Luiz Geraldo Mazza
O recado das urnas
Com a apuração final do segundo turno, percebe-se que a correlação de forças políticas tira aquele ar arrogante do governo e da oposição e os leva ao rito da convergência para um pacto. Não como o de Moncloa, na Espanha, o que seria desejável, embora não possível pelas circunstâncias históricas, mas, de qualquer forma, para uma busca de consenso mínimo no enfrentamento das consequências do ajuste fiscal.
Em síntese, o povo desejou a permanência clara de FHC e, de outro lado, deu força à oposição, o que se consolidou com as vitórias em Minas e Rio Grande do Sul. Apóia FHC e sua política, mostrando, no entanto, um cartão amarelo de advertência. Há, no entanto, situações em que a oposição ficou com o PSDB, como no caso específico de São Paulo, já que Covas tem créditos na esquerda e não é um deslumbrado com a globalização e o neoliberalismo e, ainda que praticando uma linha de rigorosa austeridade (não dá para imaginar um Lerner, com a sua notória falta de determinação, botar, como o paulista fez, 140 mil funcionários na rua), tem restrições à abertura extrema das importações e à ausência de poder regulamentar e até intervencionista da parte do Estado.
O saldo eleitoral favorece Lerner em termos nacionais, pois o PFL, à exceção do hierarca maior Antonio Carlos Magalhães, não tem ninguém com o potencial do governador reeleito do Paraná, se é que este ainda cultiva a aspiração presidencial, a despeito de o desempenho do seu governo estar furos abaixo do potencial do seu mito. Paradoxalmente, Requião também sai valorizado, não apenas em função da votação recebida, como pelo pique revelado em fazer oposição dura e sistemática e de poder no Senado crescer nacionalmente, não apenas na intimidade do PMDB como do aliado à esquerda, o PT.
Esse equilíbrio e mais as declarações de Lula de que está disposto a conversar com o presidente indicam que amadurecemos e que assim será sempre com a frequência de eleições que obrigará ainda, pelos resultados havidos, a uma reformulação da política, impondo-se como reforma prioritária, seguida de critérios de densidade partidária mínimo, pondo-se fim ao circo das siglas de sacanagem e aventureirismo e mais, é óbvio, o distrital misto. Satisfeitos alguns requisitos prévios, cogitar-se-ia da fidelidade partidária.

AFORÍSTICO
Quem é a ‘‘bolha assassina’’ da política?
Cada um tem a sua


AXIOMA Já que o governador é contra ‘‘rangers’’, milícias da UDR, que poderiam restabelecer uma Ku-Klux-Klan, na questão das terras invadidas, precisa dar cumprimento a decisões judiciais no caso de fazendas produtivas. O meio termo nesse assunto não tem qualquer nitidez. Se em quatro anos evitou o cumprimento das ordens judiciais para poupar desgastes políticos não poderá, por mais quatro anos, ficar nesse jogo pendular. Não ganhou nem o apoio da esquerda basista e não diminuiu a bronca dos proprietários. É um empata soda.
GLOSA O consumo de cigarros caiu em 20% no País e isso estaria entre as causas da demissão de 800 trabalhadores da Philip Morris. Um silogismo, que como todos eles é uma chicana da lógica, poderia indicar que precisamos fumar mais para garantir o nível de emprego. Chamar a situação da indústria fumageira de intragável é, além de redundante, de mau gosto. Levamos fumo, certamente.
BIZARRICE Conviver com os contrários é uma imposição orgânica do sistema pluralista e democrático. Há populismos intoleráveis como o de Maluf, felizmente derrotado, e o de Roriz, infelizmente vitorioso em Brasília. A biodiversidade acaba, nesse caso, compensada. Azar do Distrito Federal.
SPRAY Uma interpretação complicada para a crise da economia fumageira sugere que boa parte da comercialização de cigarros era feita por contrabando e o combate a essa modalidade teria acumulado problemas. - A demissão dos 800 empregados da Philip Morris os colocou num dos aspectos fortes da terra de Marlboro: o da aventura cheia de adversidade. - Transporte coletivo de Maringá em questão, quanto ao contrato de permissão, na 4ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça. Há muita gente reclamando que não houve licitação como pré-requisito legal. - Uma batalha judicial e administrativa no meio hoteleiro: na sequência de denúncias de abuso de poder no sindicato da categoria, um associado (Pakkal Snooker Bar Ltda.) pleiteia, além da impugnação da chapa vencedora do último pleito, a responsabilização dos diretores por irregularidades. Também Jayme Canet Neto, do Conselho, reafirmou, em contranotificação judicial, que já havia denunciado anteriormente os transbordamentos da diretoria. Essa briga vai longe. - Orlando Pessuti, deputado estadual, mostrando que a oposição está viva e que a venda de ações da Copel, neste momento, de queda nas Bolsas, é uma irresponsabilidade. À qual acrescento ‘‘próxima da delinquência’’. - Estivemos, ontem, eu, Nanani Albino e mais Nany Lopes, publicitária, num debate sobre a mídia e a questão das drogas na 3ª Semana de Prevenção ao Abuso de Drogas. - De hoje até 30, Praça Osório, haverá, das 9 às 17 horas, atividades informativas, educativas e orientação. - Dia 30, show cultural com desfile de moda, grupos de dança, teatro, capoeira etc., marca o encerramento da promoção. - A mídia, no entender do relato das oficinas, seria a responsável maior por tudo o que leva à patologia das drogas. Parcialmente correta a observação se vinculada ao sistema capitalista e consumista. Ao cidadão cumpre, no meu entender, não fazer o papel de objeto, mas de sujeito desse tipo de sociedade, tanto no consumir produtos, inclusive os culturais, como nas informações. Reagindo, criará instâncias apropriadas, recusando-se à audiência e à leitura, valendo-se de canais críticos e gerando novos. Cartas à redação na mídia impressa, participação no rádio e na tevê e acionando a lei quando for o caso em discriminação e abuso. Sem isso não há como imaginar a democratização dos meios de comunicação, que começa precisamente por aí.
FOLCLORE Cético e asséptico, um sujeito se acredita com o direito de aspirar ao Tribunal de Contas, enquanto outros o acham merecedor de figurar no Tribunal de Nuremberg. Depende do olhar do julgador, o tribunal adequado.
O curioso é que o governo não sabe como escapar do engessamento financeiro e seus integrantes, mais açodados e também adoçados, acham que essa é a maior de todas as prioridades: de quem é a ‘‘boca’’ do Tribunal.
CROMO O ritual do futebol tem benzimentos, braços erguidos para o céu, enfim, muito de liturgia. Práticas cristãs, em muitos casos, decalcaram o paganismo e no mundo da bola há momentos de contrição, de confissão e de eucaristia.

mockup