Luiz Geraldo Mazza
Se o senador Roberto Requião, como candidato, agisse com a dureza com que está se comportando relativamente ao governo Lerner, talvez pudesse ganhar o pleito por estreita diferença. Todos os que o aconselhavam a assumir um tom hard, cheios de razão, agora argumentam: Eu não dizia? Ocorre que o feeling do candidato derrotado sugeria outra coisa: quanto mais batesse em Lerner e, especialmente, na sua mitologia, perderia votos. Foi assim, pisando em ovos e isolando Álvaro Dias, em cuja aproximação via queda no seu Ibope, que obteve aquela massacrante vitória para o Senado na base do mais dos agudos oportunismos. Mas agora decidiu mostrar vida e está sufocando o situacionismo com seus ataque, cada vez mais veementes.
Antes corria aquele risco de ser olhado como inimigo do Paraná, traidor (a preocupação nesse particular foi tanta que um artigo meu, mostrando que Lerner tinha culpa na questão dos empréstimos detidos no Senado, apareceu transcrito, inúmeras vezes, em jornal de Curitiba) e tudo o mais. Agora, com o desgaste também de Lerner, em parte decorrente do que foi dito na campanha, ele se prepara duramente para uma tarefa de vigília na Câmara Alta e da máxima severidade com as coisas do Paraná. Vai dar toda semana detalhes sobre fraude e corrupção na já imensa casuística do Banestado, para ir criando um clima de resistência ao processo de saneamento.
Se Lerner não souber agir politicamente, haverá com o Banestado o mesmo que se deu com o Banespa: um processo de federalização antes da privatização. Lá foi também a politização do tema, aliás de tramitação demoradíssima, que levou a alternativa de uma solução diferenciada para que o estabelecimento não sangrasse no interbancário, como de certa forma se dá aqui. Será uma derrota e tanto, pois outras iniciativas, agora até do Tribunal de Contas, de discutível pertinência, ajudam a minar o governo, como se já bastasse a desagregação que decorre dos inúmeros processos na Justiça Federal, que envolvem os feitos do falecido diretor da Leasing e que alguns veículos indicam que seria uma vítima e não o autor efetivo das operações calamitosas.
Só há uma remédio para isso tudo: o Lerner governar. O que não está fazendo até agora. E governar significa não apenas atrair capitais, enquanto a economia regional se degrada e perde a identidade, mas ainda sustentar o controle sobre as ações públicas, o que inexiste, como se viu nas picaretagens do Banestado, obra de políticos e não de técnicos, e que vão muito além dessa paradigmática terceirização da secretaria de Segurança.
AFORÍSTICO
Lerner voltou, mas finalmente, desta vez, toma posse
AXIOMA Sobre a demissão coletiva do secretariado, Eduardo Virmond lembrou de Eugênio Gudin, ex-ministro da Fazenda, e que tinha um chapéu em seu gabinete para poder dizer, na hora em que conflitasse com o governo, boto o chapéu e vou embora. Hoje não se usam mais chapéus, diz o Virmond, de modo que ninguém mais se afasta por vontade própria. Virmond entrou um pouco na onda que o Aníbal tinha criado e o Lerner desfez rapidamente ao chegar. Ninguém precisou botar o chapéu na cabeça e quem levou um chapéu foi a fauna política.
GLOSA Os desconfortos de Pinochet constituem uma experiência pedagógica: nem os norte-americanos se metem na mediação como fez a dama-de-ferro Margareth Tatcher. Não há como criar uma aura de martírio num caso desses. Aliás, os caçadores de nazistas judeus pegaram pessoas até com mais de 80 anos e as colocaram nas prisões, sem que houvesse aquela comoção pelo fato de os presos estarem no fim da vida. Essa questão é um jogo pragmático, assentado em coisas aparentemente nobres, mas nem sempre aplicável a todos.
Fidel fez uma advertência: o fato vai polarizar a direita militar e civil e dividir a base que sustenta o processo democrático no Chile. Aliás, Fidel corre o risco de passar um vexame igual, a despeito de a esquerda e o centro europeus o cultuarem, tal qual os cubanos, como um herói. O filósofo Sartre foi um dos que chegaram a fazer reportagens promocionais sob o título Furacão sobre Cuba. Não chegou ao nível do Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed, no caso do golpe bolchevique na revolução russa, mas valeu como peça de proselitismo diante do prestígio do existencialista.
BIZARRICE Além de ter de suportar uma oposição dura do Senado (o que o obrigará a aproximar-se e a fazer acordos, o quanto antes, com os irmãos Dias), Lerner deverá suportar o humor corrosivo de Requião com frases de efeito, arte em que se acredita pós-graduado. Eis uma delas: Jaime Lerner será o Pitta de seu próximo governo, já que nesse primeiro mandato ele foi o Maluf dele mesmo. Dá para lembrar que o Janene, principal mentor e negociador do PPB, fez comício junto com Requião. Haja lealdade.
CISNE Capa do semanário Hora H desta semana: A agonia do lernismo.// Vitória de outubro// pode ter sido o// canto do cisne// Profecia é uma arte cada vez com maiores riscos. Quando nos anos 60 Hermann Khan lançou o livro sobre o ano 2000, no qual fazia as mais lúgubres previsões a respeito da América Latrina e do Brasil, mal saiu a tradução da editora e os números indicados por ele (renda per capita, PIB global etc.) estavam superados.
O que vai faltar a Lerner, certamente, será grana para propaganda e essa situação lhe criará um desafio inteiramente novo. Até aqui não soube viver sem ela. Aliás, poucos a empregaram tão sistematicamente quanto ele.
FRIGIDEZ Não há razão alguma para se acreditar que a mulher normal é frígida ou que a minoria de mulheres que inquestionavelmente o são tenha algum peso na balança. É a vaidade dos homens que dá tanto valor às mulheres do tipo virginal, o que faz com que esse tipo tenda a crescer pela seleção sexual - mas, apesar disto, está longe de superar a mulher normal, tão realisticamente descrita pelos teólogos e publicistas da Idade Média. Mencken, 1921.
FOLCLORE A loucura no futebol: eu xingando o juiz Ataíde Santos no campo do Juventus e ele como César depois da punhalada de Brutus, reclamando em voz alta e com os olhos a mim dirigidos: Até você, Mazza?. O goleiro Rubens, do Atlético, pulando o alambrado no Joaquim Américo e perseguindo o cara que o havia chamado de frangueiro. Cireno, ponta esquerda do Atlético, tirando o gorrinho do goleiro Belo no gol de empate contra o Coritiba e o atleta, irritado com a calva à mostra, se atraca corporalmente com o provocador. O jogo parou em 1 a 1 e o Atlético levou os pontos. O Espiridião Feres, presidente da Federação, atleticano doente, joga o guarda-chuva contra o árbitro e a cena parece lançamento de dardo com o objeto fincado na grama e o dirigente pedindo depois ao gandula que o devolvesse porque estava chovendo. A realidade aí é pura fantasia, de causar espanto em Gabriel Garcia Marquez.





