa. A resposta onomatopaica ‘‘tchii’’ veio de bate-pronto, tentando reproduzir o som da água ao tocar na superfície quente. Hoje daria para imitar aquela onomatopéia do anúncio da Brahma em lata, um som bem mais prolongado e imitando o ruído da abertura da tampa.
AFORÍSTICO Não se trata de idealizar o passado quando se diz que com Ney Braga havia mais governo; trata-se, isto sim, de julgar o presente intolerável. Não apenas o de agora, mas certamente o dos três últimos antecessores de Lerner.

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