Luiz Geraldo Mazza
Velhinhos no espaço
Chegamos lá como potência inventiva: no exato momento em que os hegemônicos norte-americanos mandavam o septuagenário John Glenn para o espaço, o príncipe Fernando Henrique, da terra brasilis, com um digitar de computador, numa só tacada, mandava milhões de velhinhos também para o espaço. A comparação vai ser feita a três por dois, tornar-se-á uma anedota nacional que pela repetição ganhará ingredientes novos e até sofisticação. Mas eu a tenho como criação espontânea do Marcos Freitas, aqui da reportagem da ‘‘Folha’’, que ele disse com a mesma naturalidade com que corteja todas as moças que vê pela frente.
Um chiste é mais eficiente do que um discurso indignado como o do senador Requião, que parecia, de tão longo, com as exortações de Cícero no Senado romano contra o Catilina, uma espécie de José Rainha daqueles tempos. Ou o estrilo generalizado de empresários e políticos da oposição e situação, estes em menor número. Requião produziu um discurso que em tempo de guerra fria ou na fase de brilho da Comissão Econômica da América Latina seria sucesso. Hoje nem tanto. Até porque a retórica sumiu dos parlamentos por falta de interesse não apenas de deputados e senadores como também do público.
Não é preciso recorrer à máxima de Moliére, segundo a qual o riso castiga os costumes, para lembrar essa tradição brasileira de usar o humor menos como bálsamo da dor do que como veneno para atingir situações e pessoas que, de qualquer forma, nos afligem. Pode ser para muitos ‘‘alienação’’ ou gesto de impotência, já que os radicais prefeririam as armas e as barricadas de rua, cujo gosto é francês e deles herdamos.
Nos chamados anos de chumbo, os que preferiram a blague à confrontação também deram importante contribuição. Humor em lugar de sangue é um substitutivo de indiscutível conveniência e, em certos casos. de eficácia. Lembro que na 2ª Guerra Mundial havia uma charge sobre o ‘‘heroísmo’’ de Mussolini em que ele aparecia evacuando com a explicação: ‘‘Se este sangue fede, estou perdido!’’
O fato é que o brasileiro, nestes dias, ficou pasmo e até deprimido, porém seguramente compensado em sua autoestima por nosso feito superior ao dos ianques: mandamos um milhão de vezes mais velhinhos ao espaço. Dá até para acreditar que realizamos o sonho profético do cantor Vicente Celestino: ‘‘O meu Brasil/para aumentar a sua glória/ dia virá em seu futuro ascensional/ em que o mundo invejará a sua história/ porque serás o paraíso universal!/’’

AXIOMA
O feriadão começou ontem para os deputados. Pelo jeito não perceberam ainda que para 40% deles o povo deu férias permanentes em 4 de outubro. E assim o fará, gradual e pacientemente, até a renovação geral


GLOSA Um português, há dois anos no Brasil, ficou surpreso quanto à facilidade com que nos indignamos e, mais ainda, com o tempo de duração desse sentimento que parece mais volátil do que os capitais especulativos. Vocês têm dúvida de que se repetirá agora com o pacote? Cartas à Redação. Até amanhã, porque depois não será mais assunto na ordem do dia. Alguém perguntou se os empresários envolvidos no caso da fraude com ICMS (Clube dos 60) foram processados?
BIZARRICE Se o governo não sabe o que fazer com a polícia, nós também, nesta eleição, mostramos não saber o que fazer com o governo, tanto que o reelegemos, à falta de uma opção tolerável.
EPIGRAMA Vi ontem pelo menos umas dez vezes o ministro Malan dando explicações sobre o pacote e até alguns economistas da praça palpitando, alguns do terceiro time e mesmo da várzea. Faz-me lembrar a história do cara que morreu de choque, não anafilático, simplesmente ao ler a bula. Essa tortura de tanta explicação pode ter dois objetivos: matar-nos de tédio ou de susto, enquanto há impressão de que apenas o governo se suicida.
SPRAY Banestado, da Fazenda, vai perder a batalha da informação: a onda de que o secretário Giovani Gionédis seria a favor da federalização do estabelecimento, dando-lhe enquadramento semelhante ao do Banespa, mexe com os delírios de sindicalistas e politicóides que imaginam uma saída do tipo Meridional. - O Brasil demagógico, assistencialista, que admitiu transformar em público e em federal organização particular falida no Rio Grande do Sul acabou. O modelo albergue não volta mais. - Há uma outra corrente que acha possível, mesmo o banco enrascado diariamente no financiamento interbancário, ante-sala da UTI, a sustentação do organismo estadual. - Como se não bastasse, o Banestado continua cometendo erros e abusos como o dos casos da compra de R$ 110 milhões de títulos estaduais podres e essa barbárie que beneficiou Algaci Túlio na qual houve jogada absurda com precatórios. - Como se não bastassem os abusos oficiais, a oposição entra em campo com a denúncia na CAE do Senado, dizendo que o saneamento pode ser feito com a metade dos R$ 4 bi, e o senador Roberto Requião vai ao Ministério Público formalizar denúncia contra Algaci. - A taxação dos setores produtivos da economia, prevista no pacote, vai gerar mais sonegação do que nunca. Teremos a volta do escambo para evitar o cheque e com ele a CPMF, isto é, a troca de mercadoria por mercadoria. Nas escolas privadas, os inadimplentes pagam dívidas com utensílios domésticos. - A esperança está ainda na capacidade de surpreender do Brasil, como já ocorreu em várias épocas e ainda recentemente se observou no registro de que houve aumento do consumo de combustíveis. - Curitiba pode ter, como São Paulo, a sua associação das Vítimas de Carros Chevrolet. Omir Miranda, advogado, está nessa. Em São Paulo, o empresário Ronaldo Lucena de Oliveira, após aturar 45 defeitos do seu Omega 4.1, montou a associação. - Campo Mourão ganhou nove cursos superiores no andamento da gestão de Tauíllo Tezelli. Os últimos são os de Tecnologia Ambiental, em Alimentos e na Construção Civil, todos de 3º grau, do Cefet, e que ofertam vagas a partir do ano que vem.
FOLCLORE Quando o Jaime Lerner está no Palácio Iguaçu nada acontece. Como isso se repete quando ele está viajando, tanto faz que fique ou que vá. Ainda tem gente que acha o Samuel Becket um gênio com o seu ‘‘Esperando Godot’’. Nós vivemos o cenário ‘‘non sense’’, de absurdo, naturalmente, e quase nem notamos.
CROMO E o que anuncia esta sabiá-laranjeira, que há quase uma hora dá um recital aqui na frente do jornal? Estaria contestando a previsão do tempo ou a reafirmando com maior ênfase? Parem os computadores, a sabiá está cantando.
AFORÍSTICO O chato é como o portador de mau hálito: quanto mais buscamos nos distanciar deles, mais se aproximam. O consolo é que todos nós, na medida de alguém, somos chatos. Como Sartre dizia ‘‘o inferno são os outros’’, dá para aplicar a regra aos chatos.

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