Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Reassunção parcial
Lerner voltou e ficou na mesma: não viajou, pelo menos por enquanto, mas se recusa, obstinadamente, a recuperar as prerrogativas que indevidamente delegou aos políticos na área de Segurança. Dois assaltos a bancos no centro da capital, ontem, deram bem a idéia da folga geral que, pela frequência, ao lado dos sequestros-relâmpagos (em 98 em São Paulo houve 724, quando a média dos três anos anteriores foi de 61 ocorrências), que proporcionalmente se dão em maior número por aqui, fazem de Curitiba o paraíso do crime organizado e também dos pés-de-chinelo. Não é uma cidade aberta, como dizia aquele sketch do Adherbal Fortes de Sá Júnior dos anos 70, que a denominava de cidade sem portas, mas uma urbe arrombada, espezinhada, pela omissão de uma autoridade que se recusa a assumir a inteireza de suas responsabilidades.
O diretor da Polícia Civil, Artur Braga, não aguentou o repuxo e pediu seu afastamento. Isso ocorre depois de uma guerra de bastidores pelo poder entre correntes de delegados em luta por espaços e, é claro, com aval político. A maior prova de que a corporação se coloca acima das contingências partidárias é o fato de existir um grande núcleo de policiais que atuava abertamente a favor de Requião, o que seria um direito deles não servisse isso para o exercício aberto do tráfico de influência.
Se a corporação não estivesse tão contaminada pela política, ao ponto de muitos dos seus integrantes não perderem o café da manhã na residência do deputado Aníbal Khury, ela teria moral para defender a instituição, antes que o processo de degradação atingisse os níveis atuais. Quando o delegado Adauto de Oliveira fez aquele relato-denúncia de que pelo menos 33 policiais estavam envolvidos no tráfico de drogas e em casos de extorsão, isso numa delegacia apenas, o governador deveria ser o primeiro a fazer soar o alarme, reassumir o espaço e impor um mínimo de ordem e aplicação.
Antes disso, já tínhamos o flagrante de operações escandalosas na Furtos de Veículos e, em que pese o fato de terem sido divulgadas com riqueza de detalhes, nada foi feito. Seguiu-se (e isso é bem mais recente) a barbárie da delegacia de Almirante Tamandaré, em que ficou comprovada a vinculação entre policiais, alcaguetes inclusive, e delinquentes que agiam associados numa comandita.
Houve melhora na Polícia Militar, mas não, pelo menos na mesma intensidade, na Civil, mais permeável, menos rigorosa com a hierarquia. E no meio desse tiroteio, em que a população morre e é ferida como pianista de saloon, o governador não sabe o que fazer, como se um desconforto muito forte acabasse atingindo-o ao tratar de assunto que o desagrada e constrange.
O governo é um todo, indivisível. A falta de decisão e autoridade só tem um efeito imediato: sinal verde, cada vez mais claro, para a violência, sem falar na desagregação interna.
AXIOMA
O Paraná é um caso de polícia.
E simultaneamente de falta de
GLOSA Enquanto um e outro grupo da área policial se acha vitorioso ou derrotado com a queda-de-braço interna, quem ri mesmo é a bandidagem que, há muito tempo, age com a maior desenvoltura.
BIZARRICE Há municípios que deveriam mudar de nome. Terra Rica, por exemplo, área de demonstrações seguidas de sem-terra e proprietários expulsos. Será que se chamasse Terra Pobre ou Terra Esquecida não seria alvo de tantas invasões? Quando inexiste governo estadual nem Terra Rica, nem Terra Boa, nem Terra Roxa estão salvas porque todas não passam de terra de ninguém.
SPRAY Duas vezes, ontem, o governador pediu a intercessão do ministro Raul Jungman, da Reforma Agrária, por ter percebido que a situação do Noroeste é grave quanto ao caso das invasões de terras. - Deu força, por omissão, ao MST, ao não cumprir decisões judiciais, e agora colhe o que semeou: proprietários ameaçam se organizar em brigadas e, quem sabe, fazer a Klu-Klux-Klan com seus capuzes e cruzes queimadas, o que não deixa de ser estético e merecedor de flagrante no Fantástico. - E isso tudo acontece em meio a mais absoluta falta de segurança, que hoje não se limita à capital e Londrina, mas também a Maringá, como se viu novamente com assaltos a ônibus de turismo. - Chantagem: motoristas e cobradores da capital ameaçam greve em cima do feriadão para prensar a prefeitura, o que redundaria em aumento de tarifas. Num tempo de recessão, em que a manutenção do emprego é o valor maior, tenta-se numa assembléia de 50 integrantes representar mais de 10 mil. É mole? - Antes eles ousaram o mesmo tipo de manobra em cima de uma eleição: que o poder sindical está precarizado, como o do trabalho como fator de produção, todos sabem, mas como da outra feita um mínimo de firmeza será suficiente para desmistificar a manobra. - Os jornalistas tinham um piso igual ao dos motoristas quando havia melhores condições de pressão e aproximação forte entre os sindicatos patronal e dos trabalhadores (aliás, o PT e a CUT acusavam o Sindimoc de laranja) e hoje a diferença é apreciável em favor nosso, o que não chega no entanto a R$ 1.000. - Essa greve vai ser repudiada pela população e não irá igualmente resolver os problemas de descapitalização patronal que obteve a promessa, jamais cumprida, de Rafael Greca, de que repactuaria dívidas com o BNDES. - Primeiro lugar do concurso de juiz substituto é José Ricardo Vianna, com 8,145. Seguem-se Luciano Carrasco Falavinha Souza, Marcel Hoffmann, Fernando Ganen, Elaine Siroti, Fabiane Pieruccini, Denise Comel, Marcos Frason, Luciane Bortoleto, Frederico Mendes Júnior, Rodrigo Dalledone, Rosângela Faoro, Ana Lúcia Moraes, Rogério Assis, Roberta Scramin, Letícia Portes, Romeu Machado, Plínio Carvalho, Fabiano Berbel, Antonio Franco Ferreira da Costa Neto. Esses 21 serão nomeados já em novembro para seções judiciárias vagas.
EPIGRAMA Quem seria, no caso paranaense, o Valente Treme-Treme?
FOLCLORE Venda da Copel a preço de banana não impressiona ninguém. Como não impressionará nos casos também da Sanepar, que está na fila da privada ou melhor, da privatização, e do Banestado. Cada povo pode ter o governo que merece, mas cada empresa pública não tem o preço que vale. Depois do que está ocorrendo na Segurança, tudo, tudo mesmo, pode acontecer.
CROMO O tempo, ao menos ontem no fim da tarde, ameaçava melhorar: para cada dia de sol temos pelo menos dez de chuva. Não é verdade que o governo já tenha privatizado o Sol, mas vai fazê-lo com a Copel, que também dá luz.
AFORÍSTICO Como é duro votar sempre no menos pior: do que ganha não dá sequer para chiar porque faz aquilo de ruim que já se esperava, sem lamentar em favor do que perdeu. Uma tragédia.





