Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O pacto oposicionista
Governadores eleitos pela oposição, embora a variedade da fauna, cogitam de pactuar uma frente para capitalizar os aspectos mais dramáticos do pacote fiscal e, esquecendo que nessas condições o número é mais importante do que a doutrina e a intenção, tentam projetar uma força que na realidade não têm. Até o candidato derrotado, Lula, bem como a burocracia lá estavam para dar densidade ao gesto. A sociedade do espetáculo requer, em doses cada vez mais elevadas, esse sacrifício. O aspecto bom de tudo isso é mostrar que há outras instâncias, que não apenas o Parlamento, em que o governo faz maioria, ainda que sujeitas ao dando que se recebe, para encaminhar as questões mais gerais da sociedade brasileira.
No rigor aritmético da correlação de forças, o governo leva a melhor, e isso com relativa facilidade, dependendo do jogo de concessões e recuos. Mas é nas áreas de resistência, que se formarão nos grupos organizados, empresários e trabalhadores, que se buscará a medida de consenso e se a oposição conseguir aglutinar esses interesses e os representar o esforço será compensatório. E o minoritário sempre concede aos seus integrantes a aura do martírio e da missão histórica de ser o contraste de uma ordem hegemônica. No mundo civilizado, as minorias são bem mais respeitadas do que no Brasil. O difícil, embora falem muito nisso, é propor o tal de projeto nacional alternativo, que até pelo enunciado já aparenta o exótico. Essa proposta está no bico das pessoas, mas não no papel.
Com Requião nesse pólo oposicionista de um lado e Jaime Lerner do outro, o Paraná tem todas as condições de figurar no cenário brasileiro. Pela energia que o senador oposicionista está demonstrando, irá encontrar, em direção oposta e engajado com FHC, o governador paranaense que até doutrinariamente mostra identificação, não apenas com a visão social-democrata, mas com a prioridade concedida ao pacote como expressão doutrinária. Há ainda a considerar os dois senadores, os irmãos Dias, que devem alinhar-se com o sistema, mesmo que com restrições pontuais a Lerner e figuras importantes como Euclides Scalco, sem falar em Cássio Taniguchi, o mais forte potencial à sucessão estadual, e Rafael Greca, que começa a construir um caminho próprio dentre as forças do situacionismo.
COPEL O ministro Raimundo Brito, das Minas e Energia, mais político e entregue a tarefas de proselitismo partidário do que aos assuntos técnicos da sua Pasta, ao contestar a disposição de Itamar Franco de rever o programa de privatização ainda tímido da Cemig, declarou que Jaime Lerner defendia o modelo e o aplicaria no caso específico da Copel. Como diria Lula, é um caso de menas verdade. Ao contrário, Lerner, por ter perfeita noção de que há potencial de politização muito forte no tema, tem exatamente se recusado a entrar no oba-oba de uma privatização larvar e sem prévia reflexão.
A Copel é a melhor empresa estatal de energia do Brasil. Sua padronagem de serviços é de tal ordem que muitas das suas especificações estão consignadas na Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) da área como paradigmáticas e, portanto, merecedoras dessa codificação. O fato de todo o sistema estar hoje, a pretexto de atender a imposições externas, amarrado e proibido de obter recursos em organismos internacionais ou nos meios financeiros nacionais, estatais ou particulares, a imobiliza e a torna presa fácil, como única saída, da privatização e dos leilões que volta e meia revelam a presença de estatais de outros países - como a França - e que deles participam e com vitórias, como se deu com a Light do Rio de Janeiro, até hoje afrontando o consumidor.
O ministro falou para tentar dissuadir Itamar Franco e valeu-se de uma referência (reverência também, digamos) indevida. Outra coisa: não dá para comparar Copel e Banestado, este vítima dos aventureiros e do tráfico de influência, mesmo que colocado como o mais redondo dentre estaduais e o de melhor desempenho. Só que a abertura da caixa preta está demolindo essa imagem, penosamente erigida e mostrando que a patologia vem de longe.
AFORÍSTICO
Como proteger Drácula do risco da AIDS,
se é que não é contaminado?
AXIOMA Vejam como a história é cheia de ironias: a Copel era a linha de montagem de recursos humanos para o governo e também a centralizadora dos planos pré e pós-eleitorais, e hoje seus quadros dirigentes não são sequer ouvidos a respeito do destino da empresa.
GLOSA Se um ecologista dos nossos vivesse nos cenários da mitologia greco-romana iria considerar, por exemplo, o Minotauro ambientalmente incorreto por nutrir-se de brasas e produzir monóxido de carbono. De repente ninguém se espantaria se o Labirinto de Creta virasse o Labirinto dos Cretinos.
BIZARRICE A extensão da linha ferroviária de Cascavel para Foz do Iguaçu e Guaíra não é cogitada pelo governo. A única manobra ferroviária projetada é mais de um trem da alegria no Tribunal de Contas, com a fajutagem dos conselheiros substitutos. Nem a urgência da crise reeduca essa gente.
SPRAY Uma declaração do senador Requião à reportagem da Folha não confere exatidão à rapidez de suas viagens ao interior como prioridade imaginada. Vai, mas não agora. - O empenho em mostrar vitalidade no PMDB é razoável, mas não acompanha o pique do seu maior eleitor que, além de estar ligado no cenário nacional, age rapidamente para evitar surpresas internas. - Do diretório nacional do PMDB constam os nomes de Djalma de Almeida César e Mário Pereira, nenhum dos dois eleito em 4 de outubro, não muito vinculados a Requião. - Dois paranaenses, Eloá Mussi Barbosa, de Curitiba, e Shiguemassa Iamasaki, de Maringá, integram a Comissão Organizadora do 6º Congresso Nacional dos Auditores-Fiscais a ter lugar em Canela, Rio Grande do Sul, de 22 a 28 de novembro, com o tema central Justiça Fiscal-Questão de Cidadania. Ficou mais adequado depois do anúncio do ajuste fiscal. - Uma revista da Federação dos Sindicatos dos Fiscais fez um raio-X da Receita em todas as unidades do País e uma das conclusões é no mínimo assustadora: A maioria das delegacias avaliadas reclama da cobrança de débitos já quitados. O pior é que, mesmo o erro sendo do próprio órgão, a comprovação do pagamento é um martírio. Está na primeira página do suplemento da Unafisco Sindical.
FOLCLORE Na porta do Couto Pereira a pesquisa flagrante. Entrevistador pergunta a uma senhora se ela é Coxa e leva um tapa. Quando ela se afasta, ele percebe a mancada: o defeito no andar era visível. Para remediar, foi lá e explicou a sua pergunta: queria saber se era Coxa-Branca. Mais um tapa: era atleticana.
CROMO Só falta o ninho do quero-quero ficar junto ao gol e protegê-lo.





