Luiz Geraldo Mazza
Apoteose dos derrotados
Nunca se viu, na história política do Paraná, um derrotado comemorar tanto como o PMDB requianista. Além de mostrar vitalidade, quando muitos o viam na UTI, pela impressão que provoca é a de que foi ele quem ganhou o pleito e não o Lerner. No Palácio, aberto à paranóia, os áulicos mais chegados entraram em crise, vendo nessa movimentação a certeza de que o senador pode ainda ganhar o pleito no tapetão. Algo parecido com aquele batedor de pênalti, cuja fama era a de chutar como ninguém a bola com efeito. Consta que numa decisão, ao bater uma penalidade que o goleiro pegou, o batedor ria como um histérico. Sabia porque o estava fazendo: ao apanhar a bola para devolvê-la ao meio do campo, o goleiro viu a maldita ‘‘quicar’’ e entrar no gol. Chute de efeito e retardado diante do goleiro desolado que se atribuia a culpa do acidente.
Mas para tudo há limite: até para o agito quando se tenta mobilizar e motivar pessoas para uma causa gloriosa. O fato é que o PMDB não é um cadáver insepulto: tanto nacional como regionalmente continua com potencial forte e que nem a crise de identidade (ser ou não ser governo) atrapalha. Governistas perderam no Rio Grande do Sul, Goiás, Pará, Santa Catarina. Bastou isso para que os minoritários no partido, entre eles Requião, se achassem bem cotados, já que tinham a tese melhor: a representação parlamentar sempre cresceu com candidato presidencial próprio, ainda que este obtivesse um mínimo de votos, como se deu com Ulysses Guimarães e Orestes Quércia.
Além de tudo, Requião está em ofensiva nacional. O discurso que fez contra o ‘‘pacote’’ seria assinado, no passado, por integrantes do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), que fazia uma suruba ideológica entre marxismo vulgar e nacionalismo, do qual o clássico Guerreiro Ramos dizia não poder lembrar sem algum constrangimento. O sociólogo pertenceu à fábrica de ideologia e, no exílio, em que pôde fazer reflexão, passou a abominá-la, como se deu com tantos outros, incluindo o mestre Hélio Jaguaribe.
Independentemente das fragilidades de caráter epistemológico (fundamentos de conhecimento), o discurso repetiu, com a veemência costumeira, os clichês sobre o poder nacional, exploração externa, e obteve adesão até de pessoas qualificadas como o senador Josaphat Marinho ao lado do silêncio dos situacionistas, que afinal é a sua retórica de servidão. O colunista Carlos Chagas, que também cultua os resíduos desse populismo luminoso, foi quem mais destacou o discurso de Requião, em sua intervenção na TV Manchete e nos jornais em que seu texto é reproduzido. O fato é que não bastasse a destacada atuação na CPI dos Títulos, seu maior momento, Requião vai fazer da tribuna do Senado um campo de beligerância contra FHC e Lerner, o que o diferenciará de seus colegas, Osmar e Álvaro Dias.
Regionalmente vai fazer missões ao interior a pretexto de agradecer os votos e continuar a sua pregação. Pode até emplacar uma candidatura presidencial à esquerda ou na pior das hipóteses a volta à Prefeitura. Luta nos dois fronts com uma obstinação que não revelou na campanha, quando não fez uma denúncia sequer com o impacto da que tratou do caso Algaci Túlio e que promete dar continuidade com a série de escândalos do Banestado, que transforma numa das suas alavancas eleitorais. A apoteose na derrota nem escola de samba cultua.

AXIOMA
Cássio Taniguchi e Aníbal Khury almoçaram juntos. Gastronomia. Eis um caso em que o Buda é mais técnico do que o outro


GLOSA Primeiras demissões em massa no Paraná não mexeram com o imobilismo do governo. Os 800 desempregados da Philip Morris não assustaram. Dá a impressão que o raciocínio de Stalin prevalece: ‘‘A morte de uma pessoa ou de uma família é uma tragédia; a de milhões, apenas estatística.’’
BIZARRICE Somos um povo que adora rituais. O Banestado cortou os contratos de propaganda por uma razão imperiosa: a grana acabou. E algumas pessoas da área de comunicação social acharam que a instituição deveria ser mais educada e mandar o aviso. Quando alguns meteram a mão no banco, tal o caso da Leasing e da Corretora e o mais recente do Algaci Túlio, também não avisaram.
PARADOXO Jornal ‘‘Indústria & Comércio’’ noticia que está precisando de jornalistas. Na frente do jornal um grupo de profissionais protesta porque está com salários atrasadíssimos, como é da tradição. Certa vez, numa homenagem ao jornalista José Cury, falou-se que o Odone Fortes era um capitalista sem capital. Agora vai mais longe: faz jornal sem jornalista.
Se o jornalismo é o exercício permanente do caráter, como dizia Cláudio Abramo, aí está outra carência-chave do caso citado.
PESQUISA Ibope está fazendo importante pesquisa em cima dos dados que orientam amostragens eleitorais que ou são do IBGE ou do TRE (caso específico de Brasília). Ocorre que há diferenças de até 5% conforme o modelo adotado e isso se explica: no Distrito Federal a mobilidade do eleitor no espaço físico é muito grande e confunde. Uma área, Samambaia, representa no IBGE 7% do colégio eleitoral e no TRE cai para 3%. Divergência, como se vê, muito séria.
Aqui também ocorre o fenômeno, mas em escala bem menor e por isso perde representividade no conjunto da sondagem. Em Brasília, três institutos, o Ibope, o DataFolha e o ‘‘Idéia’’ (contratado pelo governo) cometeram iguais imprecisões por causa dessa distorção relativa à mobilidade do eleitor.
SPRAY Renúncia fiscal, que poderia chegar a 5% do PIB, segundo técnicos fazendários, é algo que foi desconsiderado no pacote. - Se houver recuo nos percentuais da Previdência e da CPMF, o Leão será atiçado e aí essa moleza de concessões fiscais será fulminada. Ela foi a base da atração das montadoras na Grande Curitiba. - Outro detalhe: sem acabar com a guerra fiscal entre Estados não se conseguirá um mínimo de ordem no caos. - Auditores fiscais acham também que se subestimou o efeito de um cerco à sonegação. - Metade do pessoal da TV e da Rádio Exclusiva foi despedida. O passaralho vem aí. - Buraqueira nas rodovias pedagiadas é a prova que faltava ao governo para denunciar tudo, já que nem a manutenção estão fazendo direito.
FOLCLORE Quando aquele conselheiro disse que a situação do País melhoraria se o governo convencesse os que têm dinheiro em paraísos fiscais a internalizar esses recursos no Brasil e foi logo olhado como um inimigo de políticos que exercem função cumulativa de empresários. Preconceito está em toda parte.
CROMO O sabiá retornou, sem áudio. Pelo jeito é mais chuva.
AFORÍSTICO Bebe-se a água da Sanepar e diz-se ‘‘Ki-Boa!’’.

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