O desafio está feito: a mobilização de lideranças, convocada pelo prefeito de Londrina, Antonio Belinati, apesar dos adiamentos, sai mesmo em março, se não houver atrapalhos. Objetivo principal, como se percebe na discurseira, é pleitear maior representatividade, o que equivale dizer a postos no primeiro escalão do governo.
Quando lá estavam os parentes do prefeito, Valdemir, o irmão no IPE, aliás em passagem desastrosa (ninguém esquece daquele pagamento imprudente da viúva de Antonio Busato, precipitado, quando deveria ser drenado para os precatórios), e o Dante Guazzi, não havia queixas. Dá a impressão que o setentrião estava atendido, pelo menos na perspectiva do ora reclamante.
Em primeiro lugar, a colocação em prioridades é incorreta: o Paraná sabe, por experiência acumulada, que mais vale ter reciprocidade de tratamento do que manter postos de primeiro escalão (nos governos militares deu para percebê-lo; às vezes, ao invés de aumentar acaba reduzindo o poder de barganha). Assim, pois, antes de exigir presença no primeiro escalão parece-me que o mais correto seria a compensação econômica, dar ao norte mais participação nessa fase febril do pólo automotivo, o segundo do Brasil.
Percebe-se em tudo o oportunismo de Belinati ao valer-se de uma situação de desvantagem efetiva entre o Norte e a Região Metropolitana (o que tornou a sua candidatura um trambolho, pesadíssima, pois afinal era a mesmice populista com três experiências anteriores, obrigando o governo a uma operação militar de desembarque na cidade, a custos onerosíssimos) para posar, a um só tempo, de herói e vítima.
Arrebatou o discurso da oposição, derrotado na eleição, buscando com isso galvanizar apoios entre os que se recusaram a nele votar e fazendo da bandeira de Hauly e do PSDB em causa comum, da qual passa a ser o patrono mor.
Não é um caso de deslealdade como os áulicos palacianos alardeiam, até porque a política é uma atividade em que esse tipo de cobrança é sempre falso, como de resto os relativos à ética. Não há batoteiro e caften, quando trata de assunto político, que não se refira à ética - a santidade no bordel. Parece mais algo ligado à psicanálise: Belinati sempre se elegeu pela oposição e ao se ver guindado ao poder de novo pelo situacionismo tenta mostrar, por uma via oblíqua, que continua o mesmo. Aliás, sobre isso não há a menor dúvida.
O Norte - e não apenas ele, mas também outras regiões do Estado - precisa de maior presença do governo em obras e, mais do que isso, nessa indução em favor de investimentos. Mas o porta-voz é um tanto quanto postiço, ainda que o seu discurso pareça verdadeiro.
BIZARRICE - Às vezes, na Boca Maldita, é possível ouvir algo de erudito ou de histórico. Foi o que aconteceu ontem quando alguém ao referir-se ao fato de o Paraná estar sendo governado de uma cadeira de rodas ouviu a contestação de que durante muitos anos isso já havia ocorrido. E deu o detalhe: Marins Camargo, que nem governador era, tomava decisões de uma cadeira de rodas.
SPRAY - Um megaempresário, que acumula empreitada e mercado financeiro, foi o desencadeador da onda da Apeop contra o governo porque se mostra irritado com o fato de um crédito seu de governos anteriores não ter figurado no orçamento. - Há, porém, um dado curioso na alegação de que o atual governo é o que pior vem tratando os empreiteiros. Ora a imagem de empreiteiro no Brasil, como se viu em episódios como o de Collor, não é lá essas coisas e, de repente, isso pode ser interpretado como reação à normalidade, o que dá pontos a Lerner em maior número do que os recebidos no joelho. - Falta de diplomacia de Lerner na declaração, segundo a qual o critério para o secretariado é o da competência e não o dos fundamentos regionais. Belinati perguntou se é possível não haver uma só pessoa competente nos dois milhões do Norte. Um a zero pé-vermelho. - Copel de sobreaviso com a carga do rio Iguaçu. Falava-se, ontem, que o rio poderia subir até sete metros e isso obrigaria a regular a vazão ao longo das barragens existentes. - Por sinal, a de Foz do Areia é onde as primeiras damas e secretários da área social das prefeituras estarão, em Faxinal do Céu, para um trabalho interativo hoje e amanhã. - No primeiro dia de funcionamento da programação ‘mexicana’ da CNT foram registrados, das 6 da tarde às 11 da noite, mais de 50 mil telefonemas, todos concorrendo a prêmios. - Requião pode ao desfrutar do papel, que aliás sempre admirou (o de inspetor geral, o de polícia e o de promotor), crescer muito e, se não pisar na bola na CPI dos Títulos Públicos, habilita-se a um papel crescente no PMDB nacional. Ontem, apareceu com destaque em São Paulo, ao lado de Romeu Tuma, seu colega e com quem tem afinidades em tarefas investigativas, embora nem tanto nas de traço ideológico-doutrinário. - Se a CPI mantiver seu ritmo e devassar todo o esquema, punindo culpados e mostrando vulnerabilidades também do Banco Central, do Senado e dos governos, terá feito algo parecido com a outra, aquela do orçamento.
FOLCLORE - O governador Jaime Lerner disse que o critério para a montagem do secretariado é o da competência. E o do sectariado é a submissão e também a vassalagem disfarçada em lealdade.
CROMO - O relógio quase tão dourado quanto o chope em que está mergulhado. Eis um símbolo do ócio e do prazer, que daria um tema para Salvador Dali.
AFORÍSTICO - Se ainda se usasse o gesso para casos como o de Lerner, algum áulico iria colocar o aparato, depois de usado, como ex-voto de religioso.

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