Luiz Geraldo Mazza
Omissão como missão
Num dos meus comentários ontem na Rádio CBN, critiquei duramente o governador Lerner por suas omissões notórias nos problemas da Segurança. Como ele tem muitos adeptos, alguns ligaram para a emissora reclamando da veemência e até de falta de respeito em que eu, em tal juízo, teria incorrido. Respondi que faltar com o respeito é o que se dá com um governo que abandona o seu povo ao clima de extrema insegurança em que vivemos, onde há conluios visíveis entre setores da Polícia e do crime organizado, isso sem falar na tolerância com delitos que a autoridade considera menores como os milhares de assaltos em ônibus urbanos porque os furtos são de pequena monta, embora feitos à mão armada.
A demora em assumir responsabilidades como governante no caso das invasões de terra é de levar o contribuinte à paranóia. Bastou, porém, os fazendeiros, não suportando mais tanta omissão, anunciarem a formação de milícias para que outra vez o governador se declarasse disposto a fazer os despejos em pelo menos dez fazendas consideradas, em vistoria, produtivas pelo Incra. Assim se percebe que um documento burocrático vale mais do que uma decisão judicial, o que nos coloca sob o risco, a qualquer momento, de uma intervenção federal.
Requião também não cumpria decisões judiciais, mas adotava uma posição, ainda que discutível, político-ideológica, de aberta aproximação com os sem-terra, o que lhe custou o drama de Campo Bonito em que a PM, depois de perder três dos seus homens, praticamente linchados por manifestantes, cercou e matou o líder Teixeirinha, assunto levado à Organização dos Estados Americanos pela Pastoral da Terra, que pede a condenação do governo brasileiro por ter executado um prisioneiro que se entregara pacificamente. Requião fazia algo centrado em doutrina, a de que o sem-terra é um fato social e que a malha legal os tolera sem ampará-los nos excessos. Tentou até, para ampliar o diálogo, um decreto regulando as operações de despejo, isto é, ingressando em rituais que cabem ao Código Civil, daí ter entrado em conflito com o Judiciário que derrubou duas dessas tentativas de disciplinar a questão.
O governo mostrou sua fragilidade na primeira tensão havida em Santa Isabel do Ivaí, em que sofreu desgastes e um sem-terra perdeu uma das pernas. Essa indecisão animou os sem-terra, que deitaram e rolaram nas invasões e perdeu-se, também, a oportunidade de punir exemplarmente a UDR, quando um grupo de fazendeiros, depois de queimar um acampamento praticamente abandonado dos sem-terra, ‘‘posou’’ na televisão como se heróis fossem. Está colhendo aquilo que semeou, embora haja ainda como redimir-se de tanta omissão.

GLOSA
E atenção: a parte mais amarga do
remédio está nas entrelinhas!


AXIOMA Se você encontrar por aí alguém sorrindo depois do pacote, olhe bem para ver se o cara não tem no rosto o ritus da sequela de um derrame. Ou se se trata de um sado-masoquista, daqueles que batem todo o tempo com um martelo na cabeça só pela expectativa do bem-estar, quase nirvânico, que virá depois.
BIZARRICE A TV, um dia, anunciou a morte de Flora Camargo. Mas não se tratava de Flora Camargo Munhoz da Rocha, viúva do Bento, maior estadista do Paraná dos tempos recentes. Aí um redator de ‘‘O Estado do Paranᒒ ligou para a casa dela (esclareça-se que o jornal foi fundado pelo seu irmão, Fernando, junto com Aristides Mehry e mais José Luis Guerra Rego, e só mais tarde foi comprado pelo secretário de Agricultura de Ney Braga, Paulo Pimentel).
Dona Flora atende e o repórter pergunta: ‘‘Com quem estou falando?’’
- Com a própria Flora Munhoz da Rocha.
- Desculpe, é engano.
‘‘O que mais doeu’’ - relata Dona Flora em seu último livro - ‘‘foi aceitarem com tanta naturalidade a minha partida.’’
SPRAY Quem se sentir seguro em cargos de confiança na Secretaria da Segurança, neste momento, antes de tudo é um mal informado. - Outra coisa: dificilmente se encontrará um só integrante do quadro de delegados que não esteja vinculado a um dos três ou quatro grupos que lutam pelo poder na Pasta. - Tal circunstância prova que o princípio da autoridade acabou na corporação, sobrepujado pela anarquia e a manipulação de interesses por causa do governo banana que temos. - No complexo policial, além da tolerância com vícios na área de jogos, costumes, antitóxicos, furtos de automóveis etc., há vinculações sérias da malha policial com a delinquência. Ninguém crê, de bom senso, que o caso calamitoso de Almirante Tamandaré seja o único ou uma exceção. - A edição do pacote e sua interpretação (algo próximo das letras cuneiformes) não foi para impedir manobras. - O governador, superprotegido, quase numa campânula de cristal, por seus assessores jornalísticos, que parecem advinhar seus pensamentos e intenções, se recusa a falar sobre o assunto. Só falta indicar outro prédio do Centro Cívico, à esquerda do Palácio Iguaçu, para que se obtenha a informação fresca. - Mais uma vez a APP-Sindicato vai sofrer corte das consignações por parte do governo. É válido em momentos de ruptura. Ademais esse serviço custa ao governo e deveria, no mínimo, ser cobrado. Precisamos nos habituar ao fim dos assistencialismos. Não está no pacote, mas figuraria numa nova cultura. A APP aprenderia a buscar seus meios (é muito forte com sua densidade associativa) para essa cobrança, sem dependência do governo e das represálias. Só que teria de pagar, a não ser que explorasse diretamente o serviço. - A luta do arquiteto paranaense Marco Alzamora contra os abusos da prefeitura de Porto Seguro (BA) com verbas federais e que prejudicaram seus projetos urbanísticos, teve uma compensação: a Polícia Federal procede levantamento sobre as distorções. - Na lista de ontem dos novos juízes não saiu a classificada em 10º lugar, Fernanda Maria Zerbeto Assis, filha do nosso colega Mussa, diretor de ‘‘O Estado’’. Todos os primeiros 22 classificados tomam posse dia 4, fazem curso interno e assumem as comarcas em 18 de dezembro. Fernanda deve ir para Umuarama. Mussa estava tão feliz que resistiu ao pacote de FHC, que mais parece de BHC, o exterminador de pragas.
FOLCLORE O cara na fila da vacinação contra o sarampo: ‘‘Isso não imuniza contra o pacote?’’ Estar livre do sarampo é mais fácil.
CROMO Com a prometida greve dos ônibus, a cidade ficará linda com gente de asa delta, pára-quedas, skate, patins, bicicleta e patinete.
AFORÍSTICO A greve do transporte coletivo é covarde porque programada para o feriadão e para forçar a chantagem. Esse aventureirismo não emplaca. Se sair, abre perspectiva para desempregados que se acham habilitados. Tem todo o jeito de locaute, greve de patrão. Isso aí, depois do pacote, é trombada.

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